A FpD divulgou via e-mail a notícia de que amanhã irá visitar a Boavista - o bairro da nossa cidade caos - onde a cólera matou angolanas e angolanos neste início de 2006.
É muito bom que a FpD vá à Boavista estar com as angolanas e angolanos que aí residem e que, como sabemos, integram a grande maioria da população mais pobre do nosso país. Essa comunidade vive em condições que contrastam de modo extremo como bairro vizinho do Miramar onde vive boa parte dos angolanos mais abastados. Angolanos daqueles que de facto beneficiam dos bens e dos serviços desta terra que é o 2º pior lugar do mundo para se nascer.
A cólera é doença de pobre. Pode mas até agora nunca ouvi falar de rico infectado pelo macabro vibrião colérico. Cólera de rico que conheço é só mesmo aquela cólera autoritária com que se assanha contra o pobre. Cólera é doença de quem não é servido pela rede de adução de água para consumo humano, nem pelos serviços de saneamento básico de forma sistemática e suficiente. A gente que vive na Boavista é gente que além da carência em água e saneamento nem acesso à legalidade da posse dos seus espaços e à possibilidade de desenvolvimento tem tido.
É gente sacrificada ali mesmo de baixo do nariz da tal classe média que pretende ser a locomotiva do nosso desenvolvimento mas que ainda não entendeu que o egoísmo não lhe vai deixar chegar a esse "status". Os dois vizinhos são tão próximos que se podem observar à vista desarmada mas a gente rica do Miramar, lá em cima, está em termos de bem-estar a milhares de milhas de distancia da pobreza dos boavistenses lá em baixo. Tanta dessa a gente da tal de classe média angolana em formação, [os novos ricos que "ganhamos" na lotaria da nossa desgraça], assim como os representantes da comunidade internacional residentes no Miramar, em muitos casos, são servidos por cidadãs e cidadãos que vivem na Boavista. Gente que lhes lava a roupa, limpa as casa e os quintais, lhes mantém os jardins, dá de comer aos seus cães de raça e que em alguns casos até trata com carinho dos filhos desses patrões que a vizinhança lhes colocou à mão de semear.
Em cima estão os com tudo e na situação de tudo bem, em baixo os com quase nada e na situação de tudo mal. Os pobres estão fisicamente à distancia duma pedrada arremessada à mão mas, durante todos estes anos, nenhum dos do lado tudo bem se lembrou de arremessar um programa que melhora-se as condições sanitárias do meio onde vivem os vizinhos no tudo mal. Nem mesmo já só para impedirem o aparecimento de doenças que, dada a proximidade, os pode vitimar também. Muito provavelmente vão continuar o programa de correr com o pobre dali para os "cascos-da-rolha" ao invés de com ele elaborarem e implementarem um programa de desenvolvimento que melhore o meio e gere bem-estar para todos. Irão seguramente para algum depósito de pobreza algures na periferia do horizonte da cidade, pois os ricos e poderosos querem-nos longe das vistas, do nariz e do resto.
A cólera é uma doença dos pobres de países mergulhados na pobreza. Isso mesmo quando no meio da maior pobreza há riqueza e gente riquíssima. A cólera é ela mesma um indicador de pobreza generalizada. Por isso ela adquire também fóruns de doença política. É uma doença resultante de políticas predadoras ou da não existência de políticas de gestão da coisa pública e da cidade, ou seja políticas (não ter política é uma política) fundadas no demissionismo dos órgãos da Administração do Estado, na exclusão que engendra a situação de deserdados em que vive a maioria das cidadãs e cidadãos angolanos.
É necessário e urgente que os problemas dos deserdados da nossa terra sejam colocados no centro do político para que se tornem determinantes da agenda nacional e assim possam vir a ter as soluções que exigem com urgência. Afinal o Estado - a sociedade política - funda-se na existência da sociedade de que é pressuposto ser a concretização da respectiva vontade geral. Sociedade cuja parte maioritária são as pessoas das "boasvistas" todas da Angola marginal, a tal da outra Angola desde sempre e ainda hoje dominada e por isso carente da libertação social.
Num país onde a capacidade de auto protecção das pessoas é quase nula o demissionismo dos governantes, sobretudo no domínio da saúde pública, tendo como consequência a morte precoce de cidadãs e cidadãos é, e deve ser tido e tratado, como crime grave contra a humanidade. E quem comete crimes contra a humanidade, sejam de que índoles forem, tem que ser impedido de ser governo de quem quer que seja em qualquer país do mundo.
Por tudo isso é bom que a FpD vá amanhã à Boavista, a vizinha degradada do bairro fino do Miramar. Espero que depois, sistematicamente, vá a todas as "boasvistas" da nossa cidade e do país, de preferência antes da ocorrência de desgraças, para ajudar as comunidades a prevenirem-se. Os outros partidos da oposição devem todos fazer o mesmo. O da situação também. Faço votos para que assim se concretize o encontro entre os homens dos partidos políticos e a população mais pobre e deserdada da nossa terra porque é urgente que o Estado deixe de ser o vassalo exclusivo dos ricos que dele se servem e passe a ser o servidor de todos, em particular daqueles que são os mais carentes de entre nós. Por tudo isso bem-haja o gesto que a FpD anuncia.
por Luís Araújo
domingo, 26 de fevereiro de 2006
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006
«Estamos livres de eleições...»
In angolapress, 23/02. O coordenador da Comissão Interministerial para o Processo Eleitoral (CIPE), Virgílio de Fontes Pereira, condicionou hoje, em Luanda, o registo dos eleitores no exterior do país à uma decisão política ainda não tomada. (...) A votação dos cidadãos na diáspora depende de uma questão política que caberá à Assembleia Nacional e os Ministérios da Justiça e das Relações Exteriores decidirem (...).
Em minha opinião, impõe-se alguma clareza e verdade neste domínio. Basta-nos a dúvida maior, há muito alimentada, quanto à data das eleições. Acresce-se àquela dúvida outra relativa ao início do registo eleitoral.
É penoso, e deplorável até, que o nosso país continue adiado, «hibernado» e anestesiado, por causa de um acto que está, afinal, adiado «sine die».
Este cenário ilustra eloquentemente a frase seguinte (que terá sido proferida por um padre), que me foi transmitida por um amigo: «enquanto os outros países realizam eleições livres, em Angola, estamos livres de eleições».
Até quando?
por pfromao
Em minha opinião, impõe-se alguma clareza e verdade neste domínio. Basta-nos a dúvida maior, há muito alimentada, quanto à data das eleições. Acresce-se àquela dúvida outra relativa ao início do registo eleitoral.
É penoso, e deplorável até, que o nosso país continue adiado, «hibernado» e anestesiado, por causa de um acto que está, afinal, adiado «sine die».
Este cenário ilustra eloquentemente a frase seguinte (que terá sido proferida por um padre), que me foi transmitida por um amigo: «enquanto os outros países realizam eleições livres, em Angola, estamos livres de eleições».
Até quando?
por pfromao
terça-feira, 21 de fevereiro de 2006
Quando dizer é fazer...
Sou parte da imensa minoria de angolanos, passe o paradoxo, que ainda acredita na "mudança das vontades e dos tempos..." Angola é hoje uma espécie de desafio ao desencanto, um teste, duro, à vontade de resistir. A geração de angolanos que nos anos trinta e quarenta desenhou o nacionalismo que a geração seguinte, a de cinquenta e sessenta, pôs em acção, sempre balançou entre a persistencia em continuar a acreditar numa Angola Independente e o conformar-se com os tempos e com a vontade do momento. Quando lemos agora, com certa doze de emoção, as cartas que eles escriviam uns aos outros, não deixamos de nos questionar: como é aqueles moços, imberbes quase, na casa dos vinte, sem outra arma que a palavra e a crença na liberdade puderem ser tão ousados, tão criativos, tão imaginativos, enfim...tão angolanos!!! Parece que temos que acreditar também que a democracia liberal poderá contribuir, pelo menos, para que o maior número possível de angolanos tenha uma, chamemos assim, "vida boa". A arma dos que se dedicamn, entre outras coisas, a pensar, é a palavra. Usada com tenacidade é uma forma de estar também em campo aberto. Dizer também é fazer. Para isto aqui estou. Presente!
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Romper a indiferença contra a pobreza e a exclusão social
A existência de milhares e milhares de pessoas que vivem em situação de pobreza em Angola, traduz uma grande injustiça e constitui uma ofensa à dignidade pessoal e um desrespeito pelos pelos mais sagrados direitos humanos, que só nos pode incitar ao mais profundo incoformismo. É este inconformismo a que pretendo dar voz, por imperactivo de consciêcia, procurando que o mesmo se transforme numa energia colectiva e positiva , capaz de nos fazer caminhar no sentido da erradicação das causas produtoras e reprodutoras da pobreza e da exclusão social em Angola.Julgo que é com este espírito que o meu grande amigo (Pedro Romão) teve a iniciativa de criar o presente espaço de discussão sobre Angola, nesta grande aldeia global (que é a internet). Está de parabéns. Considero este espaço como um apelo a não sermos ingénuos ou acríticos perante as temáticas que serão aqui abordadas. Com ou sem vontade, somos herdeiros das "discussões" socio-politicas, económicas, culturais, etc...do nosso espaço vital (Angola).
Sempre que possível, cá estarei para dar o meu contributo. Pois, num país como Angola, com as portas por abrir para a " democracia", os os jovens que pensam não podem ficar à margem, nem permitir-se ao luxo de criar o seu proprio micro-cosmos.
por Veloso Ndunguini, ndunguini@hotmail.com
Cadeira vazia ou Intelorância Política?
O artigo interessante do amigo Luís Araújo sobre a notícia da semana que findou, faz-me retomar um artigo que havia escrito, mas que não publiquei, sobre «cadeira vazia ou intolerância política?».
Os argumentos que apresentou, se considerarmos a especificidade do nosso contexto, são bastante discutíveis. Não é que eu corrobore com os «comentaristas» que entendem que a ameaça de Samakuva poderia significar o recuo e recurso à mata.
A primeira ideia que me ocorre é que a nossa democracia não é ainda madura, (é apenas proclamada) precisa de dar prova que ela se pode construir nos marcos institucionais, que outrora foram rejeitados e invertidamente trocados por campos de batalhas. Parece-me fácil pensarmos que o facto de sermos uma democracia formal estamos habilitados a exercitar as experiências de uma qualquer democracia consolidada. Além de que, pode, à primeira vista, parecer uma boa estratégia, a retirada do parlamento pelos deputados da Unita, dada a falta de legitimidade democrática em que está mergulhado, há muito, o nosso parlamento. Não é assim, no entanto, que vejo as coisas: para mim, há que preservar, neste momento, a estabilidade política, por ser um valor mais alto e que vai concorrer para que a transicção e a normalização da vida política democrática se faça sem pertubações maiores, envolvendo o mais possível os cidadãos.
Contudo, também não subscrevo tanto as ideias defendidas pelo kota Justino Pinto de Andrade, que se fixou mais nas perdas materiais pela parte da Unita se este partido abandonasse o Parlamento. Julgo que o aspecto que aconselha a manutenção dos mandatos no Parlamento angolano é de cariz substancialmente político: queremos ou não que o Parlamento seja uma realidade central de debate político e das grandes decisões nacionais?
Seria uma tentação errada fazer duma táctica, que é o abandono do plenário, a própria estratégia ou política de combate democrático. A oposição angolana deve mostrar pelo combate político no terreno que é capaz, ou que é incapaz, doutro modo, não mostra que é uma alternativa. Não se convence o eleitorado assumindo o papel de «coitadinho» e com atitudes lamuriosas - essas não mobilizam -, mas sim pela qualidade das propostas.
por pfromao
Os argumentos que apresentou, se considerarmos a especificidade do nosso contexto, são bastante discutíveis. Não é que eu corrobore com os «comentaristas» que entendem que a ameaça de Samakuva poderia significar o recuo e recurso à mata.
A primeira ideia que me ocorre é que a nossa democracia não é ainda madura, (é apenas proclamada) precisa de dar prova que ela se pode construir nos marcos institucionais, que outrora foram rejeitados e invertidamente trocados por campos de batalhas. Parece-me fácil pensarmos que o facto de sermos uma democracia formal estamos habilitados a exercitar as experiências de uma qualquer democracia consolidada. Além de que, pode, à primeira vista, parecer uma boa estratégia, a retirada do parlamento pelos deputados da Unita, dada a falta de legitimidade democrática em que está mergulhado, há muito, o nosso parlamento. Não é assim, no entanto, que vejo as coisas: para mim, há que preservar, neste momento, a estabilidade política, por ser um valor mais alto e que vai concorrer para que a transicção e a normalização da vida política democrática se faça sem pertubações maiores, envolvendo o mais possível os cidadãos.
Contudo, também não subscrevo tanto as ideias defendidas pelo kota Justino Pinto de Andrade, que se fixou mais nas perdas materiais pela parte da Unita se este partido abandonasse o Parlamento. Julgo que o aspecto que aconselha a manutenção dos mandatos no Parlamento angolano é de cariz substancialmente político: queremos ou não que o Parlamento seja uma realidade central de debate político e das grandes decisões nacionais?
Seria uma tentação errada fazer duma táctica, que é o abandono do plenário, a própria estratégia ou política de combate democrático. A oposição angolana deve mostrar pelo combate político no terreno que é capaz, ou que é incapaz, doutro modo, não mostra que é uma alternativa. Não se convence o eleitorado assumindo o papel de «coitadinho» e com atitudes lamuriosas - essas não mobilizam -, mas sim pela qualidade das propostas.
por pfromao
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