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quinta-feira, 29 de junho de 2006

Angola no «Mundial» do Desenvolvimento

Vamos, na reflexão de hoje, analisar e repensar o triste desempenho de Angola numa das mais importantes competições da humanidade: o «Mundial» do Desenvolvimento. Nesta competição, o apuramento das «selecções» faz-se mediante as capacidades das «equipas» usarem todos os seus recursos e todas as suas potencialidades na criação de condições que contribuam para o bem-estar físico e espiritual de todos os seus «adeptos». Porque, seja quais forem as «selecções» dos seus corações, todos os «adeptos» deste mundo desejam ter boa vida, viver mais tempo, aumentarem os seus conhecimentos, participar activamente na vida das suas comunidades e usufruir da segurança das suas pessoas e dos seus bens.

O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a FIFA do desenvolvimento, dispõe das seguintes competições que avaliam e premeiam as «equipas» desta importante competição da humanidade:

Supertaça da Evolução: Fazem parte desta fase do «Mundial» as «equipas» que canalizaram, de forma brilhante, todos os seus recursos e potencialidades na valorização dos seus «adeptos» em todas as suas dimensões. Dominam a Supertaça as «selecções« da Noruega, Islândia, Suécia, Canadá, Suíça, Luxemburgo, Austrália, Dinamarca e Finlândia.

Liga dos Campeões: A maior parte das «equipas» desta milionária competição estavam completamente arruinadas depois da II Guerra Mundial. Mas, em poucas décadas, recuperaram de forma espectacular, tornado-se poderosas «selecções». Destacam-se nesta fase da «Copa» do Desenvolvimento, os EUA, o Japão, a Bélgica, França, Holanda, Alemanha, Itália, Inglaterra, Irlanda, Espanha, Áustria e Nova Zelândia.

Superliga do Desenvolvimento: As «equipas» desta fase do «Mundial» fizeram brilhantes esforços no sentido de promoverem o crescimento económico das suas comunidades e a valorização integral dos seus «adeptos». Mas, por várias razões, ainda persistem no seio dos seus «adeptos» pequenos focos de pobreza, desigualdade e exclusão social. Destacam-se nesta fase do «Mundial» as selecções de Israel, Portugal, Grécia, Singapura, Coreia do Sul, Chipre, Rep. Checa, Qatar e Emiratos Árabes Unidos.

Liga do Mau Crescimento: Muitas «equipas» desta fase do «Mundial» dispõem de vastos recursos humanos e naturais. Mas a gestão dos mesmos tem sido feita de forma desastrosa. E pior. Houve um gritante desajuste entre o crescimento económico e o desenvolvimento humano. Assim, enquanto multidões imensas de «adeptos» enfrentam privações de toda espécie, algumas «claques» vivem na opulência e na dissipação. Coexistem, assim, entre os «adeptos» das «equipas» desta competição, o luxo e a miséria. E as causas destas desigualdades podem ser de ordem política, económica, racial, cultural ou religiosa. Destacam-se nesta liga a Líbia, Rússia, Brasil, China, Venezuela, Tailândia, Turquia, África do Sul.

Liga dos Últimos: As «selecções» que competem nesta fase do «mundial» do Desenvolvimento fracassaram, por várias razões, na criação de condições que contribuam para o bem-estar físico e espiritual dos seus «torcedores». Por isso, a esmagadora maioria dos seus «adeptos», é incapaz de ter uma vida longa e saudável, de adquirir conhecimentos, de participar activamente na vida comunitária, de exercerem os seus direitos cívicos e políticos e de terem acesso aos recursos necessários para beneficiarem de um padrão de vida adequado. A nossa «selecção» faz parte desta competição, ocupando o 15º lugar entre as 32 «selecções» presentes nesta fase. O Madagáscar, a Suasilândia, os Camarões, O Lesoto e o Djibuti ocupam os cinco primeiros lugares da tabela classificativa.

Portanto, Angola, depois de ter sido uma das mais promissoras «selecções» deste planeta, apresenta-se hoje no vergonhoso grupo das «equipas» que incontestavelmente lideram os piores dados estatísticos do «Mundial» do Desenvolvimento. Quer isto dizer que estamos muito aquém do progresso económico e do desenvolvimento sustentável que tanto se fala. Estamos muito longe de ser a tal potência africana que tanto se propala. Porque nesta competição, a força e o poder de uma «selecção» não é determinado pelas riquezas existentes no mar, solo e subsolo. Não é mensurado pela cilindrada dos luxuosos carros que circulam nas suas principais cidades. Não é valorado pelo poderio bélico das suas forças armadas. Não é medido pelas caprichosas extravagâncias das suas elites.

Pior do que este triste cenário, é o facto de, ao longo destas décadas de raras «vitórias», alguns «empates» e muitas «goleadas», desenvolvermos o estranho hábito de atribuirmos exclusivamente às «equipas de arbitragem» a culpa pelo mau desempenho da nossa «selecção». E são muitos os «árbitros» que serviram de «bodes expiatórios»: «o colonialismo que cultivou o obscurantismo e a exploração do homem pelo homem»; «o imperialismo e seus lacaios»; «a cobiça de alguns países»; «os bandos de fantoches armados»; «a ingerência de alguns estados no assuntos internos de Angola»; «o regime comunista instaurado em Angola»; «a arrogância dos caudilhos»; «o regime totalitário de Luanda»; «o neocolonialismo russo-cubano»; «os profundos interesses das grandes potências mundiais», etc., etc.

A nossa selecção tem condições de fazer uma notável campanha no «Mundial» do Desenvolvimento. E não é utópico sonharmos brilhar na Liga dos Campeões ou conquistar a Supertaça da Evolução. Mas para materializarem este sonho e darem esta enorme alegria aos «adeptos» angolanos, os responsáveis da «federação», a «equipa técnica» e os «jogadores» terão de moldar uma grande «equipa» e por em marcha um gigantesco plano de trabalho que seja capaz de, em poucas décadas, tirar a nossa promissora «selecção» das humilhante Liga dos Últimos, superar a Liga do mau Crescimento e ocupar os lugares cimeiros da Superliga do Desenvolvimento.

E para conseguirmos realizar esta espectacular e honrosa subida, a realização pessoal e social dos «adeptos» angolanos terá de ser o fim único e absoluto da actuação de todos quantos integram os trabalhos da «selecção» de Angola. Porque, como bem disse João Paulo II, “a pessoa humana, na sua dimensão pessoal e comunitária, no que ela é e no seu desenvolvimento, deve ser o ponto de referência para a organização da sociedade e da economia, para a elaboração das leis, para o ordenamento das relações sociais, para a distribuição dos bens da comunidade nacional”. E dado que a dignificação dos «adeptos» deve ser o centro de todo e qualquer plano de crescimento económico e desenvolvimento sustentável, a nossa «selecção» dificilmente sairá da vergonhosa classificação enquanto os responsáveis pelo nosso destino colectivo continuarem a gerir, de forma desastrosa, os nossos abundantes recursos e persistirem em vedar à esmagadora maioria dos «adeptos» de Angola o legítimo acesso a todas as coisas de que necessitam para levarem uma vida verdadeiramente humana.

José Maria Huambo

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Os Donos da Bola

Há, entre nós, uma generalizada desilusão motivada pela forma como a oposição política, as principais instituições civis e religiosas, as lideranças sindicais e alguns intelectuais proeminentes se submetem aos jogos, caprichos e desmandos do núcleo duro que detém o poder e domina a sociedade angolana.

Este triste fenómeno fez-me recuar no tempo e rever uma das mais sinistras figuras da minha memorável infância: o dono da bola. Aqueles que, como eu, passaram grande parte da infância a jogar a bola, lembram-se, com certeza, que durante a década de oitenta eram poucos os que tinham um esférico a sério! A maior parte de nós passava longas horas a jogar com bolas de trapos ou de meias. E a imensa criatividade dos miúdos do meu tempo proporcionou-nos o prazer de jogar futebol com bolas de vários tipos e feitios, sendo as mais «sofisticadas», aquelas que o Narciso fazia: envolvia um monte de plásticos em peúgas militares, até formarem um grande esférico. Depois cobria-o com restos de colchão de esponja, para dar-lhe elasticidade. Por fim, envolvia o esférico esponjado num saco plástico, entrelaçando-o com cordas de barbante que lhe dava o aspecto atractivo.

Claro que, enquanto incondicionais amantes do futebol, o nosso ardente desejo e a nossa mais profunda ambição era jogar com um esférico a sério, quer fosse de borracha ou de «catchu». Mas, naquele tempo, as ditas bolas eram um raro bem, apenas ao alcance dos clubes a sério, das equipas dos caçulinhas e dos filhos dos «pequenos burgueses». É neste contexto que os poucos proprietários de um esférico a sério surgiram como figuras marcantes da nossa infância. E de todas essas figuras com as quais me deparei, uma delas destaca-se como paradigma perfeito da confrangedora situação vivida pelas cada vez mais passivas figuras da oposição política, da intelectualidade nacional e das lideranças sindicais, sociais e eclesiásticas.

Por razões pessoais, vou omitir o seu verdadeiro nome e chamar-lhe Jota-Jota. Apesar de ser um bom miúdo, Jota-Jota nunca foi um daqueles jogadores indispensáveis, quer nas equipas da nossa rua, quer nos grupos que actuavam nos pelados das escolas que circundavam o nosso bairro. Na maior parte das vezes, ele só entrava em campo nos dias em que havia pouco pessoal. Mas tudo mudou a seu favor quando uma das tias vinda de Luanda entregou-lhe uma prenda carinhosamente enviada pelo padrinho que vivia em Portugal: uma novinha bola de «catchu» Mikasa e um equipamento completo da Adidas, daqueles com fato olímpico, calções, camisola, meias e chuteiras. Assim, por ser dono da mais cobiçada bola do meu tempo, Jota-Jota passou a ser o miúdo mais adulado e o jogador mais procurado da minha rua.

Cansados de jogar com as «sofisticadas» bolas do Narciso e ansiosos por colocar os nossos pés descalços na bendita Mikasa preta e branca, pressionamos o novo dono a marcar um jogo de estreia. Mas só no dia do desafio nos apercebemos que o Jota-Jota, como qualquer dono da bola que se preze, iria usar a Mikasa como instrumento de poder e de influência. Os caprichos e desmandos que um esférico de «catchu» lhe conferia vieram logo ao de cima na altura do «bota-sapato». Para quem não sabe ou não se lembra, o «bota-sapato» era um «democrático» mecanismo que determinava a escolha das equipas. Dois jogadores ofereciam-se ou eram escolhidos para seleccionarem os elementos das suas equipas. Marcava-se um ponto de referência. Os dois jogadores davam a mão e, partindo desse ponto, recuavam até uma certa distância, a partir da qual começavam a contar os passos em direcção ao ponto de referência. Por cada passo dado um dizia «bota» e outro respondia «sapato». Aquele que alcançasse primeiro o ponto de referência tinha direito à primeira escolha.

Fui escolhido para apadrinhar o primeiro «bota-sapato» do dono da bola. Durante o percurso em direcção ao ponto de referência, Jota-Jota deu dois passos a mais e ganhou o direito à primeira opção. Todos vimos a monumental batota. Mas, levados pela ânsia de jogar com uma bola a sério, acabamos por desculpar a fraude. Jota-Jota, ciente do ascendente que passou a exercer sobre nós, estava decidido a ficar com os melhores em campo. E esta pretensão ficou clara quando anulou as minhas primeiras escolhas que tinham recaído sobre o Nato (Bernardo) e o Enoque, que eram, respectivamente, o melhor guarda-redes e o mais temível avançado do nosso Bairro. Esta situação gerou uma longa discussão que só terminou quando o Jota-Jota decidiu ir para casa. Naquele tempo, levar a respectiva bola era o mais poderoso instrumento de chantagem que os donos gostavam de usar para fazerem vincar os seus desmandos e caprichos. Assim, vergados pela força da chantagem e determinados em não deixar escapar a rara oportunidade de jogar com uma Mikasa, acabamos por acatar a desonesta e arrogante imposição.

Depois dos desentendimentos iniciais, lá começou o jogo que se tornou recheado de controvérsias. A minha equipa marcava um golo. Os batoteiros do outro lado apressavam-se a invalidá-lo. Discussão. É golo... não é... é golo... não é... E lá vinha o Jota-Jota: «vou levar a bola!» E nós: «ta bem, pronto... não foi golo». Um jogador da minha equipa dá um encostão ao adversário na zona do meio campo. Jota-Jota pega na bola e decide assinalar... grande penalidade. Os ânimos exaltam-se. Perante a tenaz resistência dos adversários, o dono da Mikasa decide: «vou levar a bola!» E nós, preferindo engolir a fraude monumental a perder o jogo, lá acabamos por fazer-lhe a vontade: «ta bem, pronto... é penalti».

Apesar da batota dos adversários, chegamos a meio do jogo a ganhar por 6-3. O grande responsável pelo esmagador resultado chamava-se Bato (Bartolomeu). Este miúdo, escolhido a ultima da hora para reforçar a minha desfalcada equipa, revelou-se um grande e habilidoso jogador, um genuíno «brinca na areia» que destronou o temido Enoque e fez o Nato parecer um vulgar guarda-redes. Esse Bato protagonizou um incidente que mudou o curso do jogo.

Naquele tempo, era suprema humilhação um jogador permitir que o adversário conseguisse passar-lhe a bola por entre a s pernas (dar da «ova» ou das «cuecas»), driblar-lhe em sprint (levar na «colola») e fazer passar-lhe a bola por cima da cabeça (dar «cabrito» ou fazer «chapéu»). O habilidoso Bato, que se revelara um mestre da «colola» e que já tinha dado «das cuecas» de todos os adversários, cometeu a imperdoável heresia de dar duplo «cabrito» ao dono da bola. Desolado com a pesada derrota da sua equipa e sentindo-se humilhado pelo Bato, Jota-Jota pegou na preciosa Mikasa e, sem explicações, começou a abandonar o campo. Depois de suplicantes pedidos de desculpas do Bato e de longos minutos de uma autêntica batalha diplomática, lá conseguimos convencê-lo a esquecer o humilhante incidente e a regressar ao campo. Ciente da sua dominante posição, o dono da bola decidiu retomar a partida impondo duas grandes condições: o jogo recomeçava empatado a 6 golos e o Bato passava para equipa dele. De início, insurgimo-nos com veemência e indignação. Mas, depois, cedemos, acabando por tolerar as injustas condições.

É escusado dizer que a minha decapitada equipa sofreu um autêntico «massacre». Mas, o que valeu mesmo e constituiu para nós um supremo prazer foi o facto de aquela bola de «catchu» nos ter dado a possibilidade de encarnarmos os nossos ídolos e explanarmos todo o nosso futebol. E por felizes momentos deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser Ndunguidi, Maluka, Sarmento, Jesus, Vata, Napoleão, Chico Diniz, Arsénio, Maradona, Rumenigge, Dasaev, Boniek, Paolo Rossi, Zico, Platini, etc.

Vivemos numa sociedade empobrecida, onde os mecanismos que possibilitam o justo acesso aos chamados «bens socialmente desejados» (habitação, alimentação, educação, saúde, emprego, etc.) continuam concentrados nas mãos do núcleo duro que detém o poder e domina a sociedade angolana. Assim, e cansados de jogar com as «sofisticadas» «bolas de trapos» que dispomos no quotidiano jogo pela sobrevivência, temos sido forçados a recorrer aos nossos «Jota-Jotas» para usufruirmos dos preciosos bens capazes de tornar menos pesado o duro fardo da vida.

E, para continuarmos a desfrutar de um «esférico» a sério, já sabemos o que não se deve fazer aos poderosos donos da bola: dar «cabrito» ao Presidente, nem pensar! E os «Batos» que ousaram fazê-lo, sofreram as devidas consequências. Os atrevidos que tentarem Levar na «colola» os Altos Dirigentes já sabem que correm o risco de levar um «carrinho» mortal ou uma daquelas entradas duras capazes de deixá-los gravemente lesionados. Dar das «cuecas» do «Governo» pode desencadear a perda da casa, do carro, dos dólares, das bolsas de estudo, da junta médica, dos subsídios do partido, dos negócios, dos privilégios e de outras regalias.

E, assim, no quotidiano jogo da realização pessoal e da sobrevivência socio-política, contestar os nossos «Jota-Jotas» transformou-se num risco que poucos se atrevem a correr. E usufruir das «bolas de catchu» proporcionadas pelo poderoso sistema transformou-se num deleitante prazer que ninguém deseja abdicar. Por isso, entre nós, tornou-se preferível suportar os caprichos e desmandos dos donos das preciosas «Mikasas» a jogar honestamente com as «bolas de trapos» da nossa empobrecida sociedade.

José Maria Huambo

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Angola, o advento da nova geração...

Quando olhamos para Angola, sobretudo para as pessoas que indirectamente vao desenhando o novo mapa social e político e lentamente vão assumindo a liderança do país, caimos na conta que existe toda uma geração que vai perdendo espaço; não por ser posta de lado ou que esteja já a deixar o poder, mas porque, infelizmente, já não tem nada para dizer e fazer ou, para usar uma gíria do marketing, já ninguém consome os seus produtos. É o fim de uma geração...
Tenho por hábito dividir os angolanos desde o início do século XX até a estes primeiros anos do século XXI em seis grandes gerações:
A primeira delas é a que herdou, no princípio dos anos vinte, o movimento nativista que vinha do final do século XIX. Essa geração tinha um objectivo: valorizar e fazer respeitar a dignidade dos angolanos como pessoas e sujeitos de direitos através do protesto jornalístico e da criação de Associações Cívicas. Os elementos dessa geração conseguiram o seu objectivo porque foram eles quem, pela primeira vez na história de Angola, fez ver que ser angolano e ser portugues não era a mesma coisa e que essa diferença não dava nem tirava mais dignidade...
A segunda geração é aquela que decidiu transformar o movimento associativo em algo mais efectivo que uma mera organização cívica: estender a consciência para o maior número possível de angolanos de que era possível criar um Estado angolano autónomo. Esta geração que se situa entre os anos trinta e finais de quarenta conseguiu também o seu objectivo.
A terceira geração de angolanos é aquela que decidiu de facto criar um Estado Independente através da criação de movimentos nacionalistas (finais de cinquenta e inícios de sessenta) e da luta armada (anos sessenta e meados de setenta). Apesar das opiniões que se possa ter sobre isso o certo é que, de alguma maneira, essa geração conseguiu o essencial do seu objectivo: a Independência de Angola.
A quarta geração é a que, uma vez adquirida a independência, empenhou-se em criar as estructuras políticas e as instituiçoes do Estado e tentou-o, sobretudo, nos anos oitenta. Não é exagerado dizer que esta geração fracassou rotundamente por razões que agora não vem à colação. Estes anos, apesar de alguns logros, foram anos em que grande parte do património físico, cultural e institucional herdado da época colonial foi destruido e nao foi substituído e foi também a época do grande colapso económico.
A quinta geração é a dos noventa, a que tentou fazer a transição para a democracia. Também essa geração falhou e nao é preciso muita perspicácia para ver como funciona o nosso sistema a que alguns tildam ironicamente de “pseudocracia”.
A sexta geração é a que está a forjar-se nestes últimos quatros anos a qual pertence a maior parte das pessoas que têm menos de trinta e cinco anos, com formação tanto em Angola como no estrangeiro, e da qual fazem parte também pequenos e médios empresários, jovens advogados, os novos engenheiros informáticos, alguns professores tanto de escolas primárias como secundárias, funcionários de empresas públicas e privadas, membros de ONG’s, alguns jornalistas, jovens oficiais do exército, alguns elementos da polícia com formação superior ou técnica, músicos, artistas plásticos, pequenos comerciantes, novos líderes religiosos, membros activos de pequenas associações e gente corrente que vive mais ou menos frustrada com a situação e, apesar disso, busca honestamente formas quase milagrosas para sobreviver etc.
Uma geração nao se difine pela idade das pessoas que nela pertencem, mas pelo tipo de valores concretos que encarnam numa determinada época e pelo padrão de vida (standard of living) a partir da qual recebem e configuram uma certa visão do mundo e dos problemas, e traçam objectivos concretos para as suas vidas e para a sociedadeda em que vivem. Enfim, uma geração também é delimitada pelos critérios ou pautas a partir das quais tomam certas decisoes e julgam certos actos sociais, políticos com menor ou maior grau de moralidade. Portanto alguém pode ter trinta e cinco anos e pertencer à mesma geraçao daquele que tiver vinte e cinco porque o factor central não é a idade, mas os valores em voga, o espírito da época que uma determinada colectividade apreende.
Acontece que cada geração tem a sua própria linguagem e uma espécie de gramática de acção e, no caso concreto de Angola, cada geraçao teve também o seu ‘inimigo de estimação’ e, se nao teve, procurou cria-lo. Há certas atitudes e decisões da vida e da história de um país que se pode exigir a uma geração mas nao a outra. Aquilo que os elementos da terceira geração fizeram, isto é, obter através das armas a autonomia política nao se podia exigir aos elementos da primeira geração. Também é dificil exigir aos elementos da terceira geração, a estes que lutaram pela independência, o que se pode exigir aos da sexta geração. Se fizermos uma pequena comparação entre a geração que está a forjar-se com as duas últimas gerações vamos encontrar caracteríticas não só diferentes até mesmo contradictórias:
Os individuos da geração anterior acreditavam que o mundo estava dividido em dois blocos: um bom (socialista) e o outro mau (o ocidente), e vice-versa, e achavam que deviam estar do lado dos bons e ser inimigos dos maus; a nova geração entende o mundo como algo multipolar onde já nao interessa tanto o alinhamento entre os bons e os maus, mas entre os nossos interesses e interesses dos outros podendo fazer e desfazer alianças de acordo com os próprios interesses. A geração passada ainda vive traumatizada pelo colonialismo, ainda nao superou o complexo de ex-colonizado, ou de um explorado emancipado; a nova geraçao que não viveu o colonialismo nao sente a necessidade de se justificar continuamente, nem vive com o drama de que possam a vir a ser colonizados novamente e nem precisa de olhar para o estrangeiro com uma sistemática desconfiança.
A geração passada pensava que para formar um Estado implicava a presença de um lider forte, inquestionável, carismático e endeusado a quem todos devessem obediência cega; a nova geraçao pensa que o Estado se organiza à volta da lei e que a única forma de legitimar o poder é através da participação dos cidadãos pelo voto livre. A geração antiga passadaa despositiva a sua força nas armas, no poder do gatilho e na capacidade de destruir o outro; a nova geraçao acredita mais na palavra, na persuasão, na força da razão, da lei e da justiça. A geração antiga pensava que consguir acumular riqueza às expensas do Estado era sinal de inteligencia e de esperteza. A nova geração acredita que o prestigio advém do uso das suas capacidades de trabalho e da remuneração que consegue com os resultados. A geração passada achava que a relação entre as pessoas devia basear-se no medo e na capacidade de usar a força, a nova geração pensa que a relação basea-se nos valores da cidadania e do bom senso. A geração passada era adepta do discurso pomposo e inflamdo mesmo que fosse vazio de ideias e sem qualquer consequência prática; a nova geração prefere o discurso directo, simples, compreensível e que possa gerar resultado. A geração passada transformou a antiga (colonial) descriminação racial entre brancos e negros em descriminação entre norte e sul, entre mistiços e negros, entre bacongos e lundas entre os do campo e os da cidade, em tribalismo, em etnocentrismo, ressentimento, cultivo do ódio e da vingança; a nova geração é, sobretudo, angolana, isto é, a base do relacionamento está no facto de todos serem desta terra e usarem mais ou menos a mesma camisola... Não interessa tanto a etnia, a proveniência ou a raça.
A geração passada tem quase uma obsessão de provar ao homem branco que também tem poder para isso faz colecção de carros de luxo e de fatos caros mesmo que isso implica deixar à mingua milhares dos seus compatriotas; a nova geração não está interessada em provar nada a ninguém, quer apenas mudar o país e contribuir para que o maior número de pessoas tenha uma vida melhor. Grande parte da geração passada não teve acesso ao ensino superior ou não o terá terminado e este complexo fez que muitos comprassem certificados univesritários falsos e fossem tratados por “senhor doutor” ou por “senhor engenheiro”; a nova geração prefere ser tratada como pessoas, mesmo que alguns tenham formação universitária e sejam excelentes profissionais. A ambição máxima de muitos elementos da geração passada era conseguir um cargo na chefia do Estado, por exemplo, ser ministro ou director de qualquer coisa; a ambição máxima para a nova geração é deixar obra feita, é ser respeitada pelos resultados adquridos. A geração que está a chegar ao fim está a cultivar uma nova moda: ter ‘namoradas’ da idade das filhas mais novas ou das netas a troco de benesses seja em dinheiro ou em bens imóveis, apesar de serem homens casados e com as suas mulheres em casa; a nova geração considera este tipo de relacção como uma ‘prostituição de luxo’ e preferem ter um tipo de relacção estáveis na qual o rapaz ou a rapariga nao sejam objectos sexuais, mas companherios/as com as quais se partilhe interesses comuns, a vida, as ambições, os dramas, os senhos as derrotas e as victórias do dia a dia. Enfim a geração antiga é mais de tradiçao republicana e socialista com o excessivo peso do Estado sobre os individuos; a nova geração é mais democrática e liberal, em que os direitos fundamentais do individuo está acima das prerrogativas do Estado. Cada geração tem o seu inimigo. A geração passada, primeiro tinha como inimigo o portugues, depois o russo e o americano, o cubano e o sul africano... e depois o próprio angolano! O único inimgo da nova geração é a miséria/pobreza, a má organização do Estado, o desemprego, o analfabetismo, a destruição das infraestruturas, a corrupção, as minas anti-pessoais. Para a geração passada o mundo era branco e negro; para a nova o mundo é um arco-iris. Para a geração passada as mudanças sociais dependiam da obediência cega à autoridade, de ser ‘cordeirinho’, do uso da força, e duma governação envolta num mistério; a nova geração pensa que para o país caminhar precisa da imaginação e da iniciativa dos cidadãos, da participação de todos, cada um à sua maneira e pensa que questionar uma autoridade não é crime. Para a geração passada ter autoridade era como estar revestido duma certa divindade, para e geração nova a autoridade é sinal de serviço à comunidade com o dever de prestar contas e ser submetido à crítica...
Cada geração tem a sua missao na história. A nova geração parece que acredita que é possível construir um país viável, baseado na lei e na justiça onde todos possam viver razoavelmente bem.
A geração que agora esta a passar nota-se pela maneira agressiva e bruta como tenta rapinar os bens do Estado, nota-se que está a acabar não porque os seus membros estejam a morrer, mas porque os seus valores já não coincidem com os da nova geração nem a suas mundividências se entrecruzam... A história da infância da geração passada era como eram explorados pelo homem branco; a história de infância da nova geração é como são vítimas dos próprios angolanos... Para a geração passada a maior parte dos males de Angola era a culpa do estrangeiro, dos de fora; a nova geração cre quea maior parte dos males de Angola é da responsabilidade dos próprios angolanos nesse sentido, a nova geração é mais autocrítica. O que não é em si mesmo mal nenhum!
Isto nao quer dizer que a geração passada nao fez nada ou que nao tenha cumprido parte do seu dever na época que lhe correspondeu e nem que todos os ‘mais velhos’ tenham que ser encaixados nos mesmos moldes: apenas significa que a nova geração tem outra agenda existencial, quer mesmo construir um Estado a sério que funcione, onde, por exemplo, pelo menos nenhuma criança nenhuma criança morra por falta de uma simples aspirina ou de um copo de leite; um Estado baseado em princípios universais para que quando chegar a hora da retirada e dar lugar a outra geração poder repetir com a cabeça erguida o que dizia o poeta: “as minhas mãos colocaram pedras nos alicerces do mundo/ por isso mereço o meu pedaço de pão”.

Paulo Inglês

sábado, 13 de maio de 2006

«Nova» Constituição, Um Projecto Caluandista

Mais do que em qualquer outra época da nossa conturbada história, o tempo que corre oferece-nos a suprema oportunidade de lançarmos os alicerces de um projecto político e socio-económico que nos torne, finalmente, capazes de construir um país e consolidar um Estado. Mas apesar desta excelente ocasião, continuamos a persistir nos erros que originaram a devastação e estagnação da nossa amada Pátria.

Um desses erros e vícios tem sido, em minha opinião, a arrogante tendência dos grupos dominantes pretenderem, a todo custo, consolidar a hegemonia de uma região (Luanda) e impor o absoluto predomínio de um grupo etnocultural (os lusitanizados), forçando as outras regiões a submeterem-se a Luanda e obrigando os outros povos a caminhar a reboque dos lusitanizados. E essa visão unicista da realidade angolana ficou, claramente, reflectida na dita «nova» Constituição. Assim, mediante complicados sistemas de justificação, os poderosos grupos conseguiram impor como Lei Fundamental e consagraram como verdades constitucionais as suas intragáveis teses unicistas.

Pela leitura do ante-projecto facilmente se constata que a dita «nova» Constituição irá manter Luanda como o centro de gravidade da vida económica, social, política e administrativa do país. Aquilo a que se pretende chamar «República de Angola» continuará a ser as grandiosas ruínas daquele projecto arquitectado e edificado pela e para a «comunidade branca» da Angola colonial. A descentralização político-administrativa continuará a ser, entre nós, uma miragem. O poder continuará distante dos cidadãos. Os que vivem nas «províncias» continuarão sem o direito de debaterem os problemas que os afectam. A investidura dos governadores (provinciais, municipais, etc.) por sufrágio universal continuará a estar longe das cogitações dos nossos «democratas». Exceptuando os deputados, os dirigentes angolanos continuarão a aceder aos respectivos cargos por nomeação ou aprovação do Presidente.

Estas escandalosas opções, ardilosamente preparadas pelos grupos dominantes, terão reflexos negativos na tão falada estabilização do país e no tão propalado desenvolvimento de Angola. Vejamos: O Estado moderno prossegue uma considerável multiplicidade de fins, detém uma grande variedade de atribuições a seu cargo que se tornam cada vez mais complexas e diversificadas. Uma das complexas atribuições do Estado consiste na promoção do desenvolvimento económico, social e cultural de todo o território nacional. Ora, o Estado angolano não está em condições de prosseguir de forma hegemónica, politizada, concentrada e centralizada esta gigantesca tarefa, dado que Angola, com os seus 1.246.700 km2, apresenta-se como um país muito vasto.

Para termos uma noção da magnitude do nosso território, diremos que a superfície do nosso país equivale ao somatório das áreas geográficas de Portugal (92.446 km2); Itália (301.268 km2); França (551.500 km2); Holanda (40.844 km2); Bélgica (30.519 km2); Suíça (41.293 km2); Dinamarca (43.007 km2); Áustria (83.853 km2); Croácia (56.538 km2); Luxemburgo (2.586 km2); Singapura (618 km2); Mónaco (1, 95 km2); Andorra (453 km2); Liechtenstein (160 km2); Malta (316 km2); São Marino (61 km2) e Ilhas Seychelles (455 km2).

Mais. A Província de Malange com os seus 97.602km2 é maior que Portugal. A Província do Namibe (57.091km2) é maior que a Dinamarca. A Província do Uige (56.698km2) é maior que a Croácia. A Província do Kuanza-Sul (55.660km2) é maior que a Suíça ou a Holanda. A Bélgica é menor que a Província de Benguela (39.826km2). A Áustria é menor que a Província do Cunene (87.342km2).

Luanda fica a 1424 kms de Ondjiva; 1051 kms de Menongue; 1175 kms de Lucapa; 1039 kms de Saurimo; mais de 600 kms de Benguela; quase 700 kms do Huambo; 1314 kms do Luena; 709 kms do Kuito; 1015 kms do Lubango; 1234 kms da cidade do Namibe. Sair de Luanda a Ondjiva é quase o mesmo que ir de Lisboa a Paris (1450 kms). E a distância que separa o Huambo de Luanda é maior do que a que separa Lisboa de Madrid (636 kms). Por tudo isso, é justo dizer-se que nenhum poder hegemónico, politizado e concentrado, nenhum aparelho administrativo profundamente centralizado será capaz de fomentar o progresso equitativo e harmonioso de um território tão imenso como o nosso.

Por acharem que Angola é Luanda e por cegamente acreditarem que o resto do país não passa de uma vasta paisagem, os complexados arquitectos da «nova» Constituição inviabilizaram a descentralização político-administrativa e pretendem aglutinar todos os poderes num único centro decisório e fomentar a concentração das principais actividades da vida social, económica, cultural e política na capital do país. Acontece, porém, que as 17 Províncias angolanas são mais do que simples áreas administrativos dependentes dos caprichos de Luanda. São mais do que importantes feudos de acomodação política de alguns dirigentes. Cada uma das nossas Províncias constitui uma parcela territorial diferente e autónoma, determinada pela natureza, pela história, pelas especiais características de ordem étnica, económica, social e cultural. E os vários povos que compõem Angola sempre tiveram uma sólida e exacta noção das delimitações do seus territórios e sempre defenderam os seus punhados de terra quer contra as invasões dos povos vizinhos quer contra a invasão do colonizador. Por isso, num país tão extenso como o nosso, social e culturalmente tão heterogéneo, centralizar todo o poder e toda a vida social, económica e administrativa numa pequena parcela do território e tratar os que vivem nas «províncias» como se todos partilhassem entre si os mesmos modos de vida, as mesmas necessidades e as mesmas preocupações, constitui um erro político de graves repercussões e um claro atentado a tão desejada integridade territorial.

E a história recente já nos provou, de forma trágica e dolorosa, que o actual modelo de Estado hegemónico, politizado e concentrado é absolutamente incapaz de assegurar a coesão de um mosaico de línguas, povos e culturas tão heterogéneas, para que ninguém se sinta submetido ou excluído. Mas os complexados arquitectos da «nova» Constituição teimam em mantê-lo como instrumento ideal de estabilização do país e de manutenção da unidade nacional.

Já está mais do que provado que o actual aparelho de administração, herdado do colonialismo, altamente centralizado e profundamente corrupto, não funciona como instrumento fundamental de promoção do desenvolvimento económico, social e cultural de todo o país, não serve de atenuante das rivalidades derivadas das complexidades socioculturais do país, nem de instrumento de correcção das desigualdades regionais e pessoais. Isto porque fomenta o completo desinteresse do Poder Central pelas especificidades étnicas e realidades socioculturais dos angolanos. Promove o subdesenvolvimento. Abre fossos entre as regiões. Discrimina os cidadãos e alimenta profundas desigualdades. Mas os «sábios e clarividentes» que se apresentam como fiéis portadores da vontade dos angolanos teimam em mantê-lo como o único modelo a seguir na definição do novo rumo de Angola.

E é uma grande pena! Porque, ao persistirmos nos erros que originaram a estagnação da nossa amada Pátria, ao permitirmos o triunfo de uma Lei Fundamental absolutamente fora do contexto angolano e recheada de conceitos decorativos importados da Constituição Portuguesa, estaremos a deitar por terra a excelente ocasião de edificarmos, juntos, uma estrutura política, administrativa, económica e sociocultural que vise conciliar os angolanos, construir um grande país, edificar a desejável paz duradoura e evitar o germinar contínuo de rebeliões.

José Maria Huambo

segunda-feira, 24 de abril de 2006

A consolidação da Paz, segundo João Paulo II

Na primeira semana deste mês ocorreram duas marcantes efemérides que inspiraram a reflexão de hoje: o 4º aniversário dos «acordos de Paz» e o 1º aniversário da morte do Papa João Paulo II, um dos mais notáveis mensageiros da Paz. Decidi recorrer às sábias mensagens de Paz desse grande Líder por estar cada vez mais convicto da fragilidade da nossa Paz. E muito além dos efusivos festejos e dos habituais discursos que proclamam estarmos definitivamente pacificados, urge repensarmos e questionarmos a forma como tem sido posta em prática a tão propalada «consolidação da Paz». Porque contrariamente ao que se desejava, vejo que insistimos em consolidar a Paz sob os alicerces da velha estrutura onde ainda imperam o abuso de poder, a cultura do medo, a dominação de uns pelos outros, a férrea imposição de ideias, as medidas arbitrárias, o absoluto desrespeito pelos cidadãos, as situações de miséria, a degradação dos valores, etc. Assim, a Paz que apregoamos estar consolidada não tem passado de uma trégua precária, de um equilíbrio instável e tem sido assegurada por uma tranquilidade puramente exterior e imposta pelo terror das represálias. É hora, então, de passar a palavra ao Papa João Paulo II:

Que tenha definitivamente terminado para ti, querida Angola, o tempo do teu desamparo! Queridos angolanos! Congratulo-me convosco pela estrada que corajosamente iniciastes. Refiro-me a consolidação de Angola como um Estado de direito, assente nos valores e nos princípios da vida, da justiça social e do respeito mútuo (visita a Angola 1992). Mas Ninguém se iluda de que a simples ausência de guerra, apesar de tão desejada, seja sinónimo de paz duradoura. Não há paz verdadeira, sem equidade, verdade, justiça e solidariedade. Está destinado à falência qualquer projecto que deixe separados dois direitos indivisíveis: o direito à paz e o direito a um progresso integral e solidário. As injustiças, as excessivas desigualdades de ordem económica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens, são uma constante ameaça à paz e provocam as guerras. Tudo o que se faz para combater estas desordens, contribui para edificar a paz e evitar a guerra (mens. de Paz de 2000). Assim, para restaurar a Paz há que repor a justiça da verdade, a justiça da igualdade social, a justiça da solidariedade fraterna (visita a Angola, 1992).

Para servir a Paz é preciso respeitar a liberdade. Nunca haverá verdadeira liberdade, fundamento da paz, quando todos os poderes estiverem concentrados nas mãos duma só classe social, ou duma só raça, ou dum só grupo, ou quando o bem comum for confundido com os interesses dum só partido que se identifique com o Estado. E não haverá verdadeira liberdade quando as liberdades dos indivíduos se acharem absorvidas por uma colectividade. A liberdade constitui a medida da maturidade do homem e da nação (mensagem de Paz de 1981).

Se quereis a Paz, respeitai a liberdade de consciência de cada homem. Nenhuma autoridade humana tem o direito de intervir na consciência seja de quem for. Isto implica, por sua vez, que todos devem respeitar a consciência de cada um e não procurar impor a ninguém a própria «verdade», permanecendo íntegro o direito de a professar, sem que, por isso, seja desprezado quem pensa de outro modo. Em suma, é ao nível da consciência que se pode encontrar a mais eficaz solução do problema de assegurar uma paz sólida e duradoura. Uma séria ameaça à paz se encontra na intolerância, que se manifesta na recusa da liberdade de consciência dos outros. Das diversas conjunturas da história apreendemos dolorosamente os excessos a que ela pode conduzir. A intolerância pode-se insinuar em todos os aspectos da vida social, manifestando-se na marginalização ou opressão das pessoas e minorias, que procuram seguir a própria consciência no que se refere aos seus modos legítimos de viver. Na vida pública, a intolerância não deixa espaço à pluralidade de opções políticas ou sociais, impondo deste modo a todos uma visão uniforme da organização civil e cultural (mens. de Paz de 1991).

Para fortificar a Paz urge recorrer incansavelmente à verdade, que é por excelência a força pacífica e potente da paz, uma vez que ela se comunica pela sua própria irradiação, extravasando para fora de todos os constrangimentos. Se é exacto afirmar, e ninguém duvida disso, que a verdade serve a causa da paz, também é indiscutível que a «não-verdade» anda a «pari passu» com a causa da violência e da guerra. Por «não-verdade» é preciso entender aqui todas as formas e todos os níveis de ausência, de recusa e de desprezo da verdade: mentira propriamente dita, informação parcial e deformada, propaganda sectária, manipulação dos meios de comunicação e outras ainda, por exemplo, da prática que consiste em impor àqueles que não compartilham as mesmas posições a fim de mais facilmente os atacar e os reduzir ao silêncio a etiqueta de inimigos, atribuindo-lhes intenções hostis e estigmatizando-os como agressores, mediante uma propaganda hábil e constante: eis o desprezo da verdade, posto em acção, a fim de desenvolver um clima de incerteza, no qual se pretende constranger as pessoas, os grupos, as próprias instâncias internacionais a silêncios resignados e cúmplices, a compromissos parciais e a reacções não razoáveis; todas estas atitudes são igualmente susceptíveis de favorecerem o jogo perigoso da violência e de atacarem a causa da paz (mens. de Paz de 1980).

Em nome do afecto que tenho por cada um de vós, peço-vos firmemente que procureis o diálogo (visita a Angola, 1992). Julgo ser útil, pois, recordar aqui as qualidades de um verdadeiro diálogo. Elas têm aplicação em primeiro lugar no diálogo entre pessoas; mas eu penso também e sobretudo no diálogo entre grupos sociais, entre forças políticas numa Nação. E hão de verificar-se também no diálogo entre os vastos agrupamentos humanos que se distinguem e se enfrentam no plano étnico, cultural, ideológico ou religioso. O diálogo exige a abertura para o acolhimento: que cada uma das partes exponha os próprios dados, mas que também ouça a exposição da situação como a outra parte a apresenta e sente sinceramente, com os verdadeiros problemas que lhe são peculiares, os seus direitos, as injustiças de que tem consciência e as soluções razoáveis que propõe. Neste sentido, o diálogo é fazer de outrem um próximo; é aceitar a sua contribuição; é partilhar com ele a responsabilidade perante a verdade e a justiça (mens. de Paz de 1983).

A justiça anda em relação permanente e dinâmica com a paz. Justiça e paz têm em vista o bem de cada um e de todos, pelo que exigem ordem e verdade. Quando uma é ameaçada, vacilam as duas; quando se ofende a justiça, põe-se em perigo também a paz. Justiça e paz não são conceitos abstractos nem ideais inacessíveis; são valores inseridos no coração de cada pessoa, como património comum. Indivíduos, famílias, comunidades, nações, todos são chamados a viver na justiça e a trabalhar pela paz. Ninguém pode eximir-se desta responsabilidade. Posto ao serviço dos cidadãos, o Estado é o gestor dos bens do povo, que deve administrar tendo em vista o bem comum. O bom governo requer o controle pontual e a plena legalidade em todas as transacções económicas e financeiras. Não se pode permitir de maneira alguma que os recursos destinados ao bem público sirvam para outros interesses de carácter privado ou mesmo criminoso. O uso fraudulento do dinheiro público penaliza sobretudo os pobres, que são os primeiros a sofrerem a privação dos serviços básicos indispensáveis para o desenvolvimento da pessoa. Quando, depois, a corrupção se infiltra na administração da justiça, são ainda os pobres quem mais duramente suporta as consequências: atrasos, ineficácia, carências estruturais, falta duma defesa adequada. E tantas vezes não lhes resta outro caminho senão sofrer a prepotência (mens. de Paz de 1998).

Todas as pessoas têm o direito de buscar e de alcançar o que é bom e verdadeiro. Todas têm o direito de escolher aqueles bens que elevam a vida. Aquilo que é verdadeiro quanto ao desenvolvimento das pessoas individuais, mediante uma selecção de valores que elevam a vida, aplica-se também ao desenvolvimento da sociedade. Tudo aquilo que impede a autêntica liberdade vai contra o desenvolvimento da sociedade e das instituições sociais. A exploração, as ameaças, a sujeição forçada, a recusa por parte de um sector da sociedade a dar a outros oportunidades, são coisas inaceitáveis e contradizem a própria noção de solidariedade humana. Recusar os meios para alcançar o pleno desenvolvimento a um sector de determinada sociedade, ou então a uma inteira nação, só poderá levar à insegurança e à agitação social. Isso fomenta o ódio e a divisão e destrói as esperanças de paz (mens. de Paz de 1987).

Como referiu o Papa Paulo VI, «a Paz que põe termo a um conflito é habitualmente uma imposição, um acto de prepotência e um jugo, a que a parte mais fraca e que sucumbe se vê forçada a submeter-se; mas, isso não passa, muitas vezes, de um adiar a desforra que virá mais tarde e de uma aceitação do estatuto protocolar, que serve a disfarçar a hipocrisia de corações que continuam a ser inimigos. Nesta Paz, muito frequentemente fictícia e instável, falta a solução completa do conflito; quer dizer, falta o perdão, falta a renúncia do vencedor às vantagens alcançadas, vantagens que humilham e tornam o vencido inevitavelmente infeliz; por outro lado, falta também ao vencido a força de ânimo para a reconciliação. Paz sem clemência, como se pode chamar Paz ? Paz cheia de espirito de vingança, como pode ela ser verdadeira? De um e de outro lado é necessário o apelar para aquela justiça superior que é o perdão: é este, efectivamente, que reduz a nada as questões insolúveis de prestígio e torna possível outra vez a amizade» (mens. de paz de 1970). Então oferecei o perdão e recebereis a paz. É tempo de nos decidirmos a empreender, juntos e de ânimo firme, uma verdadeira peregrinação de paz, cada qual a partir da situação concreta em que se encontra. As dificuldades são, por vezes, demasiado grandes: a proveniência étnica, a língua, a cultura, a crença religiosa constituem frequentemente uma série de obstáculos. Caminhar juntos, quando sobre os ombros pesam experiências traumatizantes ou mesmo divisões seculares, não é empresa fácil. Surge então a pergunta: Que estrada seguir? Que ponto de orientação tomar? São muitos, certamente, os factores que podem influir favoravelmente no restabelecimento da paz, salvaguardando os imperativos da justiça e da dignidade humana. Mas nenhum processo de paz poderá jamais ter início, se não maturar nos homens uma atitude de sincero perdão. Sem este, as feridas continuam a sangrar, alimentando ao longo de sucessivas gerações um rancor sem fim, que é fonte de vingança e causa de sempre mais ruínas. O perdão oferecido e aceite é a premissa indispensável para caminhar rumo a uma paz autêntica e estável (mens. de Paz de 1997).

O vosso país está a viver momentos cruciais para a recta definição do seu futuro. Que ninguém desanime perante as inevitáveis dificuldades. O Senhor há de ajudar-vos a realizar a reconstrução das consciências e da fraternidade social. Que Deus abençoe o presente e o futuro desta querida Nação (visita a Angola, 1992).

José Maria Huambo