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sábado, 23 de setembro de 2006

Angola, Uma Pérola Atirada Aos Porcos

Temos levado a nossa breve passagem por este mundo atormentados por um permanente conflito entre o promissor paraíso que as enormes potencialidades deste nosso grande, rico e belo País nos proporcionariam e o real inferno gerado pelo nosso péssimo e desastroso desempenho na condução do nosso destino colectivo e na gestão dos nossos recursos humanos e naturais. Quero, assim, partilhar convosco um texto bíblico que ilustra, de forma eloquente, esse hediondo conflito que tem ensombrando a nossa peregrinação terrena. O dito texto, extraído do livro do Deuteronômio, diz o seguinte: “O Senhor teu Deus, vai conduzir-te a uma terra afortunada, uma terra cheia de torrentes de água, de fontes e de águas que se derramam pelos vales e pelos montes. Uma terra que produz trigo, cevada, uvas, figos, romãs, azeitonas e mel. Uma terra onde comerás pão com abundância, nada te faltará: onde as pedras são de ferro e de cujas montanhas extrairás o cobre. Usufruirás todos estes bens e ficarás saciado. Darás, então, graças ao Senhor, teu Deus, pela boa terra que te deu”. (DEUTERONÓMIO 8, 7-10).

Somos, portanto, filhos de um país abençoado. Devíamos, por isso, usufruir, abundantemente, dos nossos vastos recursos naturais, levar uma vida digna e dar graças ao Senhor pela boa terra que nos deu. Mas nada disso tem acontecido. Pelo contrário, regredimos no tempo, definhamos como Nação, estagnamos como País e mergulhamos num abismo de privações e provações. É por esta irónica, contraditória e dolorosa realidade que os «ocidentais» vêem o nosso belo, rico e promissor País como uma preciosa pérola atirada aos porcos.

A expressão «atirar pérolas aos porcos» significa dar ou dizer coisas finas e preciosas a quem não é capaz de as valorizar ou entender. Ela ficou celebrizada a partir da seguinte parábola de Jesus: “Não deis as coisas santas aos cães nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para não acontecer que as pisem aos pés” (MATEUS 7, 6). No tempo de Cristo, as pérolas eram consideradas preciosidades de altíssimo valor. E os porcos nunca saberiam apreciar o real valor de uma pérola.

Desde os primeiros contactos, ocorridos em finais do século XV, que os «ocidentais» não nos levam a sério. A nossa cor carregada de melanina, o nosso nariz achatado, os nossos lábios grossos, a nossa testa escapada e o nosso cabelo em carapinha fugiam aos padrões físicos por eles idealizados. As nossas vivências culturais, políticas e religiosas contrastavam com aquelas de que eram portadores e que resultavam da aglutinação das civilizações greco-romanas e das tradições judaico-cristãs. Esta realidade despertou neles um sentimento de absoluta superioridade, passando o afro a ser visto como um precioso objecto de lucro e um sub-humano do ponto de vista intelectual, moral, cultural e religioso. Este estigma marcou, de forma trágica, o destino das relações inter raciais e, embora mais camuflado, perdura até hoje.

Perfeitamente cientes das enormes potencialidades do Continente Negro e absolutamente convictos da inferioridade dos afros, os «ocidentais» não levaram a sério as nossas reivindicações independentistas. Por exemplo, os defensores do colonialismo e da perpetuação da presença portuguesa em Angola apregoavam que «os pretos não estavam preparados para assumir o seu próprio destino. Dado que não tinham capacidades de organizar um trabalho e de planificar uma acção. Não possuíam nem originalidade, nem inteligência, nem cultura suficientes para se bastarem a si mesmos e não estavam aptos a dirigir um país por falta de preparação e maturidade político-administrativa».

E, por mais dolorosa que ela seja, a grande verdade é que não temos sido sérios na condução do nosso destino colectivo e na gestão dos nossos recursos humanos e naturais. Por isso, eles continuam a não nos levarem a sério, condoendo-se da nossa imerecida desgraça e rindo-se dos bizarros comportamentos de alguns endinheirados e da hilariante colecção de asneiras dos nossos dirigentes. Vejamos: mal foi proclamada a tão reivindicada independência, apressamos em barricar-nos num e noutro lado de um inglório conflito e limitamo-nos a destruir e a degradar, de forma insensata, tudo aquilo que os colonos ergueram: pessoas; estruturas económicas, administrativas e financeiras; cidades e vilas; estradas; pontes; etc., etc.

Os mais poderosos de todos nós mantêm, há 30 anos, uma envernizada estrutura estadual e governativa, destinada a vender às «comunidades evoluídas», e a qualquer preço, a falsa imagem de negros civilizados, de políticos sérios, dirigentes organizados e governantes responsáveis. Julgam eles, erradamente, que para sermos levados a sério basta trajarmos de fato e gravata, copiarmos os nomes de algumas instituições das comunidades evoluídas (Governo, Parlamento, Tribunal de Contas, Alta Autoridade para a Corrupção, Provedor de Justiça, etc) e adoptarmos alguns conceitos das sociedades organizadas (Democracia, Estado de Direito, Desenvolvimento Sustentável, Economia de Mercado, etc).

Não. Para combatermos o velho estigma rácico-cultural, os mais poderosos de todos nós precisam de fazer muito mais. Porque o Século XX deu um novo sentido às concepções do poder e aos métodos de governação. Sobretudo a partir do final da II Guerra Mundial, os dirigentes das comunidades seriamente organizadas serviram-se do poder político para execução de certos programas ou projectos, para porem em prática determinadas ideias, fazerem respeitar consagrados valores e defenderem os legítimos interesses da comunidade. Mas, nós paramos no tempo. E tal como faziam os «ocidentais» há 400 anos, continuamos a pessoalizar o poder, a usá-lo a título perpétuo e a, simplesmente, desfrutar do sentimento de prestígio que ele confere. Durante os últimos 60 anos, os governos das comunidades seriamente organizadas esforçaram-se por usar todos os recursos humanos e naturais disponíveis em diversas infra-estruturas e em sérios projectos socio-económicos com vista a melhorar as condições de vida dos cidadãos em todos os sentidos. Mas, nós paramos no tempo e, sem pudores, limitamo-nos a degradar os recursos humanos disponíveis e a usar em proveito próprio os abundantes lucros das nossas riquezas.

E os «ocidentais», que nunca nos levaram a sério e sempre acharam que as nossas riquezas eram valorosas pérolas atiradas a uns porcos que nada percebiam de administração e gestão dos recursos disponíveis, não cessam de obter astronómicas vantagens à custa da hilariante e vergonhosa conduta dos nossos dirigentes. Vejamos: saem sempre a ganhar nos chamados «acordos de cooperação». Compram, a preço acessível, o nosso incontrolado crude e o «governo» gasta fortunas na importação dos derivados do nosso próprio petróleo. Levam, de graça, os vastos recursos marinhos do país e o «governo» compra-lhes, a preço de ouro, o nosso próprio peixe, o nosso próprio marisco e os derivados da nossa riqueza marítima. Levam, quase de borla, a nossa madeira de excelente qualidade e o «governo» desembolsa milhões de dólares na importação dos derivados da nossa própria madeira. Por sermos uma cambada de estúpidos governados por corruptos sem escrúpulos, triplicam os custos das obras e das importações, «dão» empréstimos com juros insuportáveis, mandam para o nosso país os resíduos tóxicos, vendem-nos medicamentos e alimentos de qualidade duvidosa, etc., etc.

Os mais endinheirados de todos nós muito têm contribuído no agravamento da nossa má imagem. Por acharem que já não são tão «pobres» e «atrasados» como o resto dos angolanos, esforçam-se por mostrar aos «ocidentais» que podem tanto como eles. Por isso, quando vão ao estrangeiro, esbanjam dinheiro em escandalosas compras e em extravagâncias que fazem corar os mais ricos dos «evoluidos». E para mostrarem aos seus ilustres convidados que em Angola não há tanta fome e miséria como se diz no «Ocidente», hospedam-nos nas mais impressionantes vivendas e nos melhores hotéis. Proporcionam-lhes os mais requintados banquetes oficiais e as mais luxuosas festas privadas. Mas tudo isso acaba por se revelar um esforço inglório na vã tentativa de mudarem a preconceituosa opinião dos «evoluídos». É que, antes de serem introduzidos numa Angola apenas ao alcance de alguns abençoados, os ilustres convidados, durante o percurso que vai do aeroporto aos hotéis ou vivendas de luxo, têm tempo suficiente para tristemente contemplarem a vergonhosa degradação urbana das nossas cidades, a imensa miséria e o imerecido sofrimento da esmagadora maioria dos angolanos. E regressam deveras impressionados. Não com a luxuosa e principesca estadia, mas com a gritante injustiça sócio-económica que impera entre nós. «Eles na boa vida e o povo na miséria. Que tristeza!».

Assim, e por causa das vergonhosas extravagâncias dos mais endinheirados da nossa sociedade, do mau desempenho dos gestores dos nossos recursos naturais e das desastrosas condutas dos responsáveis pelo nosso destino colectivo, tornamo-nos alvos de chacotas nas grandes arenas internacionais e somos os temas favoritos das humilhantes anedotas contadas nos fóruns privados dos «ocidentais» que vivem entre nós, negoceiam com os nossos dirigentes, colaboram com as instituições da nossa sociedade e visitam o nosso intrigante país.

E enquanto continuarmos a passar imagens de desorganização, corrupção e incompetência. Enquanto continuarmos a ser desastrosos na gestão dos nossos abundantes recursos naturais. Enquanto aqueles que nos dirigem não promoverem uma elevação colectiva dos angolanos e teimarem em fazer do nosso País um vergonhoso lugar de indigência e degradação, Angola dificilmente deixará de ser aquilo que tem sido aos olhos dos «ocidentais»: uma preciosa pérola atirada a uma cambada de porcos, absolutamente incapazes de organizar um trabalho, de planificar uma acção, de assumir o seu próprio destino e de se bastarem a si mesmos.

JOSÉ MARIA HUAMBO





sexta-feira, 21 de julho de 2006

Cabinda é mais Angola do que o Cunene!

Tenho acompanhado, com interesse, o esgrimir de cerradas posições em torno da chamada «questão de Cabinda». Do emaranhado de teses, conceitos e preconceitos que constituem o mais mediatizado dos problemas angolanos, ressaltam duas posições que reprovo com veemência: A contraditória e belicosa posição dos «unitaristas» e as teses radicais dos «independetistas». Os «unitaristas» propalam, nos areópagos nacionais e internacionais, que Angola está definitivamente em paz desde 4 de Abril de 2002. Mas concentraram no Enclave angolano uma poderosa máquina de guerra, espionagem e repressão para combater «os bandos organizados que espalham o terror entre a população indefesa» e «preservar a integridade territorial». Ora, se o nosso país é unitário «de Cabinda ao Cunene» porque é que há paz em Angola e acções militares em Cabinda? Dos «independentistas» reprovo o radicalismo da linguagem que adoptaram para alcançar os seus objectivos. Acho desproporcionadas e nem fazem sentido expressões como «Cabinda nunca foi Angola»; «Angola invadiu Cabinda»; «exigimos a retirada incondicional das tropas ocupacionais»; «os angolanos estão a torturar os cabindas», etc., etc.

É minha profunda convicção de que as reprováveis condutas dos «unitaristas» e dos «independentistas» advêm do facto de Cabinda estar separada das demais regiões que compõem Angola. E mais do que perturbar os espíritos dos directos opositores, este facto histórico tem gerado uma estranha e incompreensível resignação da opinião pública nacional. Assim, cada vez que olhamos para aquele deslocado pedaço de terra, pensamos: «é melhor o Governo dar-lhes só a tal independência! Eles não têm mesmo nada a ver connosco».

Pode até parecer uma escandalosa afirmação, mas Cabinda é e sempre foi, geográfica e culturalmente, mais Angola do que, por exemplo, o Cunene, as Lundas, o Moxico ou o Kuando-Kubango. Devido à grande influência que a descontinuidade territorial de Cabinda exerce nos espíritos de todos nós, é natural que seja muito difícil aceitar, de ânimo leve, esta quase «blasfémia». E para melhor esclarecê-la, vamos partir de duas perguntas: O que é Angola? E porquê que Cabinda está separada do resto do território?

1. O que é Angola? É nesta pergunta que as palavras do venerando Arcebispo D. Eduardo André Muaca (1924-2000), uma das mais reputadas figuras da história de Angola e ilustre filho de Cabinda, servem de precioso auxílio. Segundo aquele que foi o primeiro Bispo negro da moderna África portuguesa, “Angola nunca teve, desde o princípio da colonização portuguesa, a extensão actual. Quando chegaram os primeiros portugueses, a palavra Angola (Ngola) abrangia apenas as actuais províncias de Luanda, Bengo, Kuanza-Norte e Malange. A medida que os portugueses iam conquistando ou anexando novas regiões, a palavra Angola também foi aumentando de extensão e sentido”.

Esta é a grande verdade sobre a nossa história comum e que os partidários da «independência», por ignorância ou por má-fé, teimam em abafar. Inspirados pela singularidade geográfica da sua região, eles têm agido como se os habitantes do maior pedaço do território fossem todos iguais e eles os únicos dotados de identidade própria. Puro engano. Todos os povos que viriam a ser agregados sob a administração portuguesa tinham uma sólida e exacta noção das delimitações do seus territórios e sempre defenderam os seus punhados de terra quer contra as invasões dos povos vizinhos quer contra a invasão do colonizador. Exceptuando as regiões da Ngola, Benguela e Cabinda, todos os territórios independentes que viriam a formar as regiões de Angola foram submetidos ao «Protectorado Português» por força de longos e duros combates.

E diga-se que Portugal levou séculos a unificar os povos dos vastos territórios independentes. Segundo o prof. Custódio Gonçalves “até 1914, a administração colonial foi bem instalada nas duas cidades do litoral: Luanda e Benguela; mas no interior a sua acção reduziu-se geralmente a uma política nominal dependendo de alianças frágeis e ambíguas com os chefes locais. Refira-se que até 1914 o país ovambo, no sul, era independente; a leste, na Lunda, as terras tshokwe só foram ocupadas em 1920; a norte, entre os bakongos, a oposição demorou até 1919, enquanto que os Dembos só foram pacificados em 1918”.

É por tudo isto que ousei afirmar que a região dos cabindas é e sempre foi, geográfica e culturalmente, mais Angola do que, por exemplo, a região dos ovambos, vulgos cuanhamas. E invocar, levianamente, «Simulambuco» para reafirmar o ancestral sentido de emancipação dos cabindas não é de todo aceitável. Sim. Quem teve mais sentido de independência: os chefes cabindas que se «entregaram» voluntariamente ou os líderes cuanhamas que se opuseram ferozmente à presença portuguesa e defenderam os seus territórios com unhas e dentes?

Julgo muito infeliz a afirmação de um ilustre independentista segundo a qual o facto de nunca se ter sentido angolano lhe dava forças para continuar a luta pela independência. Que seria de nós se só fossem angolanos aqueles que de facto se sentissem como tais? É que os autóctones agrupados por Portugal num mesmo espaço territorial nunca formaram uma nação unificada como os colonizadores e o 11 de Novembro de 1975 não foi capaz de construir a identidade nacional. Por exemplo: o Dr. Paulo Carvalho conta, numa das suas obras, que o Dr. Américo Kwononoca, no âmbito de um estudo sociológico, pediu ao Soba dos Mungabwes (região da Huila) para representar o território angolano. Eis a resposta do soba: «o meu país, Angola, começa na Comuna do Jau e termina no Município dos Gambos». Alguém se lembrou de perguntar aos habitantes do Mbanza Congo, das Lundas ou do Kuando-Kubango se, depois da retirada dos portugueses, queriam ser angolanos? Será que as populações daquela área do Moxico que «invade» o território zambiano se identificam com Angola? Será que o mumuila da Humpata e o mucubal da Bibala se sentem de facto angolanos? Precisamos de ter mais cuidado. Porque as questões da angolanidade e da identidade nacional são muito complexas.

2. Porquê que Cabinda está separada do resto do território? Antes de mais, convém referir que o fenómeno da descontinuidade territorial não é um facto exclusivo de Angola. Por exemplo, todos os territórios das potências coloniais eram descontínuos e o território de Cabo Verde é composto por 9 ilhas separadas entre si. Muito antes de 1885, a presença portuguesa já se fazia sentir nas concorridas regiões situadas a norte do rio Zaire. Mas a «corrida a África» e os conflitos daí resultantes impuseram, às potências coloniais, novas regras de domínios territoriais. Por exemplo: nas disputas pela posse dos concorridos territórios, Portugal reclamava primazia por causa do seu papel nos descobrimentos e pelos velhos laços que mantinha com os chefes nativos. Em contrapartida, as outras potências exigiam uma ocupação clara e efectiva dos territórios reclamados. O debate prolongou-se durante e depois da célebre Conferência realizada em Berlim, entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885. É neste contexto que surge o tão famigerado «Tratado de Simulambuco».

O documento que tem empolgado os «independentistas» constituiu a fórmula encontrada pela diplomacia portuguesa para fazer vincar os seus argumentos. Assim, o monumento de Simulambuco, entre outros actos simbólicos, serviu de prova inequívoca da exigida ocupação efectiva e o documento escrito valeu como sustentáculo do argumento segundo o qual os chefes dos territórios reclamados eram, há muito, súbditos da coroa portuguesa. Aliás, o extracto da petição dos chefes cabindas que consta do Tratado é claro: «num tratado pelo qual fiquemos sob o protectorado de Portugal, tornando-nos, de facto, súbditos da coroa portuguesa como já o éramos por hábitos e relações de amizade».

Mas, apesar de ter usado o «Tratado de Simulambuco» como importante trunfo nas disputas pela posse das terras situados acima do rio Zaire, Portugal teve de ceder alguns territórios. E o Enclave de Cabinda nasceu, exactamente, dos sucessivos acordos de delimitação das fronteiras que Portugal celebrou com o «Estado livre do Congo», a Inglaterra, a França e a Bélgica, entre 1846 e 1901.

E se olharmos bem para qualquer mapa de África veremos o porquê de Cabinda se ter tornado numa região geograficamente descontínua: É que aquele espaço entre o Enclave e o resto do território constitui a única saída para o Oceano Atlântico que o então Congo Belga, ex- Zaire e actual R. D. do Congo possui. Portugal, que já dominava uma vasta região costeira, teve de ceder ao «Estado livre do Congo» e posteriormente à Bélgica aquele espaço vital que separou Cabinda das demais regiões que compõem Angola.

José Maria Huambo


quinta-feira, 29 de junho de 2006

Angola no «Mundial» do Desenvolvimento

Vamos, na reflexão de hoje, analisar e repensar o triste desempenho de Angola numa das mais importantes competições da humanidade: o «Mundial» do Desenvolvimento. Nesta competição, o apuramento das «selecções» faz-se mediante as capacidades das «equipas» usarem todos os seus recursos e todas as suas potencialidades na criação de condições que contribuam para o bem-estar físico e espiritual de todos os seus «adeptos». Porque, seja quais forem as «selecções» dos seus corações, todos os «adeptos» deste mundo desejam ter boa vida, viver mais tempo, aumentarem os seus conhecimentos, participar activamente na vida das suas comunidades e usufruir da segurança das suas pessoas e dos seus bens.

O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a FIFA do desenvolvimento, dispõe das seguintes competições que avaliam e premeiam as «equipas» desta importante competição da humanidade:

Supertaça da Evolução: Fazem parte desta fase do «Mundial» as «equipas» que canalizaram, de forma brilhante, todos os seus recursos e potencialidades na valorização dos seus «adeptos» em todas as suas dimensões. Dominam a Supertaça as «selecções« da Noruega, Islândia, Suécia, Canadá, Suíça, Luxemburgo, Austrália, Dinamarca e Finlândia.

Liga dos Campeões: A maior parte das «equipas» desta milionária competição estavam completamente arruinadas depois da II Guerra Mundial. Mas, em poucas décadas, recuperaram de forma espectacular, tornado-se poderosas «selecções». Destacam-se nesta fase da «Copa» do Desenvolvimento, os EUA, o Japão, a Bélgica, França, Holanda, Alemanha, Itália, Inglaterra, Irlanda, Espanha, Áustria e Nova Zelândia.

Superliga do Desenvolvimento: As «equipas» desta fase do «Mundial» fizeram brilhantes esforços no sentido de promoverem o crescimento económico das suas comunidades e a valorização integral dos seus «adeptos». Mas, por várias razões, ainda persistem no seio dos seus «adeptos» pequenos focos de pobreza, desigualdade e exclusão social. Destacam-se nesta fase do «Mundial» as selecções de Israel, Portugal, Grécia, Singapura, Coreia do Sul, Chipre, Rep. Checa, Qatar e Emiratos Árabes Unidos.

Liga do Mau Crescimento: Muitas «equipas» desta fase do «Mundial» dispõem de vastos recursos humanos e naturais. Mas a gestão dos mesmos tem sido feita de forma desastrosa. E pior. Houve um gritante desajuste entre o crescimento económico e o desenvolvimento humano. Assim, enquanto multidões imensas de «adeptos» enfrentam privações de toda espécie, algumas «claques» vivem na opulência e na dissipação. Coexistem, assim, entre os «adeptos» das «equipas» desta competição, o luxo e a miséria. E as causas destas desigualdades podem ser de ordem política, económica, racial, cultural ou religiosa. Destacam-se nesta liga a Líbia, Rússia, Brasil, China, Venezuela, Tailândia, Turquia, África do Sul.

Liga dos Últimos: As «selecções» que competem nesta fase do «mundial» do Desenvolvimento fracassaram, por várias razões, na criação de condições que contribuam para o bem-estar físico e espiritual dos seus «torcedores». Por isso, a esmagadora maioria dos seus «adeptos», é incapaz de ter uma vida longa e saudável, de adquirir conhecimentos, de participar activamente na vida comunitária, de exercerem os seus direitos cívicos e políticos e de terem acesso aos recursos necessários para beneficiarem de um padrão de vida adequado. A nossa «selecção» faz parte desta competição, ocupando o 15º lugar entre as 32 «selecções» presentes nesta fase. O Madagáscar, a Suasilândia, os Camarões, O Lesoto e o Djibuti ocupam os cinco primeiros lugares da tabela classificativa.

Portanto, Angola, depois de ter sido uma das mais promissoras «selecções» deste planeta, apresenta-se hoje no vergonhoso grupo das «equipas» que incontestavelmente lideram os piores dados estatísticos do «Mundial» do Desenvolvimento. Quer isto dizer que estamos muito aquém do progresso económico e do desenvolvimento sustentável que tanto se fala. Estamos muito longe de ser a tal potência africana que tanto se propala. Porque nesta competição, a força e o poder de uma «selecção» não é determinado pelas riquezas existentes no mar, solo e subsolo. Não é mensurado pela cilindrada dos luxuosos carros que circulam nas suas principais cidades. Não é valorado pelo poderio bélico das suas forças armadas. Não é medido pelas caprichosas extravagâncias das suas elites.

Pior do que este triste cenário, é o facto de, ao longo destas décadas de raras «vitórias», alguns «empates» e muitas «goleadas», desenvolvermos o estranho hábito de atribuirmos exclusivamente às «equipas de arbitragem» a culpa pelo mau desempenho da nossa «selecção». E são muitos os «árbitros» que serviram de «bodes expiatórios»: «o colonialismo que cultivou o obscurantismo e a exploração do homem pelo homem»; «o imperialismo e seus lacaios»; «a cobiça de alguns países»; «os bandos de fantoches armados»; «a ingerência de alguns estados no assuntos internos de Angola»; «o regime comunista instaurado em Angola»; «a arrogância dos caudilhos»; «o regime totalitário de Luanda»; «o neocolonialismo russo-cubano»; «os profundos interesses das grandes potências mundiais», etc., etc.

A nossa selecção tem condições de fazer uma notável campanha no «Mundial» do Desenvolvimento. E não é utópico sonharmos brilhar na Liga dos Campeões ou conquistar a Supertaça da Evolução. Mas para materializarem este sonho e darem esta enorme alegria aos «adeptos» angolanos, os responsáveis da «federação», a «equipa técnica» e os «jogadores» terão de moldar uma grande «equipa» e por em marcha um gigantesco plano de trabalho que seja capaz de, em poucas décadas, tirar a nossa promissora «selecção» das humilhante Liga dos Últimos, superar a Liga do mau Crescimento e ocupar os lugares cimeiros da Superliga do Desenvolvimento.

E para conseguirmos realizar esta espectacular e honrosa subida, a realização pessoal e social dos «adeptos» angolanos terá de ser o fim único e absoluto da actuação de todos quantos integram os trabalhos da «selecção» de Angola. Porque, como bem disse João Paulo II, “a pessoa humana, na sua dimensão pessoal e comunitária, no que ela é e no seu desenvolvimento, deve ser o ponto de referência para a organização da sociedade e da economia, para a elaboração das leis, para o ordenamento das relações sociais, para a distribuição dos bens da comunidade nacional”. E dado que a dignificação dos «adeptos» deve ser o centro de todo e qualquer plano de crescimento económico e desenvolvimento sustentável, a nossa «selecção» dificilmente sairá da vergonhosa classificação enquanto os responsáveis pelo nosso destino colectivo continuarem a gerir, de forma desastrosa, os nossos abundantes recursos e persistirem em vedar à esmagadora maioria dos «adeptos» de Angola o legítimo acesso a todas as coisas de que necessitam para levarem uma vida verdadeiramente humana.

José Maria Huambo

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Os Donos da Bola

Há, entre nós, uma generalizada desilusão motivada pela forma como a oposição política, as principais instituições civis e religiosas, as lideranças sindicais e alguns intelectuais proeminentes se submetem aos jogos, caprichos e desmandos do núcleo duro que detém o poder e domina a sociedade angolana.

Este triste fenómeno fez-me recuar no tempo e rever uma das mais sinistras figuras da minha memorável infância: o dono da bola. Aqueles que, como eu, passaram grande parte da infância a jogar a bola, lembram-se, com certeza, que durante a década de oitenta eram poucos os que tinham um esférico a sério! A maior parte de nós passava longas horas a jogar com bolas de trapos ou de meias. E a imensa criatividade dos miúdos do meu tempo proporcionou-nos o prazer de jogar futebol com bolas de vários tipos e feitios, sendo as mais «sofisticadas», aquelas que o Narciso fazia: envolvia um monte de plásticos em peúgas militares, até formarem um grande esférico. Depois cobria-o com restos de colchão de esponja, para dar-lhe elasticidade. Por fim, envolvia o esférico esponjado num saco plástico, entrelaçando-o com cordas de barbante que lhe dava o aspecto atractivo.

Claro que, enquanto incondicionais amantes do futebol, o nosso ardente desejo e a nossa mais profunda ambição era jogar com um esférico a sério, quer fosse de borracha ou de «catchu». Mas, naquele tempo, as ditas bolas eram um raro bem, apenas ao alcance dos clubes a sério, das equipas dos caçulinhas e dos filhos dos «pequenos burgueses». É neste contexto que os poucos proprietários de um esférico a sério surgiram como figuras marcantes da nossa infância. E de todas essas figuras com as quais me deparei, uma delas destaca-se como paradigma perfeito da confrangedora situação vivida pelas cada vez mais passivas figuras da oposição política, da intelectualidade nacional e das lideranças sindicais, sociais e eclesiásticas.

Por razões pessoais, vou omitir o seu verdadeiro nome e chamar-lhe Jota-Jota. Apesar de ser um bom miúdo, Jota-Jota nunca foi um daqueles jogadores indispensáveis, quer nas equipas da nossa rua, quer nos grupos que actuavam nos pelados das escolas que circundavam o nosso bairro. Na maior parte das vezes, ele só entrava em campo nos dias em que havia pouco pessoal. Mas tudo mudou a seu favor quando uma das tias vinda de Luanda entregou-lhe uma prenda carinhosamente enviada pelo padrinho que vivia em Portugal: uma novinha bola de «catchu» Mikasa e um equipamento completo da Adidas, daqueles com fato olímpico, calções, camisola, meias e chuteiras. Assim, por ser dono da mais cobiçada bola do meu tempo, Jota-Jota passou a ser o miúdo mais adulado e o jogador mais procurado da minha rua.

Cansados de jogar com as «sofisticadas» bolas do Narciso e ansiosos por colocar os nossos pés descalços na bendita Mikasa preta e branca, pressionamos o novo dono a marcar um jogo de estreia. Mas só no dia do desafio nos apercebemos que o Jota-Jota, como qualquer dono da bola que se preze, iria usar a Mikasa como instrumento de poder e de influência. Os caprichos e desmandos que um esférico de «catchu» lhe conferia vieram logo ao de cima na altura do «bota-sapato». Para quem não sabe ou não se lembra, o «bota-sapato» era um «democrático» mecanismo que determinava a escolha das equipas. Dois jogadores ofereciam-se ou eram escolhidos para seleccionarem os elementos das suas equipas. Marcava-se um ponto de referência. Os dois jogadores davam a mão e, partindo desse ponto, recuavam até uma certa distância, a partir da qual começavam a contar os passos em direcção ao ponto de referência. Por cada passo dado um dizia «bota» e outro respondia «sapato». Aquele que alcançasse primeiro o ponto de referência tinha direito à primeira escolha.

Fui escolhido para apadrinhar o primeiro «bota-sapato» do dono da bola. Durante o percurso em direcção ao ponto de referência, Jota-Jota deu dois passos a mais e ganhou o direito à primeira opção. Todos vimos a monumental batota. Mas, levados pela ânsia de jogar com uma bola a sério, acabamos por desculpar a fraude. Jota-Jota, ciente do ascendente que passou a exercer sobre nós, estava decidido a ficar com os melhores em campo. E esta pretensão ficou clara quando anulou as minhas primeiras escolhas que tinham recaído sobre o Nato (Bernardo) e o Enoque, que eram, respectivamente, o melhor guarda-redes e o mais temível avançado do nosso Bairro. Esta situação gerou uma longa discussão que só terminou quando o Jota-Jota decidiu ir para casa. Naquele tempo, levar a respectiva bola era o mais poderoso instrumento de chantagem que os donos gostavam de usar para fazerem vincar os seus desmandos e caprichos. Assim, vergados pela força da chantagem e determinados em não deixar escapar a rara oportunidade de jogar com uma Mikasa, acabamos por acatar a desonesta e arrogante imposição.

Depois dos desentendimentos iniciais, lá começou o jogo que se tornou recheado de controvérsias. A minha equipa marcava um golo. Os batoteiros do outro lado apressavam-se a invalidá-lo. Discussão. É golo... não é... é golo... não é... E lá vinha o Jota-Jota: «vou levar a bola!» E nós: «ta bem, pronto... não foi golo». Um jogador da minha equipa dá um encostão ao adversário na zona do meio campo. Jota-Jota pega na bola e decide assinalar... grande penalidade. Os ânimos exaltam-se. Perante a tenaz resistência dos adversários, o dono da Mikasa decide: «vou levar a bola!» E nós, preferindo engolir a fraude monumental a perder o jogo, lá acabamos por fazer-lhe a vontade: «ta bem, pronto... é penalti».

Apesar da batota dos adversários, chegamos a meio do jogo a ganhar por 6-3. O grande responsável pelo esmagador resultado chamava-se Bato (Bartolomeu). Este miúdo, escolhido a ultima da hora para reforçar a minha desfalcada equipa, revelou-se um grande e habilidoso jogador, um genuíno «brinca na areia» que destronou o temido Enoque e fez o Nato parecer um vulgar guarda-redes. Esse Bato protagonizou um incidente que mudou o curso do jogo.

Naquele tempo, era suprema humilhação um jogador permitir que o adversário conseguisse passar-lhe a bola por entre a s pernas (dar da «ova» ou das «cuecas»), driblar-lhe em sprint (levar na «colola») e fazer passar-lhe a bola por cima da cabeça (dar «cabrito» ou fazer «chapéu»). O habilidoso Bato, que se revelara um mestre da «colola» e que já tinha dado «das cuecas» de todos os adversários, cometeu a imperdoável heresia de dar duplo «cabrito» ao dono da bola. Desolado com a pesada derrota da sua equipa e sentindo-se humilhado pelo Bato, Jota-Jota pegou na preciosa Mikasa e, sem explicações, começou a abandonar o campo. Depois de suplicantes pedidos de desculpas do Bato e de longos minutos de uma autêntica batalha diplomática, lá conseguimos convencê-lo a esquecer o humilhante incidente e a regressar ao campo. Ciente da sua dominante posição, o dono da bola decidiu retomar a partida impondo duas grandes condições: o jogo recomeçava empatado a 6 golos e o Bato passava para equipa dele. De início, insurgimo-nos com veemência e indignação. Mas, depois, cedemos, acabando por tolerar as injustas condições.

É escusado dizer que a minha decapitada equipa sofreu um autêntico «massacre». Mas, o que valeu mesmo e constituiu para nós um supremo prazer foi o facto de aquela bola de «catchu» nos ter dado a possibilidade de encarnarmos os nossos ídolos e explanarmos todo o nosso futebol. E por felizes momentos deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser Ndunguidi, Maluka, Sarmento, Jesus, Vata, Napoleão, Chico Diniz, Arsénio, Maradona, Rumenigge, Dasaev, Boniek, Paolo Rossi, Zico, Platini, etc.

Vivemos numa sociedade empobrecida, onde os mecanismos que possibilitam o justo acesso aos chamados «bens socialmente desejados» (habitação, alimentação, educação, saúde, emprego, etc.) continuam concentrados nas mãos do núcleo duro que detém o poder e domina a sociedade angolana. Assim, e cansados de jogar com as «sofisticadas» «bolas de trapos» que dispomos no quotidiano jogo pela sobrevivência, temos sido forçados a recorrer aos nossos «Jota-Jotas» para usufruirmos dos preciosos bens capazes de tornar menos pesado o duro fardo da vida.

E, para continuarmos a desfrutar de um «esférico» a sério, já sabemos o que não se deve fazer aos poderosos donos da bola: dar «cabrito» ao Presidente, nem pensar! E os «Batos» que ousaram fazê-lo, sofreram as devidas consequências. Os atrevidos que tentarem Levar na «colola» os Altos Dirigentes já sabem que correm o risco de levar um «carrinho» mortal ou uma daquelas entradas duras capazes de deixá-los gravemente lesionados. Dar das «cuecas» do «Governo» pode desencadear a perda da casa, do carro, dos dólares, das bolsas de estudo, da junta médica, dos subsídios do partido, dos negócios, dos privilégios e de outras regalias.

E, assim, no quotidiano jogo da realização pessoal e da sobrevivência socio-política, contestar os nossos «Jota-Jotas» transformou-se num risco que poucos se atrevem a correr. E usufruir das «bolas de catchu» proporcionadas pelo poderoso sistema transformou-se num deleitante prazer que ninguém deseja abdicar. Por isso, entre nós, tornou-se preferível suportar os caprichos e desmandos dos donos das preciosas «Mikasas» a jogar honestamente com as «bolas de trapos» da nossa empobrecida sociedade.

José Maria Huambo

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Angola, o advento da nova geração...

Quando olhamos para Angola, sobretudo para as pessoas que indirectamente vao desenhando o novo mapa social e político e lentamente vão assumindo a liderança do país, caimos na conta que existe toda uma geração que vai perdendo espaço; não por ser posta de lado ou que esteja já a deixar o poder, mas porque, infelizmente, já não tem nada para dizer e fazer ou, para usar uma gíria do marketing, já ninguém consome os seus produtos. É o fim de uma geração...
Tenho por hábito dividir os angolanos desde o início do século XX até a estes primeiros anos do século XXI em seis grandes gerações:
A primeira delas é a que herdou, no princípio dos anos vinte, o movimento nativista que vinha do final do século XIX. Essa geração tinha um objectivo: valorizar e fazer respeitar a dignidade dos angolanos como pessoas e sujeitos de direitos através do protesto jornalístico e da criação de Associações Cívicas. Os elementos dessa geração conseguiram o seu objectivo porque foram eles quem, pela primeira vez na história de Angola, fez ver que ser angolano e ser portugues não era a mesma coisa e que essa diferença não dava nem tirava mais dignidade...
A segunda geração é aquela que decidiu transformar o movimento associativo em algo mais efectivo que uma mera organização cívica: estender a consciência para o maior número possível de angolanos de que era possível criar um Estado angolano autónomo. Esta geração que se situa entre os anos trinta e finais de quarenta conseguiu também o seu objectivo.
A terceira geração de angolanos é aquela que decidiu de facto criar um Estado Independente através da criação de movimentos nacionalistas (finais de cinquenta e inícios de sessenta) e da luta armada (anos sessenta e meados de setenta). Apesar das opiniões que se possa ter sobre isso o certo é que, de alguma maneira, essa geração conseguiu o essencial do seu objectivo: a Independência de Angola.
A quarta geração é a que, uma vez adquirida a independência, empenhou-se em criar as estructuras políticas e as instituiçoes do Estado e tentou-o, sobretudo, nos anos oitenta. Não é exagerado dizer que esta geração fracassou rotundamente por razões que agora não vem à colação. Estes anos, apesar de alguns logros, foram anos em que grande parte do património físico, cultural e institucional herdado da época colonial foi destruido e nao foi substituído e foi também a época do grande colapso económico.
A quinta geração é a dos noventa, a que tentou fazer a transição para a democracia. Também essa geração falhou e nao é preciso muita perspicácia para ver como funciona o nosso sistema a que alguns tildam ironicamente de “pseudocracia”.
A sexta geração é a que está a forjar-se nestes últimos quatros anos a qual pertence a maior parte das pessoas que têm menos de trinta e cinco anos, com formação tanto em Angola como no estrangeiro, e da qual fazem parte também pequenos e médios empresários, jovens advogados, os novos engenheiros informáticos, alguns professores tanto de escolas primárias como secundárias, funcionários de empresas públicas e privadas, membros de ONG’s, alguns jornalistas, jovens oficiais do exército, alguns elementos da polícia com formação superior ou técnica, músicos, artistas plásticos, pequenos comerciantes, novos líderes religiosos, membros activos de pequenas associações e gente corrente que vive mais ou menos frustrada com a situação e, apesar disso, busca honestamente formas quase milagrosas para sobreviver etc.
Uma geração nao se difine pela idade das pessoas que nela pertencem, mas pelo tipo de valores concretos que encarnam numa determinada época e pelo padrão de vida (standard of living) a partir da qual recebem e configuram uma certa visão do mundo e dos problemas, e traçam objectivos concretos para as suas vidas e para a sociedadeda em que vivem. Enfim, uma geração também é delimitada pelos critérios ou pautas a partir das quais tomam certas decisoes e julgam certos actos sociais, políticos com menor ou maior grau de moralidade. Portanto alguém pode ter trinta e cinco anos e pertencer à mesma geraçao daquele que tiver vinte e cinco porque o factor central não é a idade, mas os valores em voga, o espírito da época que uma determinada colectividade apreende.
Acontece que cada geração tem a sua própria linguagem e uma espécie de gramática de acção e, no caso concreto de Angola, cada geraçao teve também o seu ‘inimigo de estimação’ e, se nao teve, procurou cria-lo. Há certas atitudes e decisões da vida e da história de um país que se pode exigir a uma geração mas nao a outra. Aquilo que os elementos da terceira geração fizeram, isto é, obter através das armas a autonomia política nao se podia exigir aos elementos da primeira geração. Também é dificil exigir aos elementos da terceira geração, a estes que lutaram pela independência, o que se pode exigir aos da sexta geração. Se fizermos uma pequena comparação entre a geração que está a forjar-se com as duas últimas gerações vamos encontrar caracteríticas não só diferentes até mesmo contradictórias:
Os individuos da geração anterior acreditavam que o mundo estava dividido em dois blocos: um bom (socialista) e o outro mau (o ocidente), e vice-versa, e achavam que deviam estar do lado dos bons e ser inimigos dos maus; a nova geração entende o mundo como algo multipolar onde já nao interessa tanto o alinhamento entre os bons e os maus, mas entre os nossos interesses e interesses dos outros podendo fazer e desfazer alianças de acordo com os próprios interesses. A geração passada ainda vive traumatizada pelo colonialismo, ainda nao superou o complexo de ex-colonizado, ou de um explorado emancipado; a nova geraçao que não viveu o colonialismo nao sente a necessidade de se justificar continuamente, nem vive com o drama de que possam a vir a ser colonizados novamente e nem precisa de olhar para o estrangeiro com uma sistemática desconfiança.
A geração passada pensava que para formar um Estado implicava a presença de um lider forte, inquestionável, carismático e endeusado a quem todos devessem obediência cega; a nova geraçao pensa que o Estado se organiza à volta da lei e que a única forma de legitimar o poder é através da participação dos cidadãos pelo voto livre. A geração antiga passadaa despositiva a sua força nas armas, no poder do gatilho e na capacidade de destruir o outro; a nova geraçao acredita mais na palavra, na persuasão, na força da razão, da lei e da justiça. A geração antiga pensava que consguir acumular riqueza às expensas do Estado era sinal de inteligencia e de esperteza. A nova geração acredita que o prestigio advém do uso das suas capacidades de trabalho e da remuneração que consegue com os resultados. A geração passada achava que a relação entre as pessoas devia basear-se no medo e na capacidade de usar a força, a nova geração pensa que a relação basea-se nos valores da cidadania e do bom senso. A geração passada era adepta do discurso pomposo e inflamdo mesmo que fosse vazio de ideias e sem qualquer consequência prática; a nova geração prefere o discurso directo, simples, compreensível e que possa gerar resultado. A geração passada transformou a antiga (colonial) descriminação racial entre brancos e negros em descriminação entre norte e sul, entre mistiços e negros, entre bacongos e lundas entre os do campo e os da cidade, em tribalismo, em etnocentrismo, ressentimento, cultivo do ódio e da vingança; a nova geração é, sobretudo, angolana, isto é, a base do relacionamento está no facto de todos serem desta terra e usarem mais ou menos a mesma camisola... Não interessa tanto a etnia, a proveniência ou a raça.
A geração passada tem quase uma obsessão de provar ao homem branco que também tem poder para isso faz colecção de carros de luxo e de fatos caros mesmo que isso implica deixar à mingua milhares dos seus compatriotas; a nova geração não está interessada em provar nada a ninguém, quer apenas mudar o país e contribuir para que o maior número de pessoas tenha uma vida melhor. Grande parte da geração passada não teve acesso ao ensino superior ou não o terá terminado e este complexo fez que muitos comprassem certificados univesritários falsos e fossem tratados por “senhor doutor” ou por “senhor engenheiro”; a nova geração prefere ser tratada como pessoas, mesmo que alguns tenham formação universitária e sejam excelentes profissionais. A ambição máxima de muitos elementos da geração passada era conseguir um cargo na chefia do Estado, por exemplo, ser ministro ou director de qualquer coisa; a ambição máxima para a nova geração é deixar obra feita, é ser respeitada pelos resultados adquridos. A geração que está a chegar ao fim está a cultivar uma nova moda: ter ‘namoradas’ da idade das filhas mais novas ou das netas a troco de benesses seja em dinheiro ou em bens imóveis, apesar de serem homens casados e com as suas mulheres em casa; a nova geração considera este tipo de relacção como uma ‘prostituição de luxo’ e preferem ter um tipo de relacção estáveis na qual o rapaz ou a rapariga nao sejam objectos sexuais, mas companherios/as com as quais se partilhe interesses comuns, a vida, as ambições, os dramas, os senhos as derrotas e as victórias do dia a dia. Enfim a geração antiga é mais de tradiçao republicana e socialista com o excessivo peso do Estado sobre os individuos; a nova geração é mais democrática e liberal, em que os direitos fundamentais do individuo está acima das prerrogativas do Estado. Cada geração tem o seu inimigo. A geração passada, primeiro tinha como inimigo o portugues, depois o russo e o americano, o cubano e o sul africano... e depois o próprio angolano! O único inimgo da nova geração é a miséria/pobreza, a má organização do Estado, o desemprego, o analfabetismo, a destruição das infraestruturas, a corrupção, as minas anti-pessoais. Para a geração passada o mundo era branco e negro; para a nova o mundo é um arco-iris. Para a geração passada as mudanças sociais dependiam da obediência cega à autoridade, de ser ‘cordeirinho’, do uso da força, e duma governação envolta num mistério; a nova geração pensa que para o país caminhar precisa da imaginação e da iniciativa dos cidadãos, da participação de todos, cada um à sua maneira e pensa que questionar uma autoridade não é crime. Para a geração passada ter autoridade era como estar revestido duma certa divindade, para e geração nova a autoridade é sinal de serviço à comunidade com o dever de prestar contas e ser submetido à crítica...
Cada geração tem a sua missao na história. A nova geração parece que acredita que é possível construir um país viável, baseado na lei e na justiça onde todos possam viver razoavelmente bem.
A geração que agora esta a passar nota-se pela maneira agressiva e bruta como tenta rapinar os bens do Estado, nota-se que está a acabar não porque os seus membros estejam a morrer, mas porque os seus valores já não coincidem com os da nova geração nem a suas mundividências se entrecruzam... A história da infância da geração passada era como eram explorados pelo homem branco; a história de infância da nova geração é como são vítimas dos próprios angolanos... Para a geração passada a maior parte dos males de Angola era a culpa do estrangeiro, dos de fora; a nova geração cre quea maior parte dos males de Angola é da responsabilidade dos próprios angolanos nesse sentido, a nova geração é mais autocrítica. O que não é em si mesmo mal nenhum!
Isto nao quer dizer que a geração passada nao fez nada ou que nao tenha cumprido parte do seu dever na época que lhe correspondeu e nem que todos os ‘mais velhos’ tenham que ser encaixados nos mesmos moldes: apenas significa que a nova geração tem outra agenda existencial, quer mesmo construir um Estado a sério que funcione, onde, por exemplo, pelo menos nenhuma criança nenhuma criança morra por falta de uma simples aspirina ou de um copo de leite; um Estado baseado em princípios universais para que quando chegar a hora da retirada e dar lugar a outra geração poder repetir com a cabeça erguida o que dizia o poeta: “as minhas mãos colocaram pedras nos alicerces do mundo/ por isso mereço o meu pedaço de pão”.

Paulo Inglês