Depois de duras semanas a tentar romper a poderosa e preconceituosa teia burocrática, fortemente, enraizada na célebre instituição nacional, o esperançoso jovem, através dum influente amigo da prima do rico namorado da querida tia, lá conseguiu fazer chegar o importante requerimento às mãos da poderosa secretária do Sr. Director. E tinha imensas razões para comemorar o feito tão difícil. É que, quando chegassem às mãos da zelosa secretária, os documentos passavam a ter 99% das hipóteses de cumprirem o seu destino. E para colocar mais «gindungo» nas fortes expectativas do jovem, a zelosa secretária pediu-lhe que fosse falar com ela no início da semana seguinte.
Chegado o dia marcado, o nosso jovem dirigiu-se ao gabinete da poderosa senhora em busca de novidades. A zelosa secretária, habituada à persistência dos requerentes, sossegou o nosso jovem, garantindo-lhe que o seu documento já estava pronto a ser despachado pelo Sr. Director. E o deferimento só não tinha acontecido porque o chefe tivera uma série de complicadas reuniões. «Volte daqui há quatro dias».
Passado o tempo pedido, o cada vez mais ansioso jovem regressa ao poderoso gabinete da célebre instituição nacional. «Olha, o Director ainda não despachou o requerimento. Nestes últimos dias tem andado ocupadíssimo. Venha cá p’ra semana». Sete dias depois o persistente jovem reaparece. «Ainda não tenho novidades. Peço desculpas. O Sr. Director foi numa missão de serviço. Venha daqui há quinze dias e garanto-te que haverá novidades». Duas semanas depois, a mesma ladainha e... nada! Um mês, dois meses e...nada!
Numa das suas habituais visitas ao Roque Santeiro, o nosso cada vez mais frustrado jovem resolve comprar uma dose de pão com peixe frito para «enganar o estômago». Enquanto saboreava o «almoço», entreteve-se a contemplar a dura realidade que o envolvia e a imaginar a vida que levaria como bolseiro angolano no exterior. Mas, num repentino e irresistível impulso, digno de um verdadeiro sexto sentido, interrompeu a meditação e decidiu reparar bem no papel que embrulhava a «sande» de peixe frito. A cuidada caligrafia, a rigorosa estética e o eloquente conteúdo não deixavam dúvidas: aquele pedaço de papel gorduroso e amarfanhado era o que restava do seu importante requerimento.
E a razão deste incrível e repugnante fenómeno é muito simples: A mãe da zelosa secretária era assídua quitandeira no Roque Santeiro. E a poderosa auxiliar do Sr. Director tinha por habito entregar à querida progenitora toda a papelada excedente, composta de requerimentos indesejados, jornais, revistas e velhos documentos.
Pois é, meus caros. A dolorosa experiência vivida pelo nosso jovem não difere muito da dura realidade que envolve a por mim denominada «geração enganada e sacrificada». Em 1976, e no auge da febre da Independência, o esperançoso e promissor grupo dos nascidos entre 1950 e 1975 fez um eloquente e pomposo requerimento dirigido aos dirigentes que não cessavam de proclamar que, para eles, «o mais importante era resolver os problemas do povo».
No dito requerimento, esmeradamente dactilografado em papel de 25 linhas, os elementos do grupo, com idades entre os 0 e 25 anos, exprimiam o ardente desejo de terem acesso a todos os benefícios a que tinham direito por força da tão longamente esperada independência. Exigiam uma equitativa repartição dos recursos económicos. Queriam que houvesse uma igualdade de oportunidades e uma justa recompensa dos talentos que cada um deles desejava dispor ao serviço da comunidade. Pretendiam que nascessem e vivessem em humanas condições de vida e que tivessem habitações decentes e uma alimentação digna. E porque “um analfabeto é um espírito subalimentado”, desejavam também que frequentassem escolas e universidades com adequadas condições de aprendizagem, que tivessem oportunidades de se formarem e desenvolverem os seus talentos com dignidade. E, por fim, exigiam um sistema de saúde mais humano e que fosse capaz de prestar-lhes uma eficiente assistência médica e medicamentosa, fundamentais para responderem, com vigor, aos desafios da «reconstrução nacional».
Passou um ano de ansiosa espera pela resposta dos dirigentes. E nada. Dois anos... três... quatro... cinco... seis anos e nada! No sétimo ano (1983) os elementos do grupo, agora com idades entre os 8 e os 33 anos, resolvem indagar os dirigentes sobre o andamento do requerimento. - Então camaradas, os nossos problemas? – Ah, não, vocês vão precisar de mais um pouco de paciência e abnegação porque ainda não deu para resolver cabalmente os vossos problemas. Somos um país jovem. Sofremos cinco séculos de um colonialismo terrível que nos deixou uma pesada herança. Quando nos preparávamos para resolver os vossos problemas fomos atacados em várias frentes pelos nossos inimigos. Estamos a enfrentar o imperialismo que continua a financiar actividades subversivas e contra-revolucionárias para desestabilizar a situação política, militar e económica do nosso país. Tivemos repetidas agressões armadas levadas a cabo pelos racistas sul-africanos que culminaram numa invasão de grande envergadura. E nestes difíceis momentos da nossa história, precisamos do vosso patriótico sacrifício, dando tudo quanto têm de melhor para a defesa da Pátria, da nossa liberdade e integridade territorial. Sem o vosso engajamento não será possível defender as conquistas já alcançadas.
Entretanto, os anos foram passando e... nada. Em 1990, sete anos depois da última comovedora promessa, os elementos do grupo, agora com idades entre os 15 e os 40 anos, voltam a indagar os «esforçados» dirigentes. – Então camaradas, os nossos problemas? Ah, sabem, nós estamos cientes das vossas dificuldades. Mas, acreditamos que saberão compreender os graves obstáculos que continuamos a enfrentar. Os inimigos de sempre não desarmam e continuam com as suas manobras. A administração Reagan, através da emenda Clark, inaugurou uma grave política de ingerência nos nossos assuntos internos. O exército de Savimbi, apoiado pela racista África do Sul e pelo Zaire, intensificou as suas acções de guerra e incrementou os seus actos de terrorismo. Todos estes factores levaram-nos a desviar grande parte dos recursos financeiros e materiais para a conquista da paz, afectando, assim, grandemente o cabal cumprimento do nosso plano nacional. Mas não se preocupem, que irão sentir os benéficos efeitos do plano do SEF, gizado com profunda clarividência. Até lá, devem permanecer vigilantes e mobilizados para garantir a defesa das nossas conquistas.
Entretanto, passaram outros sete anos e os problemas agravavam-se cada vez mais. Estamos em 1997 e os destroçados elementos da geração da independência, agora com idades entre os 22 e os 47 anos, resolvem, mais uma vez, indagar os dirigentes. – Então camaradas, os nossos velhos problemas? Ah, já sabem o que aconteceu ao nosso país. Quando tínhamos tudo preparado para, finalmente, resolvermos cabalmente os vossos problemas, eis que o espectro da guerra voltou a pairar sobre nós. A Unita contestou, por via armada, os resultados eleitorais, abrindo uma grave crise que mergulhou o país numa verdadeira catástrofe. A sanha assassina de Savimbi obrigou-nos, novamente, a canalizar todos os recursos financeiros e materiais para o esforço de guerra. Graças a um gigantesco esforço nacional, o país, que estava à deriva, voltou ao rumo certo e retoma agora lenta mas seguramente a sua marcha. E não vos preocupeis. Porque os sinais destes tempos mostram que o país está a caminhar rapidamente para uma nova etapa, uma etapa em que iremos saber equacionar e resolver novos e velhos problemas. Mais uma vez, contamos com o vosso abnegado sacrifício na defesa da integridade territorial e no vosso esforço para recolocar Angola no caminho do progresso e da prosperidade.
Acontece que estamos em 2008, 11 anos depois das promessas de 1997 e 32 anos depois da entrega do requerimento. E… nada. Continuamos a ser bombardeados com velhas desculpas e com as promessas do costume. Dizem que é agora que tudo se vai resolver. Prometem, por exemplo, para o período 2009-2013, construir cerca de um milhão de habitações em todas as províncias. Vamos ver.
E como a esperança é a última a morrer, não desistimos e contamos regressar em 2013. Nessa altura, os elementos do grupo que dactilografou o requerimento terão entre os 38 e os 63 anos. Espero, sinceramente, que, até lá, os nossos dirigentes tenham a hombridade de dizerem a verdade sobre o destino do velho requerimento e que se redimam das suas faltas tornando menos pesado o fardo da vida dos filhos e dos netos da geração que tem sido enganada e sacrificada desde 1976.
José Maria Huambo
