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sexta-feira, 12 de março de 2010

Contra os Adeptos e Torcedores da Paz Definitiva!

“Ninguém se iluda de que a simples ausência de guerra, apesar de tão desejada, seja sinónimo de paz duradoura. Não há paz verdadeira, sem equidade, verdade, justiça e solidariedade. Está destinado à falência qualquer projecto que deixe separados dois direitos indivisíveis: o direito à paz e o direito a um progresso integral e solidário. As injustiças, as excessivas desigualdades de ordem económica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens, são uma constante ameaça à paz e provocam as guerras”.
PAPA JOÃO PAULO II


Caros defensores da Paz definitiva.
Nesta fase em que precisamos de aprender as lições da maldita guerra e «inventarmos», juntos, um modelo de Estado que seja capaz de unir e conciliar os angolanos, corrigir as profundas desigualdades socioeconómicas, tornar menos sensíveis e menos virulentas as inevitáveis conflitualidades e limpar fermentos da guerra, não há nada mais perigoso do que a vossa inabalável convicção de que a paz tornou-se, entre nós, irreversível e absolutamente consolidada. Não há nada mais prejudicial do que a vossa absoluta certeza de que estamos definitivamente reconciliados, cada vez mais unidos e prontos a trilhar os caminhos do progresso e do bem-estar social. Para vocês, a guerra que nos desgraçou foi um acidente de percurso, um fenómeno excepcional que jamais voltará a ensombrar as nossas vidas!

Caros adeptos e torcedores da Paz definitiva! A meu ver, o vosso grande problema reside no facto de proclamarem a vossa tão gabada paz definitiva partindo da errada ideia de que Angola é uma realidade política especial e isolada do resto do mundo. Por isso, não querem saber das lições da história. Não querem ouvir os conselhos dos experientes nem aprender com os longos erros da humanidade.

Caros torcedores da Paz definitiva! Mas vocês acham mesmo que é de agora e só aconteceu em Angola a existência de 3 líderes que disputavam o poder absoluto?
Vocês acham bom fiar-se na crença de que Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi só guerrearam entre si e nunca se entenderam por causa dos obscuros interesses das potências que sempre cobiçaram as riquezas de Angola?
Vocês julgam que é novidade o estrondoso enriquecimento de Eduardo dos Santos?
Vocês pensam que a feroz e cruel disputa entre MPLA e UNITA e tudo o que aconteceu até a morte do Líder do Galo Negro é original e só aconteceu em Angola?
Vocês acreditam mesmo que as causas do longo conflito estão definitivamente enterradas no túmulo de Jonas Savimbi?

Pois é, fazem mal pensarem assim! É que não há nenhuma novidade em tudo o que temos visto em Angola.

Muito antes de Jesus Cristo ter nascido, já um sábio tinha escrito: «O que foi ainda será. O que foi feito far-se-á. Não há nada de novo debaixo do sol. Ninguém pode dizer “eis, aqui está uma coisa nova” porque ela já existia nos tempos passados» (ECLESIASTES 1, 9-10).

Para reforçar estes argumentos, quero partilhar convosco um texto bíblico extraído do livro de DANIEL e escrito há mais de 2000 anos. No texto, o Profeta Daniel pressagia a derrocada e divisão do vasto Império Persa.

A Pérsia, sobretudo na fase denominada Aqueménida (648 a.C.-330 a.C.) foi o maior, o mais rico e o mais poderoso império do mundo de então. Era uma espécie de EUA da época. Contudo, as ambições, as injustiças, a ganância, a incompetência e profundas rivalidades dos governantes de então contribuíram para o surgimento de longas e mortíferas disputas que enfraqueceram e dividiram o império e precipitaram a sua derrocada.

Eis, então, o texto de DANIEL (DAN 11, 1-45):

“Haverá na Pérsia ainda três reis. O quarto ultrapassará em riqueza todos os outros. (...)
O rei do sul tornar-se-á valoroso (...) e depois evitará atacar o rei do norte durante alguns anos. Entretanto, os filhos do rei do norte prepararão a guerra, reunindo grande multidão de tropas, que, espalhando-se qual torrente, invadirá, reaparecerá e levará as hostilidades até a fortaleza dele.

Irritado, o rei do sul sairá para atacar o rei do norte. Como ele, porá em pé de guerra um numeroso exército, e as tropas inimigas lhe serão entregues. Após o aniquilamento destas tropas, inchará de orgulho. Matará dezenas de milhares, sem que com isso se torne mais forte.

O rei do norte, convocará novamente um exército mais numeroso ainda que o primeiro e, alguns anos depois, avançará no meio de extensas tropas e de uma grande comitiva.
Por esta ocasião, muitos povos se levantarão contra o rei do sul e homens impetuosos hão-de surgir dentre o teu povo, para cumprir a visão, mas serão mal sucedidos.

Virá então o rei do norte, levantará trincheiras e apoderar-se-á de uma cidade bem fortificada. Nem os exércitos do rei do sul, nem mesmo as suas hostes de escol, o deterão; não haverá força que lhe resista. O invasor procederá conforme quiser, sem que alguém lhe possa fazer frente (...) À frente de um grande exército contra o rei do sul, dará novo impulso às suas forças e coragem.

Por sua vez o rei do sul envolver-se-á na luta com um exército numeroso e muito forte, mas não poderá resistir em virtude das conjuras maquinadas contra ele. Os que com ele comem finas iguarias o hão-de arruinar, debandará o exército e muitos homens cairão feridos de morte (…)

Então chegará o termo da sua vida e ninguém lhe prestará auxílio”.



José Maria Huambo

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Não Existem Governos Tranquilos Nem Paises Acabados

«O mais importante é resolver os problemas do Povo»
AGOSTINHO NETO

«Todo o progresso é precário e a solução de um problema coloca-nos diante de outro problema»
MARTIN LUTHER KING

Primo, espero que esteja tudo bem contigo.

Recebi o teu e-mail e agradeço as amáveis palavras de encorajamento. Sabe sempre bem sentirmos o reconfortante apoio dos que nos são queridos.

Sabes, não é fácil exercitar a cidadania e questionar o rumo do País, numa altura em que, entre nós, ganhou força a ideia de que a insistência nas críticas ao esforçado governo de Eduardo dos Santos não passa de uma velha paranóia de alguns «reaccionários» hostis ao «governo legitimamente eleito» e de algumas forças ocultas que teimam em não querer que Angola avance.

Ou seja, primo, os advogados e adeptos deste regime teimam em fazer triunfar a ideia de que Angola está definitivamente bem. O país cresceu mais rápido do que os outros alguma vez cresceram e não há nenhum problema dos angolanos que o nosso esforçadíssimo governo não esteja a resolver. Por isso, não precisam da oposição nem merecerem críticas. Antes pelo contrário, os angolanos deviam agradecer aos deuses por terem sido abençoados com um líder tão sábio e clarividente e aplaudir sempre as opções deste governo que muito fez e está a fazer pelo seu amado povo.

Pura ilusão, primo, pura fantasia! Não existem países acabados, nem povos completamente felizes, nem governos impecáveis e eternamente adorados.
Um país sério e organizado é, sempre, um projecto inacabado e de renovação contínua. E nenhum Governo é suficientemente bom para merecer a eterna adoração dos cidadãos! Porque? Porque os povos são insaciáveis e difíceis de agradar. Nunca estão satisfeitos e felizes com o que têm. Querem, sempre, ser mais do que aquilo que já são. Ter mais do aquilo que já conseguiram. Melhorar cada vez mais a boa vida que já têm. Por isso, os seus problemas nunca serão definitivamente resolvidos.

Por exemplo: Portugal tem um sistema de saúde que, comparado com o nosso, é excelente. Mas mesmo assim, os portugueses estão sempre a exigir melhores condições de saúde e de acesso aos mais avançados meios capazes de prolongar as suas vidas. A França tem um dos melhores sistemas de segurança social do mundo. O Estado protege os franceses no desemprego, na doença, na maternidade, na infância, na invalidez, na viuvez e na velhice. Mas mesmo assim, os franceses exigem melhorias dos subsídios sociais e o Governo tem sido obrigado a reformar e a melhorar o sistema. Os Estados Unidos têm um dos melhores e mais importantes sistemas de ensino do mundo. Para aumentarem os seus conhecimentos, os americanos dispõem das mais modernas e poderosas ferramentas de formação, informação e comunicação. Mas mesmo assim, têm sido inúmeros e muito acesos os debates que exigem melhorias no sistema de ensino vigente e Barack Obama prometeu mais e melhor educação para os americanos.

Se os povos dos países desenvolvidos continuam a exigir dos seus eficazes e excelentes governos mais e melhores condições, porque haveria os angolanos de se resignarem perante os seus imensos problemas não resolvidos?

Primo, os angolanos não são um povo especial. Eles partilham das mesmas aspirações, das mesmas necessidades e dos mesmos problemas de todos os povos do mundo. E todos os seres humanos esperam que os seus governos sejam capazes de satisfazerem os desejos de terem boa vida (Economia e Finanças), viverem mais tempo (Saúde e Nutrição), aumentarem os seus conhecimentos (Educação e Cultura), participarem activamente na vida das sua comunidade (Democracia) e usufruir da segurança das suas pessoas e dos seus bens (Paz, Ordem e Justiça). A contínua e empenhada satisfação destas necessidades é que torna um país próspero e faz um bom Governo.

É por tudo isso, primo, que nenhum Governo de Angola será suficientemente bom para merecer a eterna adoração dos cidadãos e Angola será sempre um projecto inacabado e de renovação contínua. Isto porque, a semelhança dos outros povos do mundo, os angolanos sempre vão querer ser mais do que aquilo que já são. Ter mais do aquilo que já conseguiram. Melhorar cada vez mais a boa vida que já têm.

Lembras-te, primo, o que os jovens dos anos 80 faziam para conseguir um walkman? Naquele tempo ter um aparelho desses era o auge, porque significava ter estatuto, admiração e damas. Pois é, tudo isso passou! Porque nos anos 90 os jovens já queriam exibir-se com um minidisc da Sony. Como tudo na vida, essa febre também passou. Porque nos primeiros anos da década de 2000 os jovens passaram a suspirar por um bom leitor MP3. Agora, já exigem iphone e ipod.

Nos anos 80 o auge da felicidade familiar era ter um desses televisores a preto e branco. Quem tivesse 1 desses televisores era idolatrado pela vizinhança. Era o rei da rua e do bairro. Depois, as pessoas evoluíram. O televisor dos seus sonhos tinha de ser a cores. Hoje em dia, para seres idolatrado pela vizinhança e reinares na rua e no bairro precisas de ter em casa um plasma gigante.

Nos anos 80 os quadros e dirigentes de Angola viviam contentes por terem na garagem um carro LADA (Lá Andam Dirigentes Analfabetos). Logo a seguir, ter um LADA já não condizia com o nobre estatuto. Foi assim que passaram a andar num NIVA (Não Importa Vamos Alfabetizá-los). Depois, evoluíram e passaram a circular orgulhosamente num VW carocha importado do Brasil, (os famosos AZ e AX, lembras-te?). Logo a seguir, um bom dirigente tinha de ter um LAND ROVER SANTANA. Depois, vieram os VW PASSAT, os AUDI´s e os VOLVO´s executivos. Agora, exigem RANGE ROVER «TUBARÃO», PORSCHE CAYENNE, VW TOUAREG, BMW X6 e outras luxuosas máquinas. E, primo, enquanto Angola existir, os quadros e dirigentes sempre vão querer ser mais do que aquilo que já são. Ter mais do aquilo que já conseguiram. Melhorar cada vez mais a boa vida que já têm.

Primo, até as amantes dos chefes evoluíram e estão mais exigentes. No inicio, só exigiam AMOR, CARINHO e COMPREENSÃO. Em finais dos anos 80 já queriam um TOYOTA STARLET. Nos anos 90 um bom amante era aquele que podia oferecer-lhes um TOYOTA RAV4. Depois, já exigiam um TOYOTA PRADO. Agora, querem grandes jipes e brutas casas.

Nos anos 80, a maior parte dos angolanos sonhava acabar a 12ª classe e ser técnico médio! Era o auge da época do socialismo, com direito a cartão de compras na loja dos dirigentes! Depois, ser técnico médio já não era assim tão especial e todos passaram a fazer tudo por tudo para entrar na faculdade e obter a licenciatura! Mas agora, ter curso superior, também, já não é nada. Porque qualquer um pode andar na faculdade. Lembras-te daqueles dirigentes quase analfabetos? Pois é, muitos, hoje, são licenciados. Agora, a meta mais almejada pelos angolanos é fazer um mestrado e um doutoramento.

Os angolanos nunca deixarão de lamentar a carência de casas e a velha questão não ficará resolvida com a construção de 1 milhão de casas. A falta de habitação será um problema sempre interminável e o parque habitacional terá de ser continuamente renovado. Porque os angolanos sempre vão querer ter mais do aquilo que já conseguiram. Melhorar cada vez mais a boa vida que já têm. Assim, os que não têm onde morar sonham em ter uma casa. Os que têm casa querem ter um apartamento num bom condomínio. Os que têm apartamento vão lutar para conseguirem uma vivenda com piscina. Os que têm vivendas querem mansões. Esses acham que as suas mansões estão a ficar pequenas e sonham viver em palacetes. Os que vivem em palacetes não estão felizes porque a casa dos seus sonhos é um grande castelo.

É, primo, assim é o ser humano! Sempre insaciável, nunca satisfeito!

Cumprimentos à família.
Aquele fraternal abraço.

José Maria Huambo

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A Paz e o Progresso de Angola Dependem De Uma Constituição Reconciliadora

“Como é que nos vamos entender? Como é que vamos acabar com essa desigualdade? E, sobretudo, como é que vamos acabar com essa ferida que nós aprofundamos [e] que não acaba com um abraço?”
DANIEL CHIPENDA

“Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova”.
MAHATMA GANDHI


Mais do que em qualquer outra época da nossa conturbada história, o tempo que corre oferece-nos a suprema oportunidade de lançarmos os alicerces de um projecto político e socioeconómico que, finalmente, nos torne capazes de construir um país e consolidar um Estado.

Mas apesar desta excelente ocasião, continuamos a persistir nos erros que originaram a devastação e estagnação da nossa amada Pátria. Teimamos em manter intactos os vícios que exploram e manipulam as nossas naturais diferenças e obstam a convivência fraterna entre todos os angolanos.

O musculado triunfo do tristemente célebre projecto constitucional do grupo de Eduardo dos Santos é apenas mais um desses erros e vícios, sucessivamente, repetidos ao longo da nossa conturbada história. Assim, ao impingirem uma Lei Fundamental absolutamente controversa e longamente contestada, os arquitectos da vergonhosa Constituição deitaram, levianamente, por terra a grande oportunidade de «inventarmos», juntos, um modelo de Estado que vise assegurar a coesão de um mosaico de raças, línguas, etnias, regiões e culturas tão heterogéneas, para que ninguém se sinta submetido, excluído ou humilhado, devendo caminhar a reboque de grupos ou povos dominantes.

Assim, em nome de uma autêntica e eterna reconciliação dos angolanos e para que todo o longo e controverso processo culminado no dia 4 de Abril de 2002 não se transforme num empreendimento inglório e num insensato desperdício de vidas e energias, precisamos de um projecto constitucional que parta das seguintes premissas:

Primeira Premissa: Somos um país plurirracial e multinacional ou multiétnico. Assim, por mais que a propaganda insista no «um só povo e uma só nação», o facto é que a nossa sociedade abarca uma diversidade racial, étnica, cultural, social e até religiosa. Por isso, haverá sempre entre os angolanos grandes diferenças na forma de ser, estar, pensar, sentir, agir, viver e conviver.

Por exemplo: os urbanos sempre distinguiram-se do tipo de vida, do ambiente e da mentalidade dos rurais. A fronteira entre «nós» e «eles» estará sempre enraizada nas consciências dos negros, dos mestiços e dos brancos do nosso país. A forma como um Ganguela encara a problemática da morte é muito diferente da de um Kimbundo. São dissemelhantes os conceitos de família e de riqueza entre um Ovimbundo e um Mucubal. São distintas as concepções jurídico-morais de um Cuanhama e de um Kicongo. Os rituais em torno do nascimento e do casamento são vividos de formas diferentes entre um Nhaneca e um Kioco. Os negros, mestiços e brancos nados e criados em cada uma das regiões angolanas serão sempre distintos uns dos outros. Isto porque, e como bem asseverou Ferreira Deusdado:“O indivíduo é sempre, mais ou menos, da sua província, da sua cidade, ou da sua aldeia e conserva a pronúncia, o espírito, o carácter e os hábitos adquiridos nas condições mesológicas em que se desenvolveu. Cada um de nós deve à sua terra um conjunto de traços, um tipo de organização, de aptidões especiais, de pensar, de conceber e de exprimir a beleza, um fundo tradicional de costumes e até uma linguagem especial”.

Portanto, há, entre nós, uma clara diferenciação entre os rurais e os urbanos. Uma perfeita consciência identitária em cada um dos grupos raciais e uma sólida consciência étnica em cada uma das nações angolanas. Tornam-se, assim, inevitáveis as clivagens raciais e os antagonismos etnossociais. Porque todos sabem que pertencem a um grupo (racial, étnico, político e sociocultural). Essa noção de grupo e de pertença a ele, quando relacionados com a percepção de diferenças em relação a outros grupos, podem ter uma conotação de valor positivo ou negativo. E essa noção de grupo e de pertença podem ser acompanhados de emoções, tais como amor ou ódio, gostar ou não gostar, dirigida a um grupo próprio e para outros com os quais têm certas relações

Mas fazer tábua rasa ao direito à diferença; igualizar os angolanos pela obrigatória submissão e prestação de vassalagem a grupos hegemónicos e intolerantes; construir a unidade dos filhos de Angola a partir da unicidade (racial, étnica, política e sociocultural), tem sido uma onerosa opção e uma trágica conduta sucessivamente repetidas por colonizadores, nacionalistas, descolonizadores, libertadores, defensores do «Povo angolano» e da «Angola profunda», por mediadores, observadores, pacificadores e por «especialistas» em assuntos angolanos. Infelizmente, o projecto constitucional do grupo de Eduardo dos Santos prepara-se para navegar no mesmo erro.

Segunda Premissa: A «Angola independente e africana» não existe. É uma miragem juridico-política, uma ficção geográfica e uma falência sócio-económica. Aquilo a que vulgou-se chamar «República de Angola» não passa de grandiosas ruínas do projecto arquitectado e edificado pela e para a comunidade branca da Angola colonial. Durante as três décadas da nossa pretensa independência não fomos capazes de construir um país e consolidar um Estado. Antes pelo contrário, limitamo-nos a destruir e a degradar de forma insensata tudo aquilo que os colonos ergueram: pessoas; estruturas económicas, administrativas e financeiras; cidades e vilas; estradas; pontes; etc. Não se pode, por isso, falar de «reconstrução» de um país que nunca foi edificado.

Mais. Os nativos nunca formaram uma nação unificada e homogénea como os colonizadores e estão longe de possuir uma sólida consciência nacional. Não se pode, por isso, falar de «reconciliação» de um povo que nunca esteve conciliado. O próprio colonialismo não fez brotar dos angolanos a consciência nacional, porque apesar da administração portuguesa ter congregado negros, brancos e mestiços bem como os diferentes grupos étnicos num mesmo espaço territorial, nem todos partilhavam do sentimento de pertença à nação portuguesa e nem todos os africanos usufruíam das benesses da portugalidade.

A «independência» não foi capaz de conciliar os diferentes grupos raciais, étnicos, políticos e socioculturais em torno do lindo, digno e promissor projecto anelado por todos e arquitectado pelos nacionalistas que, independentemente da sua cor da pele, etnia ou região, pretendiam fazer de Angola uma pátria livre, igualitária e próspera. Antes pelo contrário, a pretensa «independência» agudizou as diferenças étnicas e raciais, acentuou as desigualdades socioeconómicas e avivou os antagonismos etnossociais de tal forma que, tal como antes da presença colonial, continuamos inconciliados, estranhos uns aos outros e, pior, hostilizamo-nos de tal forma que Angola tornou-se num hediondo palco de uma infame «cadeia alimentar», onde as cruéis disputas entre «presas» e «predadores» superam, de longe, os melhores documentários sobre a vida selvagem produzidos pela conceituada BBC:

Os «civilizados» desprezam os «gentios». Os ditos «genuínos» hostilizam os «crioulos». Os negristas acharam que os brancos e mulatos não podiam ser angolanos. Os racistas nunca conceberam uma Angola com «pretos». Os «cafusistas» acham que os angolanos de pele clara têm primazia sobre os de pele escura. Alguns angolenses advogam que Angola é Luanda e o resto é paisagem. Outros acham que os kimbundos são os mais «evoluidos» e estão acima dos outros nativos. Os ditos «puros mangolês» hostilizam os bakongos, a quem apelidam de «zairenses». Os Cabindas não querem nada com os «angolanos». Os rurais não vêem as vantagens da angolanidade e continuam a espera da «independência». Os do Cunene acham que, enquanto angolanos, muito têm perdido. Os chamados «das províncias» acham-se marginalizados como angolanos. Os do MPLA mataram angolanos em nome de todos os angolanos. Os da UNITA chacinaram angolanos em nome da «Angola profunda». Muitos já não querem ser angolanos. Enfim, é o caos total na infame «selva angolana».

Assim, em nome de uma autêntica conciliação dos angolanos torna-se imperioso diagnosticar as verdadeiras causas do naufrágio de Angola e identificar os males que exploram e manipulam as nossas naturais diferenças e obstam a convivência fraterna entre todos os angolanos. Enfim, e parafraseando D. Manuel Vieira Pinto, urge examinar à luz da verdade a situação em que se encontra o nosso país. Examinar o que é bom para assumir e potenciar, examinar o que é mau para o abandonar e destruir.

Terceira Premissa: Cumpridos os dois primeiros passos, torna-se imprescindível que todas as forças vivas da sociedade angolana participem na definição do novo rumo de Angola e na materialização das ingentes tarefas de uma Pátria profundamente devastada e de uma sociedade tão problemática como a nossa. O país não pode continuar a ser propriedade exclusiva de alguns grupos hegemónicos e intolerantes. “Angola deverá ser a pátria benévola de todos os seus filhos e não apenas de minorias intolerantes que se comportem como donas dos destinos da nossa terra e do nosso povo”, como bem diziam, em 1960, Viriato da Cruz e Mário Pinto de Andrade num manifesto que denominaram «Segundo Apelo à Unidade».

Torna-se, assim, imperiosa a «invenção» de um modelo de Estado que vise assegurar a coesão de um mosaico de raças, línguas, etnias e culturas tão heterogéneas, para que ninguém se sinta submetido, excluído ou humilhado. Enfim, é necessário que se discuta e se repense o país que pretendemos construir. É imperioso que se arquitecte um projecto constitucional que seja capaz de unir e conciliar os angolanos, corrigir as profundas desigualdades socioeconómicas, tornar menos sensíveis e menos virulentas as inevitáveis conflitualidades e expurgar os infames fermentos da guerra.

E acredito profundamente que só uma «Constituição Reconciliadora» contribuirá para conciliar os angolanos, construir um grande país, edificar a desejável paz duradoura e evitar o germinar contínuo e insufocável de revoltas e rebeliões.

José Maria Huambo

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Esmagados Pela Democracia Futunguista

«Para que a sociedade angolana possa mudar e tenha uma Democracia efectiva é necessário que haja mais gente a lutar, não pela realização de eleições, mas pela realização da Democracia».
RAFAEL MARQUES

Caro Ferrenho Anónimo.
Respeitosas saudações.

Com o fim da campanha eleitoral e com a estrondosa consagração do «teu partido» não esperava voltar a receber mais uma das tuas famosas mensagens de intolerância política e de exaltação do monopartidarismo.

Antes de discutirmos o conteúdo da tua mensagem triunfal, vou pedir-te que deixes de escrever-me sob anonimato. Acho que não é uma atitude séria, justa, livre e transparente.

Meu caro, não posso fazer o que me exiges: render-me à tão propalada ideia de que Angola deu um grande exemplo ao mundo e admitir que as nossas eleições foram livres e transparentes. Porque? Porque o que se passou em Angola não corresponde a nada daquilo que li, estudei, vi, vivi e sei acerca de processos eleitorais Por isso e atendendo as complicadas democracias dominantes em África, acho apenas que as nossas eleições foram… aceitáveis.

Caro Ferrenho Anónimo. Não é, nem pode ser, apenas o dia do voto que determina a justeza, a transparência e a liberdade de uma eleição. É preciso considerar a globalidade do processo eleitoral. Porque um processo exemplar implica o cumprimento rigoroso e transparente da sequência de passos, acções e tarefas que vão desde o registo eleitoral à publicação dos resultados definitivos.

Assim, o acto eleitoral de 5 de Setembro e a publicação dos resultados deveriam ser um honroso e jubiloso culminar de um processo eleitoral cívico, livre, justo e transparente. Mas tal não aconteceu. Em minha opinião, só a atitude dos eleitores é que foi cívica e só os formatos das urnas é que foram transparentes. Quanto ao resto do processo… é o que todo mundo viu.

Pedes para pararmos de choramingar e para nos convencermos de que, com esta esmagadora vitória do «teu partido», a democracia veio para ficar. A minha resposta não seria tão certeira como a de Rafael Marques: «Houve eleições sem ter havido um verdadeiro processo democrático (…) O problema em África é que as eleições acabam por ser utilizadas como substituto da democracia. As eleições vêm conferir legitimidade democrática a uma situação na qual os pressupostos democráticos continuam a ser diariamente violados (…) Não podemos continuar a confundir eleições com democracia».

Caro ferrenho Anónimo. Não podemos aceitar uma democracia onde os ditos democratas não se sintam obrigados a cumprir as regras do processo democrático e a respeitar os valores fundamentais de um Estado de direito. E não basta uma pessoa ser do MPLA, falar bem português, viver em Luanda e vestir fato e gravata para ser automaticamente considerada democrata. Isto porque, os democratas são se presumem. Comprovam-se pela prática reiterada dos grandes valores da Democracia.

Por exemplo: o debate eleitoral é um dos requisitos necessários para que o processo eleitoral seja considerado justo, livre e transparente. Durante a campanha eleitoral, não houve nenhum debate (televisivo ou radiofónico) entre os presidentes dos principais partidos. Assim, a CNE, o Governo, a Televisão Pública e a Rádio Nacional não podem vir dizer que estiveram ao serviço da Democracia quando não foram capazes de tornar possível um debate entre Samakuva e Eduardo dos Santos. O divino e intocável Presidente do MPLA não pode vir gabar-se de ser um democrata, absolutamente, empenhado na democratização do País quando se recusa a debater ideias com os «desprezíveis mortais» que lideram os outros partidos que concorreram as eleições.

Portanto, estamos muito longe da verdadeira Democracia. Quando é, então, que poderemos ter uma Democracia a sério? Certamente acompanhas os meus artigos e, por isso, já deves saber a minha opinião sobre o processo democrático em curso. Para mim, só com o fim do futunguismo e com o surgimento de um MPLA-Renovado é que Angola poderá caminhar rumo a edificação de um verdadeiro Estado de direito democrático alicerçado na soberania popular, na dignidade da pessoa humana e no pluralismo.

Assim, enquanto os futunguistas continuarem com o seu longo e doloroso reinado e enquanto não emergir na cena política de Angola um MPLA-Renovado capaz de promover a democratização e reconciliação do MPLA-Histórico e dar outro rumo ao processo de democratização do nosso promissor País, teremos de nos contentar com essa democracia dos futunguistas que será sempre insonsa, morna, confusa, translúcida e titubeante.

Dizes que nós que estamos sempre a falar mal do «teu partido» já devíamos aprender que não se brinca com o «grande MPLA». Obrigado pela advertência. Mas não estás a dar nenhuma novidade. É que os poucos partidos que se atrevem a fazer oposição política e os cidadãos e as instituições que ousam fazer oposição cívica estão conscientes da luta desigual que travam contra o poderoso futunguismo. E o conturbado processo eleitoral serviu apenas para provar que continuamos sem ambiente, sem meios e sem condições para provocar a queda do futunguismo e promover a mudança que desejamos.

Porque? Porque os futunguistas têm sido muito bons nas disputas maquiavélicas pela manutenção do poder. E, depois de esmagarem Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, Gentil Viana, Matias Miguéis, Daniel Chipenda, Joaquim Pinto de Andrade, Nito Alves, Mostro Imortal, Zé Van Dunem, Sita valles, a FNLA, a poderosa UNITA de Savimbi, as FLEC´s e o antigo PADEPA sentem-se, agora, sem adversários à altura e no auge da sua força e do seu poder. O pior de tudo é que a dependência do petróleo deu-lhes uma ascendência sobre a política externa dos Estados Unidos, da China, da França, da Inglaterra, da Rússia, do Japão, de Portugal e doutros antigos defensores acérrimos da Democracia e dos Direitos Humanos. Por isso, não há no mundo de hoje instituição divina ou humana capaz de travá-los, contrariá-los, questioná-los ou censurá-los.

Dizes que fomos esmagados e que esta estrondosa vitória do «teu partido» serve para mostrar de forma inquestionável que «o MPLA é o povo e o Povo é o MPLA». Acredito que um dia a grande maioria dos adeptos e militantes do «teu partido» há-de perceber o que muitos do MPLA já perceberam: esta vitória representa a consagração absoluta de um poderoso grupo de maus governantes astutamente mascarados de democratas e que sobrevive a custa da poderosa imagem do MPLA.

Sabes, isto de termos sido esmagados eleitoralmente e de forma humilhante faz parte de um antigo sonho dos futunguistas que desde sempre pretenderam dominar a sociedade angolana de forma hegemónica e intolerante, por se acharem os mais «civilizados», os mais «capazes», os mais «iluminados» e os mais «evoluídos» dos angolanos.

No blogue «morrodamaianga.blogspot.com», do grande jornalista Wilson Dadá, está publicada a seguinte frase que um conhecido futunguista proferiu muito antes do dia 5 de Setembro: «Nós não vamos ganhar, nós vamos esmagar os adversários».

É verdade, caro ferrenho. Nós fomos brutalmente esmagados pelos futunguistas. Sabes porquê? Porque durante a viagem eleitoral os futunguistas, ao volante da sua poderosa e gigantesca máquina eleitoral, teimaram em circular em contramão, insistiram em viajar em sentido contrário, lançando o pânico e a confusão entre os utentes das vias eleitorais e colidindo violentamente contra os principais valores da Democracia e do Estado de direito. Essa prepotente aventura provocou um brutal acidente eleitoral em cadeia que fez inúmeras vítimas e causou imensos danos ao processo democrático em curso.

Bem, por hoje é tudo, caro ferrenho anónimo. Despeço-me com uma frase pronunciada pelo controverso ditador português António Oliveira Salazar depois da mega fraude eleitoral de 1958 e que retrata o estado de espírito dos apoiantes do futunguismo depois de terem esmagado os opositores (nacionais e internacionais) e terem feito triunfar a obscura democracia futunguista:
«Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma».


José Maria Huambo/ Semanário Folha 8








sábado, 30 de agosto de 2008

Dou o Meu Voto à FpD!

Antes de descrever as razões que me levam a escolher a FpD (Frente para a Democracia), precisamos de ter em conta alguns aspectos importantes. É que nesta campanha eleitoral muitos partidos estão a fazer grandes promessas como se fossem formar governo em caso de vitória eleitoral. A grande verdade que todos precisam de ter bem presente é esta:

No dia 5 de Setembro os angolanos não irão às urnas para escolher um novo Governo. Se a UNITA ganhar as eleições não vai formar governo. Porquê? Porque a cultura política e a tradição constitucional vigentes desde 1975 impuseram, entre nós, o sistema presidencialista. Por isso, em Angola, o Presidente do Partido que ganha as eleições legislativas não forma governo. Quem assume o governo do País é o vencedor das eleições presidenciais. Como as eleições presidenciais só serão em 2009, até lá, o governo do País continuará sob a responsabilidade do Presidente da República em exercício desde 1979. Assim, mesmo que o MPLA perca as eleições legislativas, os futunguistas irão continuar a governar o País. Porquê? Porque José Eduardo dos Santos, o seu candidato natural, continua a ser o Chefe do Governo. Quer isto dizer que se os principais partidos da oposição (UNITA, FNLA, FpD, etc.) quiserem governar o País terão de apostar em candidatos que consigam derrotar Eduardo dos Santos nas eleições presidenciais.

Os angolanos irão as urnas para definirem uma nova composição dos 223 lugares da Assembleia Nacional. Qual é, então, a importância destas eleições legislativas? Estas eleições são importantes porque o Parlamento é o centro da Democracia. A Assembleia Nacional é a assembleia representativa de todos os angolanos e exprime a vontade soberana do povo angolano. Na Angola tradicional era nos «jangos» que os membros das comunidades se reuniam e debatiam com os «sobas» os seus problemas e tomavam as decisões susceptíveis de influenciarem as suas vidas.

A Assembleia Nacional é o «Jango» de todos os angolanos. É no «Jango» que os governantes e os cidadãos devem reunir-se para debater os problemas do País. É no «Jango» que os governantes devem informar aos cidadãos sobre as decisões que tomam na promoção da dignidade do angolano e na defesa dos interesses da Pátria. É no «Jango» que os governantes devem dar a conhecer aos cidadãos como é que estão a governar o País, a gerir o dinheiro público, etc. E tudo o que os governantes fizerem sem consultar os cidadãos reunidos no «Jango» é contra a Lei e contra a Democracia. Porquê? Porque não exprime a vontade soberana e o interesse legítimo dos angolanos.

Diz a nossa Constituição que a Assembleia Nacional é a assembleia representativa de todos os angolanos. O que significa «assembleia representativa»? A representatividade política resulta dos seguintes factos: Nas comunidades tradicionais, os «jangos» tinham espaço suficiente para acolherem todos os membros com capacidade de intervirem nos assuntos em discussão. Acontece que nem todos os angolanos têm maturidade para debaterem e procurarem soluções para os problemas de Angola. E os milhões de angolanos com capacidade de intervirem nos assuntos do País não podem todos mudar-se para Luanda nem cabem no edifício da Assembleia Nacional.

Portanto, nem todos são capazes de debater os problemas do País e não é possível os milhões de angolanos ocuparem os 223 lugares do «Jango». É por isso que dia 5 de Setembro vamos escolher os Deputados à Assembleia Nacional. A palavra deputado vem do verbo deputar que quer dizer delegar, encarregar alguém de uma missão. Assim, vamos escolher aqueles que julgamos capazes de ocupar o nosso lugar no «Jango» e de nos substituir no exercício da nossa soberania. Vamos eleger aqueles que vão intervir em nosso nome nos debates das decisões que moldam as nossas vidas e nas discussões dos problemas do País.

Nestas eleições o nosso voto representará a resposta que cada um de nós dará às propostas dos partidos e à credibilidade dos dirigentes que fazem as promessas eleitorais. Assim, são 3 as principais formas de expressão da nossa escolha: o voto leal, o voto de censura e o voto estratégico.

Com o voto leal os eleitores limitam-se a escolher os representantes do seu partido preferido. Pouco lhes importa se os seus escolhidos são bons ou maus dirigentes políticos. Se são políticos competentes ou incompetentes. Se são honestos ou corruptos. Os eleitores escolhem-nos, simplesmente, por serem os candidatos do seu partido do coração.

Com o voto de censura os eleitores não voltam a escolher os seus candidatos do anterior mandato. Ou porque não gostam das suas novas propostas políticas ou porque durante o mandato que terminou não souberam representar condignamente os interesses dos seus eleitores.

Com o voto estratégico os eleitores sentem-se forçados a votar não nos candidatos dos seus partidos de preferência mas noutros candidatos com os quais se sentem identificados ou noutros candidatos com capacidade de derrotarem os candidatos dos partidos que não gostam. O voto estratégico é muito frequente nas segundas voltas das eleições presidenciais.

Depois de vermos estes aspectos importantes que gravitam em torno das eleições legislativas, estou pronto para justificar o porquê do meu voto ir para a FpD. O meu voto na FpD é, ao mesmo tempo, um voto de censura, de lealdade e estratégico.

1- O meu voto na FpD é um voto de censura ao MPLA e à UNITA. Porque? Porque, para mim, ambas as organizações são as grandes responsáveis pela vergonhosa degradação do angolano e pela imerecida estagnação do nosso promissor Pais e ambos os partidos traíram a confiança dos angolanos e representam um doloroso passado que deve estar sempre bem presente na definição do grande futuro que desejamos construir.

O MPLA é, de longe, a mais marcante e a mais poderosa organização política de Angola. Mas, infelizmente, sobrevive absolutamente refém dos obscuros interesses dos futunguistas. É por causa da desastrosa gestão governativa dos futunguistas que os angolanos já não olham para o MPLA como antes olhavam. Assim, vou votar na FpD porque os futunguistas já deram inúmeras provas da sua incapacidade de representarem os nossos legítimos interesses. Angola está a atravessar uma nova era, que exige novos homens, nova mentalidade, nova cultura política, novos projectos, novos ideais e novos rumos. Parafraseando Agostinho Neto, precisamos de dirigentes “que estejam sempre ao lado do povo, no seu sofrimento e nos seus sacrifícios”. Por isso, não vou escolher para me representarem no «Jango» pessoas que apenas se dedicam a defender os seus interesses pessoais, sempre fizeram tábua rasa aos nossos direitos humanos e desenvolveram uma cultura de desprezo, empobrecimento e inferiorização dos angolanos.

A UNITA já representou a grande esperança de inúmeros filhos de Angola. Mas, infelizmente, durante longos e dolorosos anos esteve refém dos obscuros interesses de Jonas Savimbi. E é por causa do seu tristemente célebre belicismo que os angolanos já não olham para a UNITA como antes olhavam. Assim, vou votar na FpD porque a UNITA, com a sua famigerada e temível guerrilha, muito contribuiu para a actual atmosfera de desgovernação e estagnação do País. E, por força dos acordos de Paz, passou a ser parte integrante do mesmo sistema que sempre combateu. Por isso, não tem ambiente, nem condições, nem argumentos para confrontar, politicamente, a danosa e desastrosa gestão governativa dos futunguistas e opor-se, democraticamente, ao partido no poder e ao vergonhoso clima de corrupção e incompetência que reina entre nós. Voto na FpD porque não quero voltar a escolher um partido que no antigo parlamento, muitas vezes, alinhou com as obscuras opções políticas e governativas dos futunguistas.

2- O meu voto na FpD é um voto de lealdade. Não sou militante de nenhum partido. Por isso, não estou sujeito a disciplina de voto que me obriga a apenas votar no meu partido. Isto significa que estou livre para escolher o partido cujas propostas políticas estão de acordo com a minha postura cívica e com os valores que defendo. Assim, escolhi votar na FpD por ser o partido que está mais próximo dos ideais que defendo e da minha forma de pensar o País, de avaliar os governantes, de exercer a cidadania e de viver a angolanidade. Decidi escolher os dirigentes da FpD para ocuparem o meu lugar no «Jango» porque já deram provas sólidas de que saberão representar-me condignamente nos debates das decisões que moldam as nossas vidas e nas discussões dos problemas do País.

3- O meu voto na FpD é um voto estratégico. Escolhi votar na FpD para ajudar a reforçar a presença dos seus dirigentes no nosso «Jango». Assim, quanto maior for o número de deputados da FpD na Assembleia Nacional melhor representação teremos nessa luta desigual contra o poderoso futunguismo. Como já escrevi num dos artigos, os futunguistas não podem ocupar a maioria das cadeiras do «Jango». Porquê? Porque, à custa do longo prestígio e da poderosa influência do MPLA-Histórico, os futunguistas há muito que se preparam para obter, nas próximas eleições e a qualquer preço, uma esmagadora vitória que os permita conseguir a maioria absoluta dos 223 assentos da Assembleia Nacional. Isso seria mau para o processo democrático em curso. Porque controlando o Parlamento e mantendo o seu líder na Presidência da República, os futunguistas continuarão a ser os senhores absolutos da política nacional e continuaremos a ser forçados a submeter-nos às suas famosas atitudes de prepotência e aos seus célebres desmandos.

José Maria Huambo

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Nossa Dignidade Está Acima De Tudo e De Todos!

«A longa luta de libertação em Angola tinha um objectivo maior:
destruir sistemas e não pessoas. Criar uma obra e não pintar apenas uma nova fachada. Efectuar reformas profundas nas mentalidades e estruturas do país e não embrenhar-se em modificações superficiais.
Vejamos: Ainda hoje persiste em Angola a exploração do homem pelo homem, a espoliação das matérias-primas e o recrutamento de mão-de-obra barata. Ainda não foi destruído o sistema da exploração com base na lei do mais forte»
.
LUIS BANDEIRA, Jornal «A Província de Angola», 1975

Angola dificilmente avançará como todos nós desejamos, enquanto a minha geração não se esforçar por acabar de vez com o fanatismo político e com as velhas e trágicas guerrilhas partidárias. Os nossos mais velhos perderam muito tempo em discutir partidos. E por causa deste fútil debate, arruinaram o País e desgraçaram os angolanos. Estas violentas e dolorosas discussões deviam ter acabado em Abril de 2002. Por isso, custa-me muito ver que o pessoal da minha geração continua a alimentar a perigosa fantasia de desejar que todos os angolanos admirem apenas os seus ídolos políticos, militem apenas nos partidos que amam e comunguem apenas das suas formas de pensar o País e de viver a angolanidade.

Para o bem de Angola e das gerações vindouras, a minha geração tem de se consciencializar de uma vez por todas que os partidos políticos não são os assuntos mais importantes de Angola. Eles não são e nunca foram a razão principal da Independência e do surgimento da República de Angola.

Qual é, então, a razão de ser do Estado angolano? Qual é o verdadeiro sentido da Independência? Porquê que os angolanos decidiram contestar e combater o colonialismo português? Porquê é que muitos angolanos abdicaram da vida estável que usufruíam na Angola colonial e decidiram aderir à luta anti-colonial? Porque é que muitas famílias entregaram aos movimentos de libertação os seus melhores filhos? Porque é que muitos jovens brilhantes e com um futuro promissor preferiram entregar-se de corpo e alma aos ideais da independência?

Só existe uma resposta para estas perguntas: Por causa da dignidade da pessoa humana. A DIGNIDADE DO ANGOLANO é, por isso e de longe, o assunto mais importante de Angola. Ela está acima de tudo e de todos.

No dia 17 de Janeiro de 1975, 2 dias depois da assinatura do Acordo de Alvor, Agostinho Neto proferiu as seguintes palavras que resumem o grande objectivo da independência: «O que precisamos de fazer é que o homem angolano seja de facto um homem e não um sub-homem, que seja um homem que ande de cabeça levantada e não de cabeça baixa».

Portanto, a luta contra o colonialismo português e a proclamação independência aconteceram por uma única razão: A promoção e defesa da dignidade do angolano. O Estado angolano, os partidos políticos e outras instituições existem apenas para cumprir um objectivo: fazer com que o angolano deixe de ser uma pessoa explorada, oprimida, desvalorizada e condenada a sobreviver na indigência e passe a ser uma pessoa livre, valorizada, respeitada, educada, instruída e capaz de viver uma vida longa e saudável.

Acontece que os indivíduos e os grupos (raciais, étnicos, políticos, económicos, religiosos, etc.) que compõem uma sociedade são incapazes de alcançarem sozinhos a defesa da sua dignidade e a promoção dos seus direitos. Por isso, precisam de uma entidade maior, mais forte e mais organizada para proteger e zelar pelos seus interesses. É por esta razão que as sociedades modernas confiaram esta importante tarefa ao Estado. Assim, todos nós, (nobres ou humildes; matumbos ou civilizados; genuínos ou crioulos; brancos, negros ou mulatos; do Norte ou do Sul; da UNITA ou do MPLA; doutor ou analfabeto; católico ou protestante), precisamos do Estado para sairmos da miséria e termos boa vida, para vivermos neste mundo o mais tempo possível, para aumentarmos os nossos conhecimentos e para garantirmos a nossa segurança e a protecção dos nossos bens.

O ESTADO é, por isso, o segundo assunto mais importante de Angola. Porquê? Porque ele é a super estrutura responsável pela promoção da dignidade da pessoa humana. Aliás, o artigo 2º da nossa Constituição diz que o Estado angolano existe para promover a dignidade da pessoa humana e respeitar os direitos fundamentais dos angolanos.

Mas a promoção da nossa dignidade não pode ser confiada a um estado qualquer. As dolorosas lições da história provaram à humanidade que a dignidade da pessoa humana não é possível com um Estado déspota, autoritário ou totalitário. A nossa sagrada dignidade só pode ser promovida e respeitada por um Estado democrático de direito.

O respeito pela dignidade da pessoa humana impõe ao Estado democrático de direito 2 tipos de atitudes: a primeira é uma atitude passiva. Isto é, o Estado é obrigado a não tomar atitudes que violem os direitos fundamentais dos cidadãos e ofendam os valores que dignificam as pessoas. A segunda atitude é uma atitude activa. Isto é, o Estado é obrigado a canalizar, de forma eficiente, laboriosa e disciplinada, todos os recursos, todos os investimentos e todas as potencialidades do País na criação de condições de vida digna a todos os seus cidadãos. Assim, constitui tarefa fundamental do Estado angolano a criação de condições que contribuam para que os angolanos possam ter boa vida (Economia e Finanças), viver mais tempo (Saúde e Nutrição), aumentar os seus conhecimentos (Educação e Cultura), participar activamente na vida da sua comunidade (Democracia) e usufruir da segurança das suas pessoas e dos seus bens (Paz, Ordem e Justiça).

Mas o Estado não é um edifício luxuoso e monumental que podemos encontrar e admirar na baixa de Luanda. O Estado também não é um desses super-homens que podemos tocar e venerar. O Estado é uma entidade abstracta que só ganha vida e forma através de actos e comportamentos de pessoas concretas. O Estado democrático de direito é um conceito abstracto que só é realizável por pessoas que amam a Democracia e respeitam a dignidade humana. Portanto, são as pessoas concretas que fazem o Estado. As boas pessoas fazem um grande Estado e as pessoas más fazem um mau Estado.

Mas esta nobre e honrosa missão de dar a cara pelo Estado na sempre difícil tarefa de promover a dignidade da pessoa humana e respeitar os direitos fundamentais dos angolanos não pode caber a qualquer um de nós. É uma tarefa reservada aos mais aptos, mais corajosos e mais talentosos. Só que há milhões de angolanos com vontade e capacidade de representar o Estado. E no meio de tanta gente, torna-se complicado procurar, encontrar e eleger os melhores. É por isso que as sociedades modernas precisam dos partidos políticos. Por exemplo, os americanos precisaram da ajuda do Partido Democrata para descobrirem, admirarem e escolherem Barack Obama.

OS PARTIDOS POLÍTICOS constituem, por isso, o terceiro assunto mais importante de Angola. Porquê? Porque são eles que vão tornar possível a promoção da dignidade do angolano. Como? Através do controlo do Estado. É, assim, função dos Partidos descobrir, atrair, seleccionar e apresentar aos cidadãos e aos seus adeptos e militantes as pessoas mais capazes e mais bem preparadas para representarem o Estado. E só através dos Partidos é que os mais aptos e os mais capazes conseguem ter um acesso legitimado, disciplinado e organizado aos cargos públicos e aos órgãos do Estado.

Pretendemos dizer, com tudo isso, que são os dirigentes políticos que dão vida ao Estado. São eles que têm a nobre e honrosa missão de dar a cara pelo Estado na defesa e promoção da dignidade dos angolanos. É por tudo isso que só podem merecer a nossa confiança política, o nosso respeito e a nossa profunda admiração os partidos e os dirigentes que usarem o poder político e o controlo do Estado para valorizarem e dignificarem o angolano, para defenderem os interesses da comunidade que governam e para canalizarem todos os recursos e todas as potencialidades do País na criação de condições que contribuam para o bem-estar físico e espiritual dos angolanos.

Portanto, existe uma hierarquia de assuntos que devem reinar entre nós: Em 1º lugar, acima de tudo e de todos, está a DIGNIDADE DO ANGOLANO. Em 2º lugar está o ESTADO e em 3º e último lugar estão os PARTIDOS POLÍTICOS.

E a minha geração, diante das inevitáveis e sempre acesas discussões partidárias, precisa de colocar sempre as seguintes questões: Porquê é que a independência não tem sido aquilo que todos nós esperávamos? Porquê é que tivemos um dos mais longos e mortíferos conflitos armados? Porquê é que os angolanos estagnaram como seres humanos e continuam a sobreviver na indigência?

Porque houve sempre uma permanente e sistemática inversão da hierarquia dos assuntos mais importantes da nossa existência como País e como Nação. Assim, as questões da DIGNIDADE DO ANGOLANO e do ESTADO foram menosprezadas e deixaram de ter valor. E há 33 anos que as discussões sobre os PARTIDOS dominam e condicionam a nossa breve passagem por este mundo.

MPLA e UNITA mantiveram uma longa, acesa e virulenta discussão em torno da questão de saber quem é o mais importante e o mais capaz para governar Angola independente. Os do MPLA pretenderam deter o poder político e dominar a sociedade angolana por se acharem os mais «civilizados», o mais «capazes» e os mais «evoluídos» dos angolanos. Os da UNITA pretenderam deter o poder político e dominar a sociedade angolana por se acharem os mais «genuínos» dos angolanos, as verdadeiras vítimas do colonialismo português e «legítimos» representantes da maioria.

E durante 33 anos o nosso promissor Pais ficou dependente desta trágica discussão e todos nós acabamos por envolver-nos neste inglório debate. Assim, a filiação política, a crença partidária e os laços ideológicos passaram a definir o angolano e a influenciar a convivência social. Por causa disso, todos aqueles que não eram do nosso partido de eleição perdiam a sagrada condição de seres humanos, de compatriotas, conterrâneos, familiares, amigos ou vizinhos e ganhavam uma vil e desprezível identidade, passando a serem pessoas a desprezar e a abater.

A longa e virulenta discussão entre os fervorosos partidários do MPLA e da UNITA fez com que até hoje não tenhamos sido capazes de construir um verdadeiro ESTADO democrático de direito capaz de unir, conciliar, valorizar e dignificar os angolanos.

E como nunca tivemos um verdadeiro Estado, a promoção da DIGNIDADE DO ANGOLANO nunca existiu. Por isso, o angolano continua a ser uma pessoa explorada, oprimida, desvalorizada e condenada a sobreviver na indigência e está muito longe de ser uma pessoa livre, valorizada, respeitada, educada, instruída e capaz de viver uma vida longa e saudável.

Por causa de tudo isso, a minha geração não pode ceder à tentação de relaxar e cruzar os braços nesta fase que se diz de paz definitiva, de progresso e de democratização. Temos uma importantíssima missão que pode influenciar o novo rumo de Angola e beneficiar as gerações vindouras. Qual é a missão? Acabar de vez com as velhas guerrilhas partidárias e procurar recolocar a hierarquia natural dos assuntos mais importantes de Angola: A DIGNIDADE DO ANGOLANO. O ESTADO. o mpla e a unita.


José Maria Huambo
In Semanário Folha8

Democracia A Sério, Só Com Um MPLA-Renovado

«Ainda se pode salvar a situação, mas é preciso homens honestos e decididos no comando. Acabar com os apadrinhamentos, com os incapazes e os ladrões (...)
Como qualquer organismo, um movimento vive de substituição do velho pelo novo, pela renovação constante das células. O curioso é que todos os partidos de esquerda aceitam este princípio dialéctico, passam a vida a proferi-lo. No entanto, nunca o aplicam a si próprios e quanto mais velho é o indivíduo melhor dirigente será. Os velhos nunca largam o poder, só à força. Ora, é preciso sempre sangue novo, uma geração que se substitua à precedente, um revigorante vindo dos quadros. Só assim se pode recuperar o tempo perdido
.
PEPETELA, A Geração da Utopia

Os que andam saturados e cansados do longo e doloroso reinado do futunguismo liderado por José Eduardo dos Santos e que intervirão activamente no processo eleitoral que culminará com a votação do dia 5 de Setembro precisam ter em conta o seguinte:

1- Quem ganhar as eleições de 5 de Setembro não vai governar o País. Porque, apesar da ratoeira constitucional promovida pelos futunguistas, o nosso sistema de governo não é semi-presidencial como o sistema português. Nesse sistema, forma governo o partido que conseguir a maioria dos assentos do parlamento.

Por tradição e por cultura políticas, o nosso sistema é presidencialista. Assim, em Angola, é o Chefe do Estado quem conduz a política geral do País. É ele quem preside o Conselho de Ministros, escolhe o Primeiro-Ministro e exonera os Ministros, os Vice-Ministros e os Secretários de Estado. Mas o pormenor que torna claramente o nosso sistema presidencialista é este: No sistema semi-presidencial, a continuidade do Governo não depende da eleição do novo Chefe de Estado. Em Angola, a eleição do novo Presidente da República provoca a demissão do Governo. Portanto e usando, com a vossa permissão, uma bem conhecida gíria, quem «mija» e manda no governo não é o Primeiro-Ministro. É o Presidente da República.

Quer isto dizer que, se os principais partidos da oposição (UNITA, FNLA, FpD, etc.) quiserem governar o País terão de apostar em candidatos que consigam derrotar Eduardo dos Santos nas eleições presidenciais.

2. Em Angola, Democracia a sério, só com um MPLA-Renovado. Tal como não foi possível existir uma UNITA-Democrática durante o longo e doloroso reinado da UNITA-Belicista, assim também não é possível surgir um MPLA-Democrático enquanto o MPLA-Futunguista continuar a controlar e a dominar o MPLA-Histórico. Por isso, é natural que o actual processo democrático esteja muito longe do processo almejado por todos aqueles que sonham e lutam para que Angola seja um verdadeiro Estado de direito democrático, alicerçado na soberania popular, na dignidade da pessoa humana e no pluralismo.

Assim, enquanto os futunguistas continuarem com o seu longo e doloroso reinado, a nossa Democracia será sempre insonsa, morna, confusa e titubeante. Porque, tal como o savimbismo, o futunguismo é um sistema fechado, autocrático, autoritário e ferreamente construído em torno da divinização e bajulação do seu líder infalível, incontestado, omnipotente, omnisciente e omnipresente. Tal como o savimbismo, o futunguismo tem sido absolutamente implacável com os opositores internos e com aqueles cujo prestígio, inteligência, influência ou ideias constituem uma ameaça à autoridade e à liderança do chefe.

Graças a Deus, os futunguistas deixaram de eliminar fisicamente os militantes do MPLA-Histórico que ousem contestar e desafiar a sábia e clarividente liderança de José Eduardo dos Santos. Aliás, foi nesse sentido o recado que recebeu o General Garcia Miala, ele que já foi considerado o único homem que podia acordar o Presidente a qualquer hora da noite. Segundo a mais célebre vitima dos futunguistas, a pessoa indicada para lhe transmitir a controversa demissão, disse-lhe que não se preocupasse com a sua vida porque já não estavam nos tempos das eliminações físicas. Mas, no futunguismo, os atrevidos que ousem brilhar mais do que o chefe sofrem uma morte política capaz de ensombrar e congelar as suas ambições.

Assim, e por causa da rigidez do sistema e das traumatizantes perseguições do passado, não há, no seio do MPLA-Histórico, algum mortal com motivação e com meios capazes de beliscar e desafiar a longa liderança de Eduardo dos Santos. E o MPLA-Renovado tarda a aparecer porque os militantes com inteligência, prestígio e capacidade suficientes para promoverem a abertura, a democratização e a tão esperada reconciliação interna do histórico Partido estão todos domados, silenciados, corrompidos e resignados. E enquanto não emergir na cena política de Angola um MPLA-Renovado capaz de promover a democratização do MPLA-Histórico e dar outro rumo ao processo de reconciliação nacional e de democratização do nosso promissor País, teremos de nos contentar com essa democracia dos futunguistas.

3- Os futunguistas não mudam mais e vão continuar a ser senhores absolutos da vida política e económica de Angola. Por isso, temos de nos livrar do velho hábito de esperarmos, passiva e resignadamente, pela ajuda e intervenção da comunidade internacional na resolução dos nossos problemas. Estamos sozinhos neste difícil combate ao todo poderoso futunguismo. É que, os futunguistas sentem-se no auge da sua força e do seu poder. A dependência do petróleo deu-lhes uma ascendência sobre a política externa dos Estados Unidos, da China, da França, da Inglaterra, da Rússia, do Japão, de Portugal e doutros antigos defensores acérrimos da Democracia e dos Direitos Humanos. Por isso, não há no mundo de hoje instituição divina ou humana capaz de travar os seus instintos cleptocratas, de questionar a governância deles, de censurar a ostentação descarada das suas riquezas e de impugnar os seus longos desmandos.

4- Mais do que eleições legislativas, as eleições de 5 de Setembro serão LEGITIMATIVAS para todos aqueles que se opõem ao longo e doloroso reinado dos futunguistas. Porque durante os 16 anos de interregno eleitoral, os futunguistas trataram a oposição política, as lideranças eclesiásticas e sindicais, a imprensa privada, as organizações não-governamentais e a sociedade civil como entidades ilegítimas. Lidaram connosco de forma arrogante e prepotente, como se não tivéssemos nem maturidade nem autoridade para questionarmos a sua longa e desastrosa governância.

Isto vai acabar. Porque, a partir de 5 de Setembro de 2008 estaremos todos legitimados a enfrentar os futunguistas, a exigir o cumprimento das suas promessas, a questionar as suas decisões políticas e a censurar os seus habituais desmandos.

5- Os futunguistas não podem obter a maioria absoluta dos assentos parlamentares. À custa do longo prestígio e da poderosa influência do MPLA-Histórico, os futunguistas há muito que se preparam para obter, nas próximas eleições e a qualquer preço, uma esmagadora vitória que os permita conseguirem a maioria absoluta dos 223 assentos da Assembleia Nacional. Isso seria mau para o processo democrático em curso. Porque controlando o Parlamento e mantendo o seu líder na Presidência da República, os futunguistas continuarão a ser os senhores absolutos da política nacional e continuaremos a ser forçados a submeter-nos aos seus caprichos e desmandos.

Urge, por isso, que os descontentes do MPLA-Histórico e a oposição política empenhem-se na difícil tarefa de ajudarem os eleitores a saberem identificar os futunguistas que se vão camuflar com os poderosos símbolos do MPLA-Histórico.

Sim, eles estão apostados em usar o MPLA para manterem os seus privilégios e os seus desmandos. Só para dar um exemplo: o artigo 19º da Lei dos Partidos Políticos diz que os símbolos de um partido não podem confundir-se ou ter relação gráfica com símbolos e emblemas nacionais. Sabem porque é que os futunguistas boicotaram e sabotaram o processo da nova bandeira da República de Angola?


Bandeira de Angola Bandeira do MPLA


José Maria Huambo
In Semanário Folha8

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Estamos Juntos, nesta Luta pela Dignificação do angolano!



Caros Compatriotas e amigos de Angola!



Fraternais saudações.




Antes de tudo, permitam-me, em nome da equipa responsável por este blogue, expressar a nossa profunda gratidão por terem ajudado a tornar o «angolainterrogada» uma referência na blogosfera e um importante espaço de encontro, reencontro e partilha de ideias para todos nós que amamos Angola e carregamos em nossos corações as dores da devastação e da estagnação da nossa amada Pátria.

Como sabem, o grau de audiência e visibilidade de um blogue é avaliado pelo número de «page views» e de «visits». O blogue «Angolainterrogada» teve, até hoje, 18.553 «page views» e 11.789 «visits». Nada mau!

Graças ao vosso contributo, o blogue começa a sair do anonimato e a afirmar-se na blogosfera. E isto dá-nos alento, força, coragem e motivação para levarmos avante esta difícil, mas importantíssima, missão de repensarmos a independência, questionarmos a paz e pormos em causa tudo aquilo que nos foi ensinado durante os conturbados anos de guerra e que tem condicionado a conciliação dos angolanos, a nossa forma de avaliar os governantes, de exercer a cidadania, de pensar o País e de viver a angolanidade.

A nossa sentida solidadriedade e profunda compreensão para com os compatriotas e amigos de Angola que, por vários motivos (pessoais, técnicos, políticos, etc.) não puderam expressar as suas opiniões.
O nosso profundo obrigado para os compatriotas e amigos de Angola que ousaram partilhar connosco as suas opiniões. Valeu!
Com Angola no coração,
José Maria Huambo



MAFEGOS, Porto:
«Sempre que chove assim eu lembro-me dos gafanhotos. Não aqui, não em Luanda, claro! Aqui nunca vi nada parecido! O meu pai, o velho Faustino Benedito, herdou, da avó materna, uma fazenda na Gabela. Íamos lá passar férias. Para mim, era como visitar o paraíso.
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, O Vendedor de Passados
Tendo nascido em Angola e vivido 12 anos nesse paraíso é claro que, mais do que ninguém, eu sei qual o valor de viver numa terra abençoada por Deus. E por muito que eu viaje, nunca comparo a minha Gabela a qualquer outra terra! Nem Nova Iorque, nem Paris ou Rio de Janeiro. Porque a Gabela é incomparável!
É claro que eu estou a referir-me a uma Angola que, infelizmente, era desigual consoante a cor da pele. Uma Angola colonialista, onde os brancos tinham a primazia de pôr e dispor. Portanto, tudo o que eu posso dizer da minha terra é sempre pelo lado dos privilegiados, daqueles que nada lhes faltou e que viveram bem, provavelmente à custa e em claro prejuízo dos verdadeiros angolanos.
Nasci na Gabela, na pensão Oliveira, em 6 de Julho de 1963. É por estas e por outras, que eu tenho o maior orgulho de dizer: «eu nasci em Angola». Mas não é pela simples condição de ser filho de colonos, que me sinto menos angolano. Antes pelo contrário, sinto um orgulho enorme pelo facto dos meus pais terem deixando Portugal e terem zarpado para Angola, procurando melhorar a vida, quando seria mais fácil ir para França, Brasil ou EUA. Os meus pais escolheram ir para o paraíso e ajudaram, com a sua modesta participação, a engrandecer aquela terra.
E é esse amor por essa terra, que me faz percorrer os diversos blogues angolanos com que me vou deparando nesta cada vez mais imparável blogosfera e pelos quais me vou inteirando sobre o que se vai passando lá na "banda", pois o coração parece que ficou lá e tenho que urgentemente voltar para me encontrar com ele para ver se não morro de saudade.
Tive e tenho o privilégio de conhecer o José Maria Huambo, um bom homem e, tal como eu, um apaixonado pela sua terra, e daí ter aceite escrever este texto, não só pela amizade mas também pelos pontos de vistas que entre nós são na maioria das vezes convergentes.
Gosto de passar por aqui e ver o que se vai escrevendo sobre o que se deseja e espera do futuro da nossa terra. Porque, que por muito mal que a continuem a tratar, a nossa esperança é infinita. E nos duros momentos de desânimo não há nada que uma boa moamba, um bom merengue ou até um kuduro não nos faça, como uma Fénix, renascer para o sonho de uma Angola como diria uma canção em 75 "Esta Angola é grande e caberíamos todos nós, mas cada vez que matam, aumentam o rancor desta pobre gente que tanto escravizaram".Era uma canção que visava o colonialismo, mas infelizmente continua muito actual. Mas tenho esperança que Angola ainda vai ser a terra, não o paraíso que eu vivi, mas aquela terra onde um dia poderemos viver, trabalhar, amar e, por fim, morrer, por exemplo, no meio daquele cheiro do café, o cheiro que me persegue desde que nasci.
Uma das mágoas que tenho é que eu posso estar a falar de uma Angola que hoje já não existe e que muitos angolanos pensem que só existe no meu imaginário. E é triste o facto de muitos angolanos nunca terem tido a hipótese de viver e desfrutar daquele país, como nós o fizemos. Mas como a esperança é a última a morrer…
Está a chegar Setembro que pode ser uma grande surpresa e vamos ver como se comportam os dirigentes angolanos perante a derrota. E não me estou só a referir aos que estão no governo. Mas também espero a oposição se mostre digna perante a derrota. Isto se as eleições forem na verdade livres e justas, como espero»

CARLOS, Brasil:
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Olá! Vou em primeiro lugar fazer a minha apresentação: Sou filho de portugueses nascido no Huambo, tendo residido na Huila e Luanda. Actualmente resido no Brasil. Acompanho o vosso blogue há algum tempo e o acho fantástico! Desde o início fiquei impressionado com a cultura, raciocínio e colocação dos problemas de Angola pelo Sr. José Huambo! Continuai assim».

PAULO, Porto:
«
É saudável e extremamente útil participar com a nossa existência a tudo quanto seja para alinhavar um futuro digno de homens inquietos com uma realidade que infelizmente não tem sido normal. Como tal, toda a consciência crítica com o fito de contribuir transversalmente para as melhoras do nosso país (indissociável dos homens..) deve ser abraçada, pois somos aquela geração que foi submetida e reduzida ao "carneirismo" de uma só direcção porque a cobiça e toda uma ordem de subversão do ser humano digno e aspirante da felicidade plena anda involuntariamente a deriva...
O cruzamento de ideias e atitudes proactivas sustentados pelos valores que alicerçam os seres é uma espécie de água potável para todos viverem com a garantia da própria vida futura...
Este blogue (e outros com o mesmo propósito) é mais um recurso para o realinhamento do rico mosaico angolano...
Estarei sempre atento e darei o mais vivo contributo para que os resultados sejam práticos...
Agradeço e durmo tranquilo porque sei que muita gente está comigo na busca do despertar dos angolanos....
Saudações minhas»

REGINALDO, Luanda:
«
Viva o bloguismo e os seus seguidores!
Viva a liberdade de expressão!
Ai vai o meu: http://www.morrodamaianga.blogspot.com/
Abraços»

ANÓNIMO:
«"Encontrei" hoje este seu/vosso/nosso blogue. Parabéns! Uma lufada de ar fresco em Angola, que não é a minha terra, mas que "infelizmente" descobri nos idos anos 80 ( a tal água do Bengo), portanto sem passado só com o futuro que tarda a chegar, mas que jovens e menos jovens como vocês (e conheço muitos) com certeza lá a farão chegar. Bem hajam pela coragem (desculpem, CORAGEM)».

FERNANDO, Luanda:
«
Parabéns pelo blogue! O angolainterrogada tem ideias que ajudam a contribuir para o engrandecimento de um País que todos nos amamos».

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Deixemos de ser Povo, Passemos a Ser Cidadãos!


Poucos países apresentam um contraste tão acentuado entre o potencial económico e a situação do seu povo.
É notável o conjunto de recursos de Angola: Petróleo, diamantes, muitos outros minerais, terra em abundância e um clima geralmente favorável, além de enormes recursos hidroeléctricos (…)
Fossem esses recursos devidamente aproveitados, a economia de Angola estaria entre as mais dinâmicas do mundo em desenvolvimento e o seu povo entre os mais bem alimentados, educados e saudáveis do continente africano

TONY HODGES


Mudança, mudança, mudança… É o grito que mais ecoa do seio da nossa geração. Só que muitos de nós continuam a espera de sinais de mudança vindos da parte dos nossos governantes. Exigem que os governantes mudem! Mas a grande verdade é que esses dirigentes que conhecemos desde a nossa infância já não mudam mais. Porquê? Porque eles estruturaram as suas longas carreiras políticas em torno da ideia segundo a qual o Povo angolano não passa de um aglomerado amorfo de pessoas cegas e ignorantes que nada percebem dos problemas do País, não sabem o que se passa no mundo e incapazes de avaliarem os seus actos de gestão governativa.

Por isso, a mudança que pode influenciar, positivamente, o novo rumo de Angola tem de partir de nós. Somos nós que temos de mudar. Ou como reza uma estrofe do poema Depressa, de Agostinho Neto: «Não esperemos os heróis/ Sejamos nós os heróis/ Unindo as nossas vozes e os nossos braços/Cada um no seu dever»

S. Paulo escreveu na 1ª Carta aos Coríntios a seguinte passagem: «No tempo em que eu era criança, falava como criança, sentia como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, eliminei as coisas de crianças» (1 COR. 13, 11). É nisso que consiste a nossa mudança. E a primeira etapa desse processo de mudança deve incidir na desintoxicação da propaganda.

Assim, por mais que doa e custe a muitos, a nossa geração precisa de questionar, repensar, pôr em causa e debater tudo aquilo que nos foi ensinado durante os tempos da OPA e que tem condicionado a nossa forma de avaliar os governantes, de exercer a cidadania, de pensar o País e de viver a angolanidade. Para os que não sabem, a OPA (Organização dos Pioneiros de Agostinho Neto) era, nos anos do marxismo-leninismo, a organização responsável pela instrumentalização, manipulação, militarização e politização das crianças angolanas que estavam sob a jurisdição do então chamado MPLA-PT.

Assim, não podemos continuar a repetir incansavelmente que o nosso país é rico. Não podemos continuar a gabar-nos de sermos o maior produtor de petróleo de África. Isso era no tempo em que éramos crianças, sentíamos como crianças e raciocinávamos como crianças. Agora, temos de pensar como cidadãos e indagar se as nossas condições de vida estão ao nível dos nossos vastos recursos. Temos de perguntar se os nossos governantes têm gerido de forma competente essas tão gabadas riquezas. Temos de questionar se o facto de sermos os maiores produtores de petróleo tem trazido melhorias significativas dos nossos direitos humanos.

E são as pequenas coisas do nosso quotidiano que nos podem ajudar a avaliar o desempenho dos nossos governantes na gestão dos nossos recursos. Por exemplo: o Asfalto é um dos derivados do petróleo. Ele resulta dos hidrocarbonetos de elevado peso molecular e das impurezas que, durante o processo de refinação do petróleo bruto, se vão acumulando no fundo da torre de destilação a vácuo. Então, se somos os maiores produtores de petróleo e se o asfalto vem do petróleo, porque é que as ruas das cidades de Luanda, Benguela, Namibe, Lubango e Sumbe continuam esburacadas, empoeiradas e imundas? Porque é que a nossa capital tem poucas estradas e de qualidade duvidosa? Porque é que os automobilistas Luandenses continuam a aglomerar-se como sardinhas nas velhas estradas deixadas pelos colonos?

Não podemos continuar a gabar-nos de sermos um país com vastos recursos hidroeléctricos e donos dos mais importantes rios de África. Isso era o que nos ensinavam nos tempos da OPA. Agora, temos de pensar como cidadãos e perguntar se os nossos governantes têm gerido e aproveitado de forma competente esses tão gabados recursos hidroeléctricos. Temos de questionar se o facto de termos muitos rios tem trazido melhorias significativas dos nossos direitos humanos. Por exemplo: Se temos muita água, então, porque é que os que vivem nas cidades de Luanda e Benguela, e se gabam de ser mais urbanos e mais civilizados do que os outros, há décadas que não conseguem tomar banho de chuveiro? Sim, meus irmãos, tomar um duche é a coisa mais simples e mais normal que um urbano pode fazer. Se temos muitos recursos hidroeléctricos, então, porque é que os habitantes do Namibe e do Lubango, até hoje, não conseguem ter luz eléctrica durante 24 horas consecutivas?

A segunda etapa do processo da mudança deve incidir na afirmação da cidadania. Os dirigentes que conhecemos desde a nossa infância já não mudam mais porque estão habituados ao nosso comportamento de povo. Por isso, a mudança que pode influenciar positivamente o novo rumo de Angola tem de partir de nós. Assim, se quisermos que os futuros dirigentes mudem e se empenhem na construção de uma Angola pacífica, unida e próspera, somos nós que temos de mudar. Somos nós que estamos obrigados a deixar de ser povo e passarmos a ser cidadãos exigentes nos seus direitos e cientes dos seus deveres cívicos.

Nesta fase da afirmação da cidadania é crucial adoptarmos, no nosso quotidiano, duas atitudes: A primeira atitude deve consistir em combater a velha mentalidade muito enraizada entre nós que considera os actos daqueles que estão ao serviço do Estado como um grande favor que eles nos fazem. Assim, e já o disse noutros artigos, é preciso mentalizarmo-nos de uma vez por todas que ter uma casa, luz, água, roupa, comida, paz e sossego de modo a gozarmos de uma passagem digna e feliz por este mundo, não é um favor que um Presidente, um Governo ou um Partido Político nos faz por mera compaixão. É, sim, um sagrado direito nosso, aprovado por Deus e consagrado universalmente pelos homens de boa vontade. Construir escolas e hospitais, humanizar os serviços de assistência medico-medicamentosa, melhorar o emprego, a saúde, a educação e as nossas condições de vida não é um acto de caridade dependente da caprichosa vontade dos dirigentes. É, sim, uma obrigação fundamental do Governo e um sagrado dever do Estado.

A segunda atitude de afirmação da cidadania consiste em aprendermos a avaliar bem aqueles a quem queremos confiar os destinos do nosso promissor País. Porque só podem merecer a nossa confiança política, o nosso respeito e a nossa profunda admiração os dirigentes que se mostrem altamente competentes no respeito pelos nossos sagrados direitos e na canalização de todos os recursos e de todas as potencialidades do País na criação de condições que contribuam para o nosso bem-estar físico e espiritual.

Assim, deixar de ser povo é deixar de defender, de aclamar, de dar vivas, de seguir e de idolatrar o Presidente, o Ministro, o Governador Provincial, o Administrador Municipal e o Director que não nos respeitam como cidadãos e não cessam de dar provas de incompetência na condução do nosso destino colectivo e na gestão dos nossos recursos humanos e naturais.

Chegou, portanto, a hora de deixarmos de ser povo e passarmos a ser cidadãos. Ou como escreveu S. Paulo: «Chegou a hora de nos levantarmos do sono, a noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz» (ROMANOS 13, 11-12), «de modo que não seremos mais meninos inconstantes, levados por qualquer sopro de doutrina, pela malignidade dos homens e pelos seus artifícios enganadores» (EFÉSIOS 4, 14).


José Maria Huambo

terça-feira, 8 de julho de 2008

Competência e Direitos Humanos

Na Índia, os praticantes do hinduísmo, uma das maiores religiões do mundo, consideram as vacas como animais sagrados. Segundo a tradição, foi uma vaca que alimentou Krishna, um dos mais importantes deuses hindus. Por isso, todos veneram as suas vacas e ninguém pode fazer-lhes mal. Assim, os animais têm toda a liberdade de circulação nas vilas e nas cidades, podem fazer o que quiserem e destruírem o que bem lhes apetece. Os hindus podem viver na extrema pobreza, mas orgulham-se de exibirem as suas manadas como sinal de riqueza e prosperidade. Podem estar a morrer de fome, mas não são capazes de matar uma vaca e aproveitar a carne. Quem se atrever a mexer numa delas corre risco de morte.

Há, entre nós, uma muito enraizada mentalidade de «vacas sagradas». Assim, muitos se julgam sagrados e querem manter-se no poder a qualquer preço, apesar de terem dado intermináveis provas de serem dirigentes altamente incompetentes na condução do nosso destino colectivo e na gestão dos nossos recursos humanos e naturais. Muitos brancos e mulatos se julgam sagrados e destinados a manterem os seus privilégios por descenderem de uma raça superior. Muitos negros se julgam sagrados e destinados a dominarem o País por só saberem falar português, por descenderem de famílias nobres e por terem nascido em Luanda.

Aliás, o longo e cruel conflito angolano não foi mais do que o reflexo político-militar dos antagonismos socioculturais e etnorregionais que enfermam a sociedade angolana e resultou do virulento embate entre dois grupos de sagrados que pretendiam impor, por todos os meios, a hegemonia política. Assim, os do MPLA consideravam-se muito sagrados e, por isso, podiam fazer de nós o que quisessem por se acharem os mais «civilizados», o mais «capazes» e os mais «evoluídos» dos angolanos. Os da UNITA julgavam-se super sagrados e, por isso, podiam fazer de nós o que quisessem por se acharem os mais «genuínos» dos angolanos, as verdadeiras vítimas do colonialismo português e «legítimos» representantes da maioria negra.

Já perdemos muito tempo com estas vaidosas discussões e com estas lutas sagradas que os nossos Kotas mantiveram acesas durante longos e dolorosos anos. Por isso, urge libertarmo-nos desta discussão de saber quem são os mais sagrados e mudar a forma como encaramos os problemas do País e avaliamos os nossos governantes.

Assim, para a nossa geração, o que deve contar na avaliação do desempenho de todos os nossos líderes (políticos, religiosos, económicos, administrativos, cívicos e tradicionais) são os critérios da competência e dos direitos humanos. Por isso, só os líderes que se mostrarem competentes no cumprimento das suas obrigações e dedicarem tudo o que sabem na promoção dos direitos humanos merecem manterem-se no poder e serem idolatrados e respeitados pelos seus compatriotas.

Uma pessoa é competente e cumpre, eficientemente, as suas obrigações quando dá provas de possuir a habilidade, o conhecimento e a experiência necessárias na planificação de uma acção, na organização de um trabalho e na liderança e na motivação daqueles que estão sob sua responsabilidade.

Portanto, não basta os nossos líderes circularem em carros luxuosos, vestirem trajes caros, falarem correctamente o português, gabarem-se de serem os mais urbanos e os mais civilizados para merecerem o respeito e admiração dos seus compatriotas. Isto porque, a competência pouco tem a ver com estes complexos e preconceitos. Foi essa a lição que Mutu Ya Kevela deu ao exército colonial.

Entre os meses de Março e Agosto de 1902, nos territórios do reino do Bailundo, os indígenas revoltaram-se contra os comerciantes portugueses que operavam na zona. O Rei Kalandula tinha acabado de morrer e Mutu Ya Kevela, um dos seus conselheiros mais influentes, assumiu a liderança da rebelião e reuniu um grande exército. As colunas militares portuguesas, que foram chamadas para travar a rebelião dos selvagens e proteger os comerciantes, tiveram muita dificuldade em alcançar o Bailundo. Este atraso deveu-se à notável competência de Mutu Ya Kevela. Ele, que era considerado estúpido e selvagem, conseguiu elaborar um plano estratégico para cortar as linhas de avanço das tropas coloniais em 3 frentes: Bié-Caconda, Bailundo- Leste e Bailundo-Benguela. Esta estratégia, que tornou difícil o avanço das tropas coloniais, mereceu o elogio do então Governador-Geral de Angola, Cabral de Moncada. Na opinião do Governador «um plano daqueles só poderia ter sido amadurecido na cabeça de um General experiente e não em cérebros selvagens».

Não basta alguém considerar-se descendente da raça superior ou julgar-se o mais evoluído dos negros para ser considerado, naturalmente, competente e merecer o respeito e a admiração dos seus compatriotas. Isto porque, a competência pouco tem a ver com a superioridade da raça, com a pureza da pele ou com a aparência física. Foi esta a lição que a história deu ao General português Kaúzla de Arriaga e aos seus seguidores.

O General Kaúlza de Arriaga (1915-2004) era um racista assumido. Entre 1964 e 1968 foi professor no Instituto de Altos Estudos Militares. Durante o tempo que lá esteve ensinou, por exemplo, que os negros são pouco evoluídos porque a inteligência das raças diminui a medida que se percorre a chamada escala da latitude, no sentido Norte-Sul. Assim, primeiro vêm os nórdicos, depois os latinos, em seguida os árabes e, por fim, os negros.

Em 1969 o General assumiu o Comando Militar de Moçambique. Em 1970, Absolutamente convencido da superioridade racial e militar do exército português, apressou-se a promover uma super operação militar para, em poucos dias, acabar com a aventura dos indígenas subversivos e aniquilar a FRELIMO, assaltando e destruindo as suas bases. Chamou-lhe «Operação Nó Górdio». Considerada a maior e a mais dispendiosa operação de sempre, envolveu tropas do Exército, Marinha e Força Aérea, num total aproximado de 8.200 homens.

Apesar da clara desvantagem de homens e de meios, os guerrilheiros da FRELIMO foram muito competentes na forma como resistiram à poderosa ofensiva e ludibriaram o exército português. Por causa disso, o cerco às suas bases demorou muito mais do que o previsto e o General Kaúlza de Arriaga não conseguiu atingir o seu objectivo: aniquilar a FRELIMO e acabar com a guerrilha, em poucos dias. Assim, a «Operação Nó Górdio» entrou para os anais da História militar portuguesa como um grave erro estratégico e como um mau exemplo de desperdício de vidas e de meios.

Não basta os nossos líderes julgarem-se, naturalmente, competentes e exigirem respeito e admiração dos seus compatriotas só por terem estudado nos Liceus da Angola colonial, por terem frequentado grandes universidades e exibirem muitos títulos académicos. Isto porque a competência pouco tem a ver com as habilitações académicas de uma pessoa. Foi essa a lição que nos deu o saudoso Valentim Amós, o mais bem sucedido empresário angolano e tragicamente desaparecido em Janeiro de 2008, quando o avião em que viajava com mais 12 pessoas embateu contra uma montanha.

Valentim Amós (1961-2008) tinha poucas habilitações literárias. Não tinha nenhum mestrado ou doutoramento. Não cursou Economia na Universidade de Harvard (EUA) ou Gestão na Universidade de Oxford (Inglaterra). Mas era uma pessoa altamente competente e mostrou-se incansável na promoção dos direitos humanos. Graças a sua comprovada competência, construiu um império comercial avaliado em mil milhões de dólares. E por se ter dedicado à promoção dos direitos humanos, ele é hoje um líder muito chorado, idolatrado e respeitado.

José Maria Huambo

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Geração Enganada e Sacrificada

Conta-se que, em meados da década de 90 do Século passado e no auge da febre das bolsas, certo jovem decidiu redigir um requerimento ao director responsável pelo «gabinete de bolsas» de uma célebre instituição nacional. Assim, num vistoso papel de 25 linhas, o esperançoso jovem expôs, de forma cuidada e eloquente, a sua atribulada vida, o seu difícil percurso académico, os seus projectos, os seus anseios e a importância vital da tão desejada bolsa.

Depois de duras semanas a tentar romper a poderosa e preconceituosa teia burocrática, fortemente, enraizada na célebre instituição nacional, o esperançoso jovem, através dum influente amigo da prima do rico namorado da querida tia, lá conseguiu fazer chegar o importante requerimento às mãos da poderosa secretária do Sr. Director. E tinha imensas razões para comemorar o feito tão difícil. É que, quando chegassem às mãos da zelosa secretária, os documentos passavam a ter 99% das hipóteses de cumprirem o seu destino. E para colocar mais «gindungo» nas fortes expectativas do jovem, a zelosa secretária pediu-lhe que fosse falar com ela no início da semana seguinte.

Chegado o dia marcado, o nosso jovem dirigiu-se ao gabinete da poderosa senhora em busca de novidades. A zelosa secretária, habituada à persistência dos requerentes, sossegou o nosso jovem, garantindo-lhe que o seu documento já estava pronto a ser despachado pelo Sr. Director. E o deferimento só não tinha acontecido porque o chefe tivera uma série de complicadas reuniões. «Volte daqui há quatro dias».

Passado o tempo pedido, o cada vez mais ansioso jovem regressa ao poderoso gabinete da célebre instituição nacional. «Olha, o Director ainda não despachou o requerimento. Nestes últimos dias tem andado ocupadíssimo. Venha cá p’ra semana». Sete dias depois o persistente jovem reaparece. «Ainda não tenho novidades. Peço desculpas. O Sr. Director foi numa missão de serviço. Venha daqui há quinze dias e garanto-te que haverá novidades». Duas semanas depois, a mesma ladainha e... nada! Um mês, dois meses e...nada!

Numa das suas habituais visitas ao Roque Santeiro, o nosso cada vez mais frustrado jovem resolve comprar uma dose de pão com peixe frito para «enganar o estômago». Enquanto saboreava o «almoço», entreteve-se a contemplar a dura realidade que o envolvia e a imaginar a vida que levaria como bolseiro angolano no exterior. Mas, num repentino e irresistível impulso, digno de um verdadeiro sexto sentido, interrompeu a meditação e decidiu reparar bem no papel que embrulhava a «sande» de peixe frito. A cuidada caligrafia, a rigorosa estética e o eloquente conteúdo não deixavam dúvidas: aquele pedaço de papel gorduroso e amarfanhado era o que restava do seu importante requerimento.

E a razão deste incrível e repugnante fenómeno é muito simples: A mãe da zelosa secretária era assídua quitandeira no Roque Santeiro. E a poderosa auxiliar do Sr. Director tinha por habito entregar à querida progenitora toda a papelada excedente, composta de requerimentos indesejados, jornais, revistas e velhos documentos.

Pois é, meus caros. A dolorosa experiência vivida pelo nosso jovem não difere muito da dura realidade que envolve a por mim denominada «geração enganada e sacrificada». Em 1976, e no auge da febre da Independência, o esperançoso e promissor grupo dos nascidos entre 1950 e 1975 fez um eloquente e pomposo requerimento dirigido aos dirigentes que não cessavam de proclamar que, para eles, «o mais importante era resolver os problemas do povo».

No dito requerimento, esmeradamente dactilografado em papel de 25 linhas, os elementos do grupo, com idades entre os 0 e 25 anos, exprimiam o ardente desejo de terem acesso a todos os benefícios a que tinham direito por força da tão longamente esperada independência. Exigiam uma equitativa repartição dos recursos económicos. Queriam que houvesse uma igualdade de oportunidades e uma justa recompensa dos talentos que cada um deles desejava dispor ao serviço da comunidade. Pretendiam que nascessem e vivessem em humanas condições de vida e que tivessem habitações decentes e uma alimentação digna. E porque “um analfabeto é um espírito subalimentado”, desejavam também que frequentassem escolas e universidades com adequadas condições de aprendizagem, que tivessem oportunidades de se formarem e desenvolverem os seus talentos com dignidade. E, por fim, exigiam um sistema de saúde mais humano e que fosse capaz de prestar-lhes uma eficiente assistência médica e medicamentosa, fundamentais para responderem, com vigor, aos desafios da «reconstrução nacional».

Passou um ano de ansiosa espera pela resposta dos dirigentes. E nada. Dois anos... três... quatro... cinco... seis anos e nada! No sétimo ano (1983) os elementos do grupo, agora com idades entre os 8 e os 33 anos, resolvem indagar os dirigentes sobre o andamento do requerimento. - Então camaradas, os nossos problemas? – Ah, não, vocês vão precisar de mais um pouco de paciência e abnegação porque ainda não deu para resolver cabalmente os vossos problemas. Somos um país jovem. Sofremos cinco séculos de um colonialismo terrível que nos deixou uma pesada herança. Quando nos preparávamos para resolver os vossos problemas fomos atacados em várias frentes pelos nossos inimigos. Estamos a enfrentar o imperialismo que continua a financiar actividades subversivas e contra-revolucionárias para desestabilizar a situação política, militar e económica do nosso país. Tivemos repetidas agressões armadas levadas a cabo pelos racistas sul-africanos que culminaram numa invasão de grande envergadura. E nestes difíceis momentos da nossa história, precisamos do vosso patriótico sacrifício, dando tudo quanto têm de melhor para a defesa da Pátria, da nossa liberdade e integridade territorial. Sem o vosso engajamento não será possível defender as conquistas já alcançadas.

Entretanto, os anos foram passando e... nada. Em 1990, sete anos depois da última comovedora promessa, os elementos do grupo, agora com idades entre os 15 e os 40 anos, voltam a indagar os «esforçados» dirigentes. – Então camaradas, os nossos problemas? Ah, sabem, nós estamos cientes das vossas dificuldades. Mas, acreditamos que saberão compreender os graves obstáculos que continuamos a enfrentar. Os inimigos de sempre não desarmam e continuam com as suas manobras. A administração Reagan, através da emenda Clark, inaugurou uma grave política de ingerência nos nossos assuntos internos. O exército de Savimbi, apoiado pela racista África do Sul e pelo Zaire, intensificou as suas acções de guerra e incrementou os seus actos de terrorismo. Todos estes factores levaram-nos a desviar grande parte dos recursos financeiros e materiais para a conquista da paz, afectando, assim, grandemente o cabal cumprimento do nosso plano nacional. Mas não se preocupem, que irão sentir os benéficos efeitos do plano do SEF, gizado com profunda clarividência. Até lá, devem permanecer vigilantes e mobilizados para garantir a defesa das nossas conquistas.

Entretanto, passaram outros sete anos e os problemas agravavam-se cada vez mais. Estamos em 1997 e os destroçados elementos da geração da independência, agora com idades entre os 22 e os 47 anos, resolvem, mais uma vez, indagar os dirigentes. – Então camaradas, os nossos velhos problemas? Ah, já sabem o que aconteceu ao nosso país. Quando tínhamos tudo preparado para, finalmente, resolvermos cabalmente os vossos problemas, eis que o espectro da guerra voltou a pairar sobre nós. A Unita contestou, por via armada, os resultados eleitorais, abrindo uma grave crise que mergulhou o país numa verdadeira catástrofe. A sanha assassina de Savimbi obrigou-nos, novamente, a canalizar todos os recursos financeiros e materiais para o esforço de guerra. Graças a um gigantesco esforço nacional, o país, que estava à deriva, voltou ao rumo certo e retoma agora lenta mas seguramente a sua marcha. E não vos preocupeis. Porque os sinais destes tempos mostram que o país está a caminhar rapidamente para uma nova etapa, uma etapa em que iremos saber equacionar e resolver novos e velhos problemas. Mais uma vez, contamos com o vosso abnegado sacrifício na defesa da integridade territorial e no vosso esforço para recolocar Angola no caminho do progresso e da prosperidade.

Acontece que estamos em 2008, 11 anos depois das promessas de 1997 e 32 anos depois da entrega do requerimento. E… nada. Continuamos a ser bombardeados com velhas desculpas e com as promessas do costume. Dizem que é agora que tudo se vai resolver. Prometem, por exemplo, para o período 2009-2013, construir cerca de um milhão de habitações em todas as províncias. Vamos ver.

E como a esperança é a última a morrer, não desistimos e contamos regressar em 2013. Nessa altura, os elementos do grupo que dactilografou o requerimento terão entre os 38 e os 63 anos. Espero, sinceramente, que, até lá, os nossos dirigentes tenham a hombridade de dizerem a verdade sobre o destino do velho requerimento e que se redimam das suas faltas tornando menos pesado o fardo da vida dos filhos e dos netos da geração que tem sido enganada e sacrificada desde 1976.


José Maria Huambo