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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Angola é Rica Pra Quem?

Faço parte de uma geração que sobrevive atormentada por um permanente conflito entre o promissor paraíso que as enormes potencialidades deste nosso grande e belo País nos proporcionariam e o real inferno gerado pelo nosso desastroso desempenho na condução do nosso destino colectivo e na gestão dos nossos recursos humanos e naturais.

É bonito, sim senhor, contemplar as favoráveis projecções estatísticas sobre a nova era angolana, amplamente, divulgadas pela comunidade internacional. É animador ouvir os especialistas estrangeiros garantirem que somos a economia do mundo que mais cresce e que seremos, de longe, o mais próspero país de África.

Mas o doloroso regresso a Angola real obriga-nos a reavaliar as projecções das organizações internacionais e a repensar as garantias dos especialistas estrangeiros. Por isso, e por mais que doa e custe a muitos, a minha geração precisa de questionar, repensar e debater tudo aquilo que se tem dito sobre as míticas riquezas de Angola.

O General Iko Carreira (1933-2000), um dos mais influentes nacionalistas que lutaram pela independência de Angola e que foi braço direito de Agostinho Neto, escreveu no seu livro «O Pensamento Estratégico de Agostinho Neto» estas ideias que devem merecer a nossa contínua reflexão: «Essa história de considerar Angola como um país potencialmente rico só a tem prejudicado, fazendo muita gente deitar-se à sombra da bananeira, à espera que a riqueza caia do céu, por milagre. Todos os países são potencialmente ricos. O que precisam para serem ricos de facto é de uma percentagem de gente que os desenvolva. E Angola não é excepção. Ou encontra essa gente e desenvolve-se, ou não a encontra e continua na pobreza e numa crescente mendicidade».

Assim, não podemos continuar a repetir cegamente que o nosso país é rico. Temos, agora, a obrigação de pensar como cidadãos e indagar se as nossas condições de vida estão ao nível dos nossos vastos recursos. Temos de perguntar se os nossos governantes têm gerido de forma competente essas tão gabadas riquezas. Temos de procurar, valorizar e promover a percentagem de gente capaz de organizar e desenvolver o país.

Então, os angolanos são assim tão ricos e têm condições de se afirmarem como potência africana?Não. Porque a maior riqueza de um país é o conhecimento do seu povo. Conhecimento é poder. Conhecimento é riqueza. Conhecimento é desenvolvimento. Por isso, só dominam, enriquecem e se desenvolvem os países que investem no seu povo e apostam no conhecimento cultural, científico e tecnológico dos seus cidadãos.

Os Filósofos e estudiosos do conhecimento dividem o saber humano em 3 formas:

Em primeiro lugar, temos o saber-puro. O conhecimento geral e abstracto do mundo que nos rodeia. O conhecimento que procura saber como as coisas são e como se relacionam. Os gregos designavam esse saber por sofia (σoφíα)e os romanos por sapientia. Assim, só dominam, enriquecem e se desenvolvem os países que apostam maciçamente na educação de todo o seu povo e proporciona-lhes todas as condições para se valorizarem continuamente e irem até aos limites das suas capacidades.

Depois temos o saber-agir. Trata-se de um conhecimento prático que se baseia na ética e nos valores universalmente aceites. É aquele saber que se apoia no conhecimento do justo e do injusto. Do bem e do mal. Enfim, é um saber que nos leva a discernir e escolher os meios mais adequados para realizar o bem, concretizar um projecto e atingir um objectivo. Os gregos designavam esse saber por frónesis (Φρόνησις) e os romanos por prudentia. Assim, só dominam, enriquecem e se desenvolvem os países cujos cidadãos no seu relacionamento com o Estado, com a sociedade e com os outros se baseia em em sólidos valores éticos e morais moldados ao longo dos anos pela educação e pela cultura. Eis os principais valores: grande respeito pelas leis do País e pelos direitos dos outros; a integridade e a responsabilidade em todas as áreas da sociedade; disciplina a dedicação ao trabalho; cultura financeira e esforço pela poupança e investimento.

Finalmente, temos o saber-fazer. Os gregos denominavam esse saber por tekné (τέχνη) e os romanos por ars, artis. É um saber realizável. Um conhecimento que se baseia na aptidão criativa das pessoas, no domínio das tecnologias e a na capacidade de transformar as matérias-primas. Segundo um artigo da wikipédia «A tekné grega, bem como a ars latina referiam-se não só a uma habilidade, a um saber fazer, a uma espécie de conhecimento técnico, mas também ao trabalho, à profissão, ao desempenho de uma tarefa. O técnico era aquele que executava um trabalho, fazendo-o com uma espécie de perfeição ou estilo, em virtude de possuir o conhecimento e a compreensão dos princípios envolvidos no desempenho». Disto resulta que só dominam, enriquecem e se desenvolvem os países que investem no conhecimento tecnológico e possuem as técnicas e os meios necessários à execução de uma tarefa.

Perante isto, é fácil concluirmos que Angola nunca foi rica para os angolanos. Primeiro, por culpa dos colonialistas que durante 500 anos afastaram os nativos de Angola do pleno e livre acesso aos lugares de aquisição do conhecimento cultural, científico e tecnológico. Depois, por culpa exclusiva dos dirigentes angolanos que não querem investir no seu povo nem apostam no conhecimento cultural, científico e tecnológico dos seus cidadãos.

E o pior de tudo isso é que, mediante complicados sistemas de justificação, teimamos em sustentar um poderoso sistema político-militar absolutamente empenhado em preservar o estado de ignorância e facilitar o enriquecimento pessoal daqueles que, há mais de 30 anos, ajudam os estrangeiros no saque organizado e inteligente dos nossos recursos.

Portanto, Angola está muito longe de ser rica para os angolanos porque existe entre nós uma espécie de «obscurantismo económico», ou seja, não temos consciência do real valor das nossas riquezas. Desconhecemos o enorme potencial do nosso país na economia mundial. Ignoramos as regras do mercado mundial. Não sabemos tirar partido das nossas riquezas nas negociações e nos acordos de cooperação. Desconhecemos por completo as técnicas de transformação e rentabilização das nossas matérias-primas. Enfim, reina entre nós uma cíclica e crónica crise de conhecimento.

É por isso que Angola é um país rico e maravilhoso para o poderoso grupo de países que conhecem o real valor dos nossos recursos naturais (saber-puro), sabem como agir para ter acesso fácil e contínuo às nossas riquezas (saber-agir) e têm a capacidade, a técnica e os instrumentos susceptíveis de transformar e valorizar preciosas as matérias-primas que tiram de Angola (saber-fazer).

Assim, os estrangeiros que estão a correr em massa para Angola sabem que a sobrevivência da economia dos seus países e a contínua prosperidade dos seus povos dependem em grande parte das preciosas matérias-primas existentes em Angola. E tirando partido do nosso «obscurantismo económico», há décadas que sabem que para não perderem a preciosa galinha de ouro não podem falar mal de Angola nem questionar a notória incompetência dos seus políticos; sabem que é obrigatório bajular os dirigentes do país e proporcionar à elite político-militar de Angola uma pequena fasquia dos fabulosos lucros do saque organizado e inteligente dos recursos de Angola.

Um exemplo prático do nosso «obscurantismo económico»: Quem vive no Lubango (Ex- Sá da Bandeira), todos os dias vê colunas de camiões a levarem grandes blocos de pedras para o porto do Namibe (Ex- Moçamedes) para serem enviados para a Europa. Somos um país pobre porque desconhecemos o real valor daquelas pedras que os europeus tanto procuram. Por isso, vivemos contentes com as ilusórias comissões e os baixos salários que as empresas extractivas pagam aos angolanos.

Pedreira de Granito Negro no Lubango-Huila-Angola

Ricos são os europeus que nos pagam um dinheirinho pelas nossas valiosíssimas pedras de granito negro, levam-nas para a Europa e vendem-nas aos seus irmãos da industria de granitos e mármore que sabem transformá-las em placas polidas.



Ricos são os europeus que vendem essas valiosas placas em granito negro aos seus irmãos da indústria de construção civil que usam as placas polidas nos acabamentos de vivendas e edifícios de luxo. Muito ricos ficam os construtores e os agentes imobiliários que vendem os imóveis de luxo da próspera Europa, pomposamente ornamentados com o valiosíssimo granito negro de Angola.













José Maria Huambo
Semanário Folha 8

















segunda-feira, 7 de junho de 2010

Porque é Que os Dirigentes não Conseguem Pôr Luanda em Ordem?

O caótico e degradante estado da cidade de Luanda apresenta-se como o microcosmo exemplar das enormes dificuldades que os angolanos enfrentam na condução do seu destino colectivo. Trata-se, afinal, de um problema cultural e que já dura há 500 anos.

Para ajudar-nos a analisar as causas e consequências dos problemas de Luanda, escolhemos esta fotografia da bela Avenida dos Combatentes, exemplo vivo de como era a capital do país antes da independência.

A projecção, ordenamento, construção, organização, gestão e administração de uma cidade obedecem a técnicas e regras inventadas, desenvolvidas e melhoradas pelo génio humano e brilhante trabalho de várias civilizações e que os europeus levaram para os novos mundos de que África fazia parte.
Assim, fascinados pelos hábitos e pelos aspectos materiais da vida que os europeus exibiam, os nativos de Angola começaram a alimentar o desejo de serem como os colonos: falar como eles, conviver com eles e aprender com eles.

Esse desejo de absorver os hábitos e as técnicas dos colonos fazia parte de um processo normal de evolução que os humanos sempre praticaram.

Por exemplo: os gregos evoluíram convivendo e absorvendo as técnicas e a sabedoria dos antepassados que foram adaptadas, melhoradas e transmitidas pelos fenícios e egípcios. Os gregos transmitiram essas técnicas aos romanos. Estes adoptaram-nas, melhoraram-nas e transmitiram ao cristianismo. A civilização cristã absorveu e melhorou as velhas técnicas que herdou dos romanos e as transmitiu aos europeus. Estes pegaram nas técnicas que compõem o vasto património cultural da humanidade e levaram para África.

E seria, por isso, natural que os africanos quisessem evoluir convivendo e absorvendo as técnicas e a sabedoria da civilização europeia. Mas tal não aconteceu. Porque os colonos, mediante complicados e sofisticados sistemas de justificação, afastaram os africanos dos centros de aprendizagem das técnicas de planeamento, urbanização, construção, gestão, administração e conservação de uma cidade.

Assim, em 500 anos de presença portuguesa nenhum negro de Angola chegou a ser presidente da Câmara de Luanda ou director dos grandes departamentos da Câmara. Enfim, nenhum indígena chegou a marcar presença nos lugares cimeiros de gestão e administração da cidade.

Isto foi fatal para a Angola independente. Porque os dirigentes que passaram a administrar a cidade capital faziam parte do grupo de guerrilheiros que nada percebia de projecção, planificação, urbanização e gestão de uma urbe como Luanda.

Vejamos o que disse o Presidente Eduardo dos Santos nos inícios dos anos 80 durante um comício no Lubango:

Nos primeiros anos da nossa independência nós fomos promovendo compatriotas e camaradas para muitos postos de direcção e de responsabilidade, muitas vezes sem o conhecimento técnico exigido, sem o conhecimento técnico necessário (..) Promovemos apressadamente alguns operários para a direcção de empresas, para a direcção de alguns serviços públicos e nem sempre eles tinham a capacidade técnica para resolver os problemas.

Mas o pior não é isso. O mais grave é que há 30 anos que o Presidente insiste em promover e nomear Comissários e Governadores notoriamente incompetentes e que implantaram nas estruturas do Governo Provincial de Luanda um poderoso sistema circulatório de péssimos hábitos de planificação, gestão, administração e conservação da cidade capital.

E o mau hábito dos dirigentes procurarem a solução privada dos problemas que afectam a cidade de Luanda é, de longe, aquele que mais se destaca. Assim e seguindo os maus exemplos dos nossos dirigentes, cada um de nós procurou apenas criar e desenvolver a sua «própria Luanda»: Demarcamos o nosso território. Escolhemos os nossos cidadãos. Erguemos a nossa própria rede de fornecimento de luz eléctrica e de abastecimento de água e passamos a cuidar apenas da nossa casa ou apartamento.

E levados pela exclusiva procura do nosso próprio bem-estar, desenvolvemos uma impressionante indiferença pelas condições da Luanda dos amigos, dos colegas, dos vizinhos, dos conterrâneos e de todos os angolanos.

Por causa disto, a Avenida dos combatentes, que era um dos orgulhos dos luandenses, transformou-se nesta dolorosa imagem de caos, degradação e desorganização:

O lastimável estado desta importante artéria da capital faz parte do vergonhoso património de inúmeros problemas que afligem a cidade de Luanda. Trata-se de situações que afectam, gravemente, a qualidade de vida dos luandenses, a imagem de Luanda e o bom nome de Angola.

E ninguém consegue pôr Luanda em ordem porque os graves problemas foram politizados. Assim, são tidos como apoiantes do Governo, bons cidadãos e luandenses exemplares aqueles que viverem indiferentes à miséria, ao caos e à degradação da cidade. E os conscientes cidadãos que ousarem chamar a atenção dos constrangedores problemas de Luanda são tidos como detestáveis apoiantes da oposição, fracos patriotas e maus luandenses.

Por isso, os problemas se arrastam e Luanda continua mergulhada no caos e a definhar numa vergonhosa degradação.

José Maria Huambo

quinta-feira, 25 de março de 2010

Os Velhos Problemas de Angola

Em 1937, há exactamente 73 anos, HENRIQUE GALVÃO Fez esta douta análise da problemática da Angola de então:

"Afirmam uns que o problema de Angola, é um problema financeiro enquanto outros asseguram que é antes um problema económico. Há quem sustente que é puramente um problema político e quem conclua que não passa de um problema de povoamento (...) Nós julgamos que em Angola existem, simultaneamente, todos estes problemas e que todos eles pedem com a mesma urgência soluções práticas. Não há pois um problema: há um conjunto de problemas, estreitamente dependentes no seu desenvolvimento e nas suas soluções, em Angola como em toda a parte- e em Angola, mais do que em qualquer outra parte, agravados pelos efeitos dum período longo e doloroso de incertezas, de fracassos, de fatalidades, de erros, de pecados, de tentativas mal começadas e naturalmente pior acabadas, de improvisações, de obras mal estudadas, etc.".

Fonte: HENRIQUE GALVÃO, Angola: Para Uma Nova Política, Vol. I, Livraria Popular, Lisboa 1937, pp. 57-58.

Henrique Galvão (1895-1970) teve uma actividade política intensa. Foi Governador da Huila (sul de Angola) em 1929. Em Março de 1949 publica um incómodo relatório sobre as condições da colonização em Angola. Em 1961, lidera o assalto ao paquete de luxo Santa Maria.

terça-feira, 16 de março de 2010

Angola Já Nasceu Mal Governada

Sob os auspícios do Governo português, realizou-se, entre 10 e 15 de Janeiro de 1975, a denominada Cimeira de Alvor, durante a qual foi rubricado um acordo de entendimento entre os três movimentos de Libertação e ficaram definidos os processos e mecanismos que conduziriam a completa autonomia de Angola. O jornal A Província de Angola abriu a sua edição de 16 de Janeiro com o título «INDEPENDÊNCIA A 11 DE NOVEMBRO. Angola governada por angolanos a partir de 31 de Janeiro».

No último dia de Janeiro tomava posse o Governo de Transição composto por representantes de Portugal e dos três movimentos de libertação (MPLA, UNITA e FNLA).

Ao Governo Português cabia nomear os ministros da Economia, das Obras Públicas, Habitação e Urbanismo e dos Transportes e Comunicações.

O Dr. Vasco Vieira de Almeida foi o homem escolhido para assumir a pasta da Economia. Quatro meses depois da tomada de posse do Governo e perante a acelerada deterioração do ambiente sociopolítico de Angola, ele enviou uma histórica carta ao Governo de Transição de Angola e aos líderes dos Três movimentos.

Eis a carta que prova que mais do que a dura guerra «que nos foi imposta», a má governação, caracterizada essencialmente pela falta de capacidade de gestão economico-administrativa e de uma vontade política madura, consciente e responsável por parte dos nossos dirigentes é a grande responsável pela longa estagnação nosso promissor país:

Durante breve lapso de tempo após a minha chegada a Angola, julguei possível contribuir para consolidar e reforçar a plataforma de entendimento a que aparentemente se chegara em Alvor. Vejo agora que tal é impossível e entendo dever tomar a atitude que livremente considero mais justa. A hora é tão grave que não é legítimo falar senão com clareza (...)

Estava perfeitamente consciente, como é óbvio, das diferenças ideológicas profundas entre os movimentos, mas tinha a esperança de que- sem que ninguém abdicasse das suas próprias convicções- seria possível encontrarmos em comum fórmulas de actuação que visassem reconquistar para os oprimidos e explorados deste país, a dignidade perdida.

Surgiu-me, como evidente, que numa terra com tão graves injustiças e tão terríveis desigualdades, era necessária uma profunda reforma das estruturas sociais, e que a luta de classes entre os estratos de interesses tão violentamente opostos, constituiria desde o início, um elemento fundamental do processo (...)

Não contava porém com a miopia política daqueles que, não contentes em precipitar o conflito no tempo, provocaram uma luta militar suicida de que a única vítima é o povo que também dizem representar, correndo o risco de aniquilar à partida o projecto pelo qual tantos se bateram e morreram durante catorze anos de luta contra compatriotas meus (...)

A verdade é que neste momento quem abate milhares de velhos, mulheres e crianças em todos os pontos do país, são angolanos. São angolanos também, aqueles que executam irmãos seus, com uma selvajaria indescritível. São ainda angolanos que espalham a fome, o terror, a violência e o pânico em todo o território.

E que fez o governo durante este período? Praticamente nada, excepto revelar a sua absoluta incapacidade e irresponsabilidade. O governo (...) não funciona como corpo organizado. Limita-se por isso a ser a arena estéril de debates intermináveis, onde todos os problemas de administração são cuidadosamente escamoteados. É impossível impor o menor plano de acção, porque cada um pretende ter o seu feudo privativo onde ridiculamente possa dar importância à sua própria imagem.

Uma boa parte dos governantes é totalmente incompetente, mas nem sequer disso tem consciência, perdendo o seu tempo em escaramuças caricatas para obtenção de miniprestígios de fachada. As decisões não se tomam; e quando se tomam não se cumprem. Reina a mais completa indisciplina (...)

Em reflexos primários de nacionalismo mal entendido, destroem-se ingénua ou propositadamente as próprias estruturas vitais do país, com a ideia de que com o que sobra dos escombros será possível reconstruir de novo, sem se pensar nos tremendos custos sociais e nos terríveis sacrifícios e sofrimentos humanos que esse caminho fatalmente impõe, não se atendendo sequer na dramática experiência de outros países de África antes de Angola.

Apelida-se Portugal e o Governo Português (...) de neocolonialistas, quando quem está a preparar o país para novas formas de colonialismo- não certamente português, e bem mais duro ainda- são alguns angolanos pela maneira como actuam (...)

Enquanto estiver neste cargo, que não pedi, cabe-me apontar a prepotência e a incapacidade venham de onde vierem, e tenho o dever único de defender os superiores interesses da Nação Independente que Angola quer ser (...)".

Fonte: VALDEMIRO DE SOUSA, Angola: A Guerra e o Crime, Ed. Formação, s/l 1976, pp. 140-144.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Contra os Adeptos e Torcedores da Paz Definitiva!

“Ninguém se iluda de que a simples ausência de guerra, apesar de tão desejada, seja sinónimo de paz duradoura. Não há paz verdadeira, sem equidade, verdade, justiça e solidariedade. Está destinado à falência qualquer projecto que deixe separados dois direitos indivisíveis: o direito à paz e o direito a um progresso integral e solidário. As injustiças, as excessivas desigualdades de ordem económica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que grassam entre os homens, são uma constante ameaça à paz e provocam as guerras”.
PAPA JOÃO PAULO II


Caros defensores da Paz definitiva.
Nesta fase em que precisamos de aprender as lições da maldita guerra e «inventarmos», juntos, um modelo de Estado que seja capaz de unir e conciliar os angolanos, corrigir as profundas desigualdades socioeconómicas, tornar menos sensíveis e menos virulentas as inevitáveis conflitualidades e limpar fermentos da guerra, não há nada mais perigoso do que a vossa inabalável convicção de que a paz tornou-se, entre nós, irreversível e absolutamente consolidada. Não há nada mais prejudicial do que a vossa absoluta certeza de que estamos definitivamente reconciliados, cada vez mais unidos e prontos a trilhar os caminhos do progresso e do bem-estar social. Para vocês, a guerra que nos desgraçou foi um acidente de percurso, um fenómeno excepcional que jamais voltará a ensombrar as nossas vidas!

Caros adeptos e torcedores da Paz definitiva! A meu ver, o vosso grande problema reside no facto de proclamarem a vossa tão gabada paz definitiva partindo da errada ideia de que Angola é uma realidade política especial e isolada do resto do mundo. Por isso, não querem saber das lições da história. Não querem ouvir os conselhos dos experientes nem aprender com os longos erros da humanidade.

Caros torcedores da Paz definitiva! Mas vocês acham mesmo que é de agora e só aconteceu em Angola a existência de 3 líderes que disputavam o poder absoluto?
Vocês acham bom fiar-se na crença de que Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi só guerrearam entre si e nunca se entenderam por causa dos obscuros interesses das potências que sempre cobiçaram as riquezas de Angola?
Vocês julgam que é novidade o estrondoso enriquecimento de Eduardo dos Santos?
Vocês pensam que a feroz e cruel disputa entre MPLA e UNITA e tudo o que aconteceu até a morte do Líder do Galo Negro é original e só aconteceu em Angola?
Vocês acreditam mesmo que as causas do longo conflito estão definitivamente enterradas no túmulo de Jonas Savimbi?

Pois é, fazem mal pensarem assim! É que não há nenhuma novidade em tudo o que temos visto em Angola.

Muito antes de Jesus Cristo ter nascido, já um sábio tinha escrito: «O que foi ainda será. O que foi feito far-se-á. Não há nada de novo debaixo do sol. Ninguém pode dizer “eis, aqui está uma coisa nova” porque ela já existia nos tempos passados» (ECLESIASTES 1, 9-10).

Para reforçar estes argumentos, quero partilhar convosco um texto bíblico extraído do livro de DANIEL e escrito há mais de 2000 anos. No texto, o Profeta Daniel pressagia a derrocada e divisão do vasto Império Persa.

A Pérsia, sobretudo na fase denominada Aqueménida (648 a.C.-330 a.C.) foi o maior, o mais rico e o mais poderoso império do mundo de então. Era uma espécie de EUA da época. Contudo, as ambições, as injustiças, a ganância, a incompetência e profundas rivalidades dos governantes de então contribuíram para o surgimento de longas e mortíferas disputas que enfraqueceram e dividiram o império e precipitaram a sua derrocada.

Eis, então, o texto de DANIEL (DAN 11, 1-45):

“Haverá na Pérsia ainda três reis. O quarto ultrapassará em riqueza todos os outros. (...)
O rei do sul tornar-se-á valoroso (...) e depois evitará atacar o rei do norte durante alguns anos. Entretanto, os filhos do rei do norte prepararão a guerra, reunindo grande multidão de tropas, que, espalhando-se qual torrente, invadirá, reaparecerá e levará as hostilidades até a fortaleza dele.

Irritado, o rei do sul sairá para atacar o rei do norte. Como ele, porá em pé de guerra um numeroso exército, e as tropas inimigas lhe serão entregues. Após o aniquilamento destas tropas, inchará de orgulho. Matará dezenas de milhares, sem que com isso se torne mais forte.

O rei do norte, convocará novamente um exército mais numeroso ainda que o primeiro e, alguns anos depois, avançará no meio de extensas tropas e de uma grande comitiva.
Por esta ocasião, muitos povos se levantarão contra o rei do sul e homens impetuosos hão-de surgir dentre o teu povo, para cumprir a visão, mas serão mal sucedidos.

Virá então o rei do norte, levantará trincheiras e apoderar-se-á de uma cidade bem fortificada. Nem os exércitos do rei do sul, nem mesmo as suas hostes de escol, o deterão; não haverá força que lhe resista. O invasor procederá conforme quiser, sem que alguém lhe possa fazer frente (...) À frente de um grande exército contra o rei do sul, dará novo impulso às suas forças e coragem.

Por sua vez o rei do sul envolver-se-á na luta com um exército numeroso e muito forte, mas não poderá resistir em virtude das conjuras maquinadas contra ele. Os que com ele comem finas iguarias o hão-de arruinar, debandará o exército e muitos homens cairão feridos de morte (…)

Então chegará o termo da sua vida e ninguém lhe prestará auxílio”.



José Maria Huambo