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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Alguém Conhece Um Edifício Construído nos Anos 80 Pelo Ministério da Construção e Habitação?


O pessoal da minha geração vive, absolutamente, maravilhado com a nova faceta de Angola. Edifícios belos e moderníssimos. Estradas asfaltadas. Passeios novos. Ruas limpas e iluminadas. Jardins fantásticos com fontes luminosas.

Para essa geração que cresceu nas privações da guerra e do socialismo, essa nova e deslumbrante faceta de Angola é a prova categórica do enorme esforço do «Governo» e da grande capacidade dos nossos governantes.

Isto fez-me lembrar a primeira vez que saí de Angola para Portugal. Era a última semana do mês de Outubro de 1991. Tínhamos acabado de sair do penoso socialismo e estávamos sob os inebriantes efeitos do processo de paz e reconciliação saído dos acordos de Bicesse. Naquela altura, Portugal era um mundo novo para mim. Rendi-me, rapidamente, às fantásticas paisagens urbanas e às inúmeras ofertas do consumismo capitalista. Todos os bens de consumo que, nos duros anos do socialismo, achávamos inalcançáveis estavam ali expostos em grandes quantidades.

Queria partilhar as maravilhas que passei a ver todos os dias e impressionar o pessoal que ficou em Angola. Por isso, comprei uma máquina fotográfica Kodak e comecei a fotografar montras das lojas, hipermercados, ruas, jardins, edifícios, etc. Reuni um bom número de álbuns e entreguei-os a um portador que regressava a Angola.

Absolutamente convencido dos estragos que aquelas fotos iriam causar, esperei pela resposta dos meus familiares e amigos. Passado algum tempo, comecei a receber as tão esperadas cartas. Os meus irmãos, primos e amigos ficaram, naturalmente, maravilhados. Mas a minha mãe e os meus tios não!

Para minha grande surpresa, eles não acharam nenhuma novidade nos temas das fotografias que receberam. Antes pelo contrário: as suas cartas transmitiam uma dolorosa nostalgia da Angola do tempo deles. Minha mãe: «Filho, as montras que fotografaste fizeram-me lembrar as lojas de Nova Lisboa. Fizeram-me reviver os bons tempos em que andávamos de loja em loja a fazer compras». Minha tia: «Zezinho, a mana mostrou-me as fotos que mandaste. As fotos das ruas iluminadas e enfeitadas para o Natal fizeram-me lembrar as ruas do Huambo do nosso tempo. Eu adorava admirar aquele maravilhoso colorido nocturno. Ai que saudades!». Meu tio que já era um importante quadro da administração pública: «Zezinho, já vi as fotos que mandaste. Gostei, sobretudo, das fotos do Hipermercado de Braga. Fez-me lembrar o Pão de açúcar de Luanda. Aquilo era fantástico». Outro meu tio: «Zé, eu vi as fotos que mandaste para a mana. Fiquei com uma das fotos do magnífico jardim com a fonte luminosa. É para matar as saudades do tempo da nossa mocidade quando íamos com as namoradas aos jardins e tirávamos fotografias nas fontes luminosas do Huambo e do Lubango».

Fiquei chocado! Afinal, tudo o que, em 1991/92, eu estava a admirar em Portugal já havia em Angola?! Nos princípios dos anos 70 Luanda já tinha um grande hipermercado?! O Huambo já tinha lojas iguais as que admirei em Lisboa, Porto e Braga?! As cidades de Angola já eram limpas e organizadas, já tinham magníficos jardins e belas fontes luminosas e já eram tão bem iluminadas como as cidades de Portugal?!

Custou-me acreditar. Por mais que tentasse, não conseguia imaginar uma Angola como a que a minha mãe e os meus tios descreveram! Porque cresci a ver lojas com montras vazias e gradeadas. Acostumei-me a viver em cidades sujas, desorganizadas e constantemente sem luz. Habituei-me a conviver com ruas esburacadas, prédios degradados, jardins maltratados e fontes destruídas e a sem água.

Parti, então, em busca desta Angola maravilhosa que os nossos mais velhos conheceram. Devorei os livros com imagens da Angola dos meus kotas. E a internet dizimou todas as minhas dúvidas: As cidades e vilas de Angola eram modernas e magníficas.

O pessoal da minha geração pode conhecer Angola do tempo dos nossos pais e tios clicando neste link: http://www.sanzalangola.com/galeria/cidades.

Este regresso a Angola dos nossos kotas deixou-me indignado. É que passamos toda a nossa infância e adolescência a ouvir falar do mega projecto de Reconstrução Nacional. Os dirigentes socialistas diziam estar a reconstruir uma Angola que os colonialistas não souberam erguer. Tínhamos o Ministério da Construção e Habitação. Sempre tivemos Ministros, Vice-Ministros, Delegados Provinciais e vários funcionários que todos os dias iam trabalhar para os seus gabinetes e postos de serviço. Importamos imensa maquinaria pesada ligada ao sector da construção e engenharia civis. Enfim, o Estado gastou imenso dinheiro a sustentar o dito projecto de Reconstrução Nacional.

Mas, afinal, fomos sempre mantidos no obscurantismo e a tão falada Reconstrução Nacional não passou de um vistoso aparato da propaganda ao serviço de um grupo de incompetentes astutamente mascarados de socialistas. Porque eu não me lembro de ver um único edifício erguido pelo Ministério da Construção e Habitação. Não me lembro de ver qualquer obra concebida e projectada pelos técnicos do Ministério. Pode ser que esteja a ser injusto. Mas nas cidades onde vivi (Huambo e Lubango) não me lembro de ter visto uma obra nova. No Lubango, em finais dos anos 80, vi os soviéticos a acabarem de construir um desses prédios que os colonos deixaram. Vi os Jugoslavos a asfaltarem algumas ruas da cidade. Só isso e nada mais!

Os dirigentes socialistas não acrescentaram em nada ao património urbanístico e cultural da cidade do Lubango que nunca esteve em Guerra. Não edificaram casas, não fizeram nem conservaram as ruas e sempre ignoraram a importância urbana de um simples jardim ou de uma rua bem iluminada.
Vejamos, por exemplo, o estado deplorável desta rua do Lubango (antiga cidade de Sá da bandeira) fotografada por Nelson Viegas no dia 18 de Fevereiro de... 2007.
Antes da independência esta rua chama-se Capelo Ivens. Depois passou a chamar-se Deolinda Rodrigues. Esta rua está uma vergonha! Lubango foi uma cidade que nunca esteve na rota dos grandes palcos da maldita guerra. O que andaram a fazer os Comissários e Governadores Provinciais nos últimos 30 anos?

Esta fotografia é o fiel retrato do vergonhoso estado da bela Angola que herdamos dos «colonialistas portugueses» e que não soubemos conservar e melhorar. E a nova Angola que está a maravilhar o pessoal da minha geração não é nossa. É uma Angola projectada e construída pelos estrangeiros e que, de certeza, não conseguiremos conservar….

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Estamos a Contribuir Para a Reconstrução do Colonialismo

Nasci em 1972. A proclamação da Independência de Angola apanhou-me na inocência dos meus 3 anos. Portanto, não vivi o colonialismo nem tenho a exacta noção de como era Angola portuguesa. Comecei a escola primária na mesma semana da morte de Agostinho Neto. Estávamos em plena época de politização das massas populares, da eliminação de todas as sequelas do colonialismo, da formação do homem novo e do rumo ao socialismo científico. Por isso, passei grande parte da minha infância em comícios e em sessões de politização e esclarecimento.

Lembro-me que o tema preferido dos politizadores da época era denegrir o sistema colonial português. Para eles, todos os problemas da Angola Independente existiam por exclusiva culpa dos colonialistas. Assim, em toda a minha caminhada escolar ensinaram-me a odiar os colonialistas portugueses e o seu sistema de exploração, de humilhação e de exclusão dos filhos de Angola.

Mas naquele tempo éramos pioneiros da OPA. Éramos crianças e pensávamos como crianças. Por isso, acreditávamos piamente na diabolização do colonialismo português e na capacidade dos angolanos construírem uma Angola unida, justa e muito próspera.

Agora que somos adultos está claro para nós que passamos a nossa infância a ser enganados pela propaganda do regime dominante. Porque o sistema colonial continua vivo e eficaz. Os colonialistas nunca chegaram a abandonar Angola. Estão apenas mais escuros dos que outros.

Porque os «libertadores» que combateram arduamente o colonialismo português, odiavam o imperialismo com todas as suas forças e estavam na primeira linha do obcecado combate contra «o neocolonialismo», tornaram-se, rapidamente, nos novos «colonos» da Angola «independente» e tiveram o descaramento de manter incólumes e inalteráveis os vícios sociais bem como o quadro discriminatório, opressivo e explorador do sistema colonial português.

Portanto, nunca houve, entre nós, um verdadeiro processo de descolonização das mentalidades, das consciências, dos hábitos sociais, das estruturas políticas, administrativas e económicas. Nunca fomos capazes de erguer, com a preciosa ajuda dos estrangeiros de boa vontade, uma Angola de angolanos, com angolanos e para os angolanos.

E mesmo nesta fase propícia que o nosso país atravessa, não temos feito algo de extraordinário pelos nossos e pela terra que muito amamos. Estamos todos a desperdiçar energias, talentos e conhecimentos na reconstrução e rejuvenescimento do velho sistema que sempre marginalizou, desvalorizou e prejudicou os filhos de Angola.

E custa-nos contemplar esta reconstrução maciça do colonialismo que aprendemos a odiar e a combater. É que tanta energia foi dispendida para expulsar da «nossa terra» os «exploradores colonialistas». Tantos filhos de Angola foram torturados, mutilados e barbaramente ceifados em nome de uma suposta luta contra o «neocolonialismo», contra a «neocolonização russo-cubana» e em nome de um pretenso combate para impedir que o «nosso» país fosse dominado pelo «imperialismo internacional e seus lacaios». Depois do 25 de Abril de 1974 inúmeros brancos nascidos ou radicados em Angola foram «saneados» em nome de uma suposta «africanização dos quadros». Gerou-se tanta polémica em torno do destino jurídico dos «colonos». Falou-se bastante da questão da nacionalidade angolana dos brancos.

Mas, quase 35 anos depois da nossa pretensa «independência» dolorosamente constatamos que continuamos a sobreviver numa terra dominada por uma poderosíssima minoria estrangeira e que afinal tudo não passou de um patriotismo mal envernizado e de uma gritante hipocrisia de alguns ambiciosos astutamente mascarados de nacionalistas.

Assim, como não houve descolonização, continuamos a ser dominados por um profundo complexo de inferioridade que nos leva a endeusar o estrangeiro e a uma sobrevalorizar tudo o que vem do exterior.

Como não houve descolonização, continuamos a sobrevalorizar tudo o que é produzido e consumido no estrangeiro. Por isso, preferimos esbanjar o nosso dinheiro no Estrangeiro. Só que esse nosso comportamento de gente complexada está a atrasar Angola. Esta nossa vaidade está desvalorizar e a prejudicar os angolanos. Porque com o imenso dinheiro que esbanjamos na África do Sul, Namíbia, Brasil, Dubai e nos principais países da Europa estamos a fortalecer as economias e a enriquecer os habitantes desses países. Assim, cada vez que vamos a Lisboa esbanjar dinheiro nas lojas do Rossio ou do Colombo estamos na verdade a fortalecer a economia portuguesa e a enriquecer os comerciantes de Lisboa. Enfim, estamos a contribuir financeiramente para que o estado português continue a ter muitas receitas que irão contribuir para que os seus cidadãos possam ter boa vida; viver mais tempo; aumentar os seus conhecimentos.

Como não houve descolonização, os nossos dirigentes e os nossos ricos continuam indiferentes ao desumano estado da saúde nacional e persistem no sustento de uma rede privada de cuidados de saúde. Por isso, preferem arrancar o dente na África do Sul, fazer análises no Brasil e frequentarem as clínicas de Portugal, Espanha e Inglaterra para serem bem cuidados e aumentarem mais uns anos de vida.

É que com essas atitudes estão a contribuir para o atraso do País e para a perpetuação do sistema colonial. Porque não estão a acreditar nas capacidades dos angolanos. Estão a passar um enorme e bem vistoso atestado de incompetência aos seus compatriotas que estudaram enfermagem e medicina. Estão a dizer ao mundo que os angolanos não sabem governar-se e não têm capacidade de criar condições para que possam ser tratados com humanismo e dignidade em Angola, em Hospitais angolanos e por médicos angolanos. Estão a negar aos compatriotas que não têm possibilidades de irem tratar-se nas clínicas do estrangeiro o direito de receberem a assistência médica e medicamentosa que merecem para poderem usufruir de uma vida longa e saudável.

O pior de tudo é que o imenso dinheiro que os angolanos deixam nas clínicas privadas da Namíbia, África do Sul, Brasil, Portugal, França Espanha e Inglaterra estão a enriquecer os gestores, os administradores, os médicos, os enfermeiros e outro pessoal dessas clínicas. O imenso dinheiro de Angola está a fortalecer a economia e o sistema de saúde desses países. Enfim, os angolanos estão a contribuir financeiramente para que os dirigentes desses países continuem a proporcionar aos seus cidadãos uma vida longa, feliz e saudável.


José Maria Huambo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

CHEIOS DE NADA!

Martin Luther King sentenciou um dia que nada no mundo era mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez consciente. Infelizmente, alguns quadros da minha geração que são altos funcionários do Estado e das grandes empresas públicas e privadas estão cada vez mais a exibir publicamente esses dois vícios duramente censurados por Luther King.

É que os citados quadros vivem absolutamente convencidos de que só eles é que estão a fazer algo realmente importante para o tão desejado desenvolvimento de Angola. Os outros que não têm a sorte de usufruírem dos cargos, privilégios e ordenados iguais aos seus não passam de uns frustrados da vida que só falam, escrevem, criticam e nada fazem de concreto pelo País.

Para estes jovens e promissores quadros, Angola está definitivamente bem. O país cresceu mais rápido do que os outros alguma vez cresceram e não há nenhum problema dos angolanos que o nosso esforçadíssimo governo não esteja a resolver de forma segura e clarividente. Por isso, julgam que questionar, hoje, o rumo do País e insistir nas críticas ao esforçado governo de Eduardo dos Santos não passa de uma velha paranóia de alguns frustrados que apenas escrevem, criticam e berram para chamar atenção e mendigar uns tachos.

Para este grupo de jovens bem sucedidos, o desenvolvimento de Angola é algo fácil, simples e rápido, que só chegou tarde por causa da guerra que nos foi imposta pelo ambicioso líder do Galo Negro. E insistem em dar como certa a absoluta impossibilidade das armas voltarem a devastar as vidas dos angolanos.

Em 1754 o escritor e político inglês Horace Walpole criou e introduziu a palavra serendipidade (serendipity). Serendipidade é todo o acaso feliz e extraordinário que origina descobertas fantásticas.

O mundo está cheio de importantes serendipidades. Por exemplo: Colombo descobriu a América por um acaso. Fleming descobriu a penicilina por ter ido para casa sem fechar a janela do laboratório. Newton descobriu a lei da gravidade depois de ter visto uma maçã a cair ao chão.

O desenvolvimento de Angola não é uma serendipidade. Não é um acaso feliz e extraordinário surgido espontaneamente por força mágica da actual conjuntura da Paz e dos nossos tão falados recursos naturais. Há regras, atitudes e valores que devem ser, religiosamente, cumpridos pelos povos que desejam fazer a laboriosa caminhada do desenvolvimento.

Por isso, Angola não vai caminhar magicamente para o desenvolvimento apenas por força dos maquilhados discursos e da renovada imagem dos velhos responsáveis pela destruição e estagnação do País.

Angola não vai caminhar magicamente para o desenvolvimento apenas por causa dos elogios hipócritas e oportunistas de alguns políticos e empresários estrangeiros que detestam África e que apenas olham para Angola como uma terra de extraordinárias oportunidades de negócios.

Com a preciosa ajuda dos estrangeiros de boa vontade que tencionam viver, conviver e partilhar connosco as alegrias e tristezas das nossas vidas, o desenvolvimento de Angola terá de ser um projecto de angolanos, com angolanos e para angolanos.

Há um extracto de um discurso do ilustre estadista português Francisco Sá Carneiro (1934-1980) que eu gosto imenso:
«O homem é a nossa medida, nossa regra absoluta, nosso início e a nossa vida. Sem o absoluto respeito por ele não há nem pode haver democracia verdadeira»

Assim, o desenvolvimento terá de ser um frutuoso resultado um investimento sério, maciço e disciplinado nas pessoas, no capital humano de Angola. Porque é um facto longamente estudado, provado e comprovado que só prosperam os países que investem no seu povo e apostam no conhecimento cultural, científico e tecnológico dos seus cidadãos.

Por isso, não há nem pode haver desenvolvimento verdadeiro sem o absoluto respeito pelos angolanos. Por absoluto respeito entende-se que o bem-estar físico e espiritual do angolano tem de ser a única e exclusiva razão de todas as decisões políticas. O angolano deve ser cuidado, acarinhado, valorizado e protegido em todas as etapas da sua vida.

Nós os frustrados do costumes não andamos a «berrar» sem razão aparente. Estamos apenas a chamar atenção das pessoas responsáveis pelo nosso destino colectivo para as consequências negativas de um modelo de desenvolvimento que exclui, humilha, oprime e desvaloriza os angolanos.

Na verdade, os angolanos não precisam de ler ou ouvir os nossos desabafos públicos para terem plena consciência dos sérios problemas do país. Todos estão perfeitamente cientes dos enormes obstáculos que enfrentam nesta longa luta para saírem da miséria e usufruírem dos abundantes lucros das riquezas do País. O Povo sabe muito bem que vive numa sociedade cada vez mais injusta onde a pobreza absoluta da maioria convive lado a lado com a riqueza ostensiva de alguns.

Nós os frustrados do costume estamos, apenas, a abordar os crónicos problemas e a buscar soluções de forma sensata, académica e inteligente. O verdadeiro perigo reside no facto de as pessoas não terem muita pachorra para abordarem de forma académica, sensata e inteligente os crónicos problemas que as afectam e prejudicam. Por isso, preferem recorrer ao meio mais fácil: usar a violência e provocar tumultos para exteriorizarem as suas frustrações não ouvidas nem levadas à sério. É como disse Martin Luther King: «as rebeliões e os tumultos são a linguagem daqueles que ninguém entende».

Depois, e vendo bem as coisas, esses jovens quadros que se julgam os únicos a fazer algo realmente importante para o tão desejado desenvolvimento de Angola, na verdade, não estão a fazer nada de novo e extraordinário. Estão apenas a desperdiçar os seus talentos e conhecimentos na consolidação e rejuvenescimento de um velho estilo de governância que sempre marginalizou, desvalorizou e prejudicou os filhos de Angola.


José Maria Huambo

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Afinal, A Luta Continua!

A medida em que o ano 2002 vai ficando para atrás e as negras nuvens das cinzas da guerra se vão dissipando do espaço angolano, começa a ficar mais claro para nós que a Paz não está a trazer a reconciliação que os angolanos precisam nem a favorecer a construção da Angola que há muito sonhamos.

Com o alcance da tão desejada Paz esperávamos que tivesse chegado, finalmente, o grande momento nos unirmos e trabalharmos juntos na construção de uma nova Pátria e no derrube da velha Angola, construída sob as fundações das antigas divergências, alicerçada na intolerância racial, étnica, política e sociocultural, e cimentada na desastrosa gestão dos nossos recursos humanos e naturais.

Mas, fomos redondamente enganados. Aquilo a que nos habituamos a chamar «processo de paz e reconciliação», afinal não tem passado da triunfante consagração absoluta de um poderoso grupo que teima em perpetuar as velhas lutas pelo predomínio absoluto de um só grupo (racial, político, étnico, religioso, etc.) que devastaram Angola e estagnaram o nosso promissor País.

Assim, a nossa amada e sofrida terra está agora refém do grupo vencedor do longo e doloroso conflito e que está determinadíssimo em consolidar a sua hegemonia e a gerir o país como se fosse sua propriedade privada.

O pior de tudo é que os angolanos indefesos estão a sobreviver completamente desamparados pela comunidade internacional. Porque, a dependência do petróleo deu ao poderoso grupo uma ascendência sobre a política externa dos Estados Unidos, da China, da França, da Inglaterra, da Rússia, do Japão, de Portugal e doutros antigos defensores acérrimos da Democracia e dos Direitos Humanos. Por isso, não há no mundo de hoje instituição divina ou humana capaz de travá-los, contrariá-los, questioná-los ou censurá-los.

Apesar de já não utilizar as mortíferas armas da guerra civil, o poderoso grupo continua a atacar os angolanos indefesos e a atentar, gravemente, contra a soberania nacional e integridade territorial. As armas, agora, são outras. São mais sofisticadas e muito inteligentes. Assim, para consolidar a sua hegemonia política arrancada a ferros e proteger os seus prósperos interesses económicos, o poderoso grupo continua a fazer ataques mortíferos e cirúrgicos contra os direitos dos cidadãos indefesos usando como poderosas armas as leis do país, os órgãos de soberania, o sistema judicial, as estruturas financeiras, a comunicação social e os órgãos de defesa e segurança nacional.

A gananciosa atitude deste grupo e a sua danosa gestão dos nossos recursos humanos e naturais estão a comprometer, seriamente, o futuro próspero e pacífico das gerações vindouras.


E quando as gerações vindouras olharem para atrás para perceberem as razões dos seus sofrimentos e julgarem os actos praticados no nosso presente ficarão muito tristes e decepcionados com o incompreensível silêncio dos angolanos bons, com a indiferença dos conformados com as suas vidinhas e com a passividade daqueles que podem, hoje, fazer alguma coisa para salvar o futuro da Angola.

E, assim, estamos todos a ajudar o poderoso grupo na irresponsável missão de comprometer seriamente o futuro próspero e pacífico das gerações vindouras. Andamos todos a evitar ter chatices e absolutamente concentrados nas nossas ambições egoístas e nos nossos interesses pessoais. Por isso, preferimos comprometer a sobrevivência da Angola do amanhã a perder as casas, os carros, os negócios e outras regalias que o regime dominante nos dá como se fossem grandes favores.

Porém, a grande verdade é que não adianta insistirmos em alimentar vãs grandezas e ilusórias vaidades. Não adianta andarmos em guerrilhas e aos empurrões por causa de futilidades e benesses efémeras. Porque estamos todos de passagem. Mais tempo, menos tempo acabaremos todos por deixar este abençoado pedaço de terra.

E mesmo que nos fiemos na presunçosa ilusão de vivermos por longos e felizes anos, não devemos esquecer que a vida dá muitas voltas. Os ricos e poderosos de hoje podem não ser os mandões de amanhã. Os privilegiados de hoje podem vir a ser os prejudicados de amanhã. Os filhos dos dirigentes da Angola de hoje podem não vir a ser os pais dos dirigentes da Angola do amanhã.

Por isso, em nome do futuro tranquilo dos nossos filhos, netos e bisnetos e em nome da salvaguarda do património que muitos conseguiram com muitos sacrifícios, temos de decidir, hoje, aqui e agora se é Angola que deve girar, continuamente, à volta do dos privados interesses do poderoso grupo de Eduardo dos Santos (zeducentrismo) ou é o país que deve estar em primeiro lugar fazendo com que os interesses dos grupos políticos, raciais, étnicos, económicos e religiosos devam girar à volta dos supremos interesses de Angola (angocentrismo)?

Temos de decidir, hoje, aqui e agora se queremos deixar para as gerações vindouras um País injusto onde a pobreza extrema esteja condenada a viver lado a lado com a riqueza ostensiva. Um país corrupto que promove o uso fraudulento do dinheiro público e onde os recursos destinados ao bem público sirvam para outros interesses de carácter privado ou mesmo criminoso.

Temos de decidir, hoje, aqui e agora se queremos deixar para as gerações vindouras um País onde continue a imperar a dominação de uns pelos outros e onde todos os poderes e todas as benesses permaneçam concentrados nas mãos duma só classe social, dum só partido político, duma só raça ou dum só grupo étnico.

Temos de decidir, hoje, aqui e agora se queremos deixar para as gerações vindouras um País intolerante onde os grupos dominantes se recusem a conviver com as nossas naturais diferenças e persigam, por todos os meios, os compatriotas que não comunguem das suas convicções políticas, ideológicas, religiosas e culturais nem partilhem das suas formas de ser angolano, de pensar o País e de viver a angolanidade.

Enfim, temos de decidir, hoje, aqui e agora se Angola é um feudo privado do grupo de Eduardo dos Santos ou se é uma comunidade política que pertence a todos os seus filhos.

Porque a escolha clara e decidida entre o «zeducentrismo» e o «angocentrismo» irá determinar o triunfo ou o fracasso do País reconciliado, pacífico, próspero e democrático que sempre sonhamos e que queremos deixar para os nossos netos e bisnetos.


José Maria Huambo

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Os Donos da Bola

NOTA: Este artigo foi escrito em finais de 2005 para ser publicado no Semanário Folha 8.
Por ter merecido um grande acolhimento, foi postado no blogue e publicado no portal Angonotícias em Junho de 2006.
Por continuar muito actual, decidi voltar a partilhá-lo convosco.
Aproveito esta oportunidade para enviar um enorme OBRIGADO a todos os angolanos e amigos de Angola que acompanham as minhas reflexões. Numa altura em que não é nada fácil exercitar a cidadania e questionar o rumo do País, é animador sentirmos o reconfortante apoio daqueles que nos querem bem!


Um homem esfomeado pensa antes de mais nada em satisfazer a sua fome. Venderá a sua liberdade e tudo mais para obter um pouco de comida”.
MAHATMA GANDHI

Quando trocamos direitos por favores, deixamos de ser livres”.
DANIEL OLIVEIRA
Semanário Expresso (Portugal), Agosto de 2008

Há, entre nós, uma generalizada desilusão motivada pela forma como a oposição política, as principais instituições civis e religiosas, as lideranças sindicais e alguns intelectuais proeminentes se submetem aos jogos, caprichos e desmandos do núcleo duro que detém o poder e domina a sociedade angolana.

Este triste fenómeno fez-me recuar no tempo e rever uma das mais sinistras figura da minha memorável infância: o dono da bola. Aqueles que, como eu, passaram grande parte da infância a jogar a bola, lembram-se, com certeza, que durante a década de oitenta eram poucos os que tinham um esférico a sério! A maior parte de nós passava longas horas a jogar com bolas de trapos ou de meias. E a imensa criatividade dos miúdos do meu tempo proporcionou-nos o prazer de jogar futebol com bolas de vários tipos e feitios, sendo as mais «sofisticadas», aquelas que o Narciso fazia: envolvia um monte de plásticos em peúgas militares, até formarem um grande esférico. Depois cobria-o com restos de colchão de esponja, para dar-lhe elasticidade. Por fim, envolvia o esférico esponjado num saco plástico, entrelaçando-o com cordas de barbante que lhe dava o aspecto atractivo.


Bola do género daquelas que o Narciso Fazia. Foto de Pedro Soares


Claro que, enquanto incondicionais amantes do futebol, o nosso ardente desejo e a nossa mais profunda ambição era jogar com um esférico a sério, quer fosse de borracha ou de «catchu». Mas, naquele tempo, as ditas bolas eram um raro bem, apenas ao alcance dos clubes a sério, das equipas dos caçulinhas e dos filhos dos «pequenos burgueses».

É neste contexto que os poucos proprietários de um esférico a sério surgiram como figuras marcantes da nossa infância. E de todas essas figuras com as quais me deparei, uma delas destaca-se como paradigma perfeito da confrangedora situação vivida pelas cada vez mais passivas figuras da oposição política, da intelectualidade nacional e das lideranças sindicais, sociais e eclesiásticas.

Por razões pessoais, vou omitir o seu verdadeiro nome e chamar-lhe Jota-Jota. Apesar de ser um bom miúdo, Jota-Jota nunca foi um daqueles jogadores indispensáveis, quer nas equipas da nossa rua, quer nos grupos que actuavam nos pelados das escolas que circundavam o nosso bairro. Na maior parte das vezes, ele só entrava em campo nos dias em que havia pouco pessoal.

Mas, por caprichosa conspiração do universo, tudo mudou a seu favor quando umas das tias vinda de Luanda entregou-lhe uma prenda carinhosamente enviada pelo padrinho que vivia em Portugal: uma novinha bola de «catchu» mikasa e um equipamento completo da Adidas, daqueles com fato olímpico, calções, camisola, meias e chuteiras. Assim, por ser dono da mais cobiçada bola do meu tempo, Jota-Jota passou a ser o miúdo mais adulado e o jogador mais procurado da minha rua.

A bola dos nossos sonhos

Cansados de jogar com as «sofisticadas» bolas do Narciso e ansiosos por colocar os nossos pés descalços na bendita mikasa preta e branca, pressionamos o novo dono a marcar um jogo de estreia. Mas só no dia do desafio nos apercebemos que o Jota-Jota, como qualquer dono da bola que se preze, iria usar a mikasa como instrumento de poder e de influência. Os caprichos e desmandos que um esférico de «catchu» lhe conferia vieram logo ao de cima na altura do «bota-sapato».

Para quem não sabe ou não se lembra, o «bota-sapato» era um «democrático» mecanismo que determinava a escolha das equipas. Dois jogadores ofereciam-se ou eram escolhidos para seleccionarem os elementos das suas equipas. Marcava-se um ponto de referência. Os dois jogadores davam a mão e, partindo desse ponto, recuavam até uma certa distância, a partir da qual começavam a contar os passos em direcção ao ponto de referência. Por cada passo dado um dizia «bota» e outro respondia «sapato». Aquele que alcançasse primeiro o ponto de referência tinha direito à primeira escolha.

Fui escolhido para apadrinhar o primeiro «bota-sapato» do dono da bola. Durante o percurso em direcção ao ponto de referência, Jota-Jota deu dois passos a mais e ganhou o direito à primeira opção. Todos vimos a monumental batota. Mas, levados pela ânsia de jogar com uma bola a sério, acabamos por desculpar a fraude.

Jota-Jota, ciente do ascendente que passou a exercer sobre nós, estava decidido a ficar com os melhores em campo. E esta pretensão ficou clara quando anulou as minhas primeiras escolhas que tinham recaído sobre o Nato (Bernardo) e o Enoque, que eram, respectivamente, o melhor guarda-redes e o mais temível avançado do nosso Bairro. Esta situação gerou uma longa discussão que só terminou quando o Jota-Jota decidiu ir para casa.

Naquele tempo, levar a respectiva bola era o mais poderoso instrumento de chantagem que os donos gostavam de usar para fazerem vincar os seus desmandos e caprichos. Assim, vergados pela força da chantagem e determinados em não deixar escapar a rara oportunidade de jogar com uma mikasa, acabamos por acatar a desonesta e arrogante imposição.

Depois dos desentendimentos iniciais, lá começou o jogo que se tornou recheado de controvérsias. A minha equipa marcava um golo. Os batoteiros do outro lado apressavam-se a invalidá-lo. Discussão. É golo... não é... é golo... não é... E lá vinha o Jota-Jota: «vou levar a bola!» E nós: «ta bem, pronto... não foi golo». Um jogador da minha equipa dá um encostão ao adversário na zona do meio campo. Jota-Jota pega na bola e decide assinalar... grande penalidade. Os ânimos exaltam-se. Perante a tenaz resistência dos adversários, o dono da mikasa decide: «vou levar a bola!» E nós, preferindo engolir a fraude monumental a perder o jogo, lá acabamos por fazer-lhe a vontade: «ta bem, pronto... é penalti».

Apesar da batota dos adversários, chegamos a meio do jogo a ganhar por 6-3. O grande responsável pelo esmagador resultado chamava-se Bato (Bartolomeu). Este miúdo, escolhido a ultima da hora para reforçar a minha desfalcada equipa, revelou-se um grande e habilidoso jogador, um genuíno «brinca na areia» que destronou o temido Enoque e fez o Nato parecer um vulgar guarda-redes. Esse Bato protagonizou um incidente que mudou o curso do jogo.

Naquele tempo era suprema humilhação um jogador permitir que o adversário conseguisse passar-lhe a bola por entre a s pernas (dar da «ova» ou das «cuecas»), driblar-lhe em sprint (levar na «colola») e fazer passar-lhe a bola por cima da cabeça (dar «cabrito» ou fazer «chapéu»). O habilidoso Bato, que se revelara um mestre da «colola» e que já tinha dado «das cuecas» de todos os adversários, cometeu a imperdoável heresia de dar duplo «cabrito» ao dono da bola.

Desolado com a pesada derrota da sua equipa e sentindo-se humilhado pelo Bato, Jota-Jota pegou na preciosa mikasa e, sem explicações, começou a abandonar o campo. Depois de suplicantes pedidos de desculpas do Bato e de longos minutos de uma autêntica batalha diplomática, lá conseguimos convencê-lo a esquecer o humilhante incidente e a regressar ao campo.

Ciente da sua dominante posição, o dono da bola decidiu retomar a partida impondo duas grandes condições: o jogo recomeçava empatado a 6 golos e o Bato passava para equipa dele. De início, insurgimo-nos com veemência. Mas, depois, cedemos, acabando por tolerar as injustas condições.

É escusado dizer que a minha decapitada equipa sofreu um autêntico «massacre». Mas, o que valeu mesmo e constituiu para nós um supremo prazer foi o facto de aquela bola de «catchu» nos ter dado a possibilidade de encarnarmos os nossos ídolos e explanarmos todo o nosso futebol. E por felizes momentos deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser Ndunguidi, Maluka, Sarmento, Jesus, Vata, Napoleão, Chico Diniz, Arsénio, Maradona, Rummenigge, Dasaev, Boniek, Paolo Rossi, Zico, Platini, etc.

Pois é, meus caros. O actual cenário da política angolana não difere muito das peripécias narradas por este incrível episódio da minha memorável infância. E a oposição política, as principais instituições civis e religiosas, as lideranças sindicais, as ordens profissionais e alguns intelectuais proeminentes continuarão a submeter-se, de forma humilhante e preocupante, aos caprichos e desmandos dos donos de Angola pelo facto de vivermos numa sociedade empobrecida, onde os mecanismos que possibilitam o justo acesso aos chamados «bens socialmente desejados» (habitação, alimentação, educação, saúde, emprego, etc.) continuam concentrados nas mãos do núcleo duro que detém o poder e domina a sociedade angolana.

Assim, no quotidiano jogo pela realização pessoal e sobrevivência sociopolítica, esbarramos, constantemente, contra uma super-estrutura partidária que se confunde com o Estado e que controla os acessos aos bens materiais necessários ao nosso bem-estar e à nossa estabilidade familiar e económica. E cansados de jogar com as «sofisticadas» «bolas de trapos» que dispomos no quotidiano jogo pela sobrevivência, temos sido forçados a recorrer aos nossos «Jota-Jotas» para usufruirmos dos preciosos bens capazes de tornar menos pesado o duro fardo da vida.

E, para continuarmos a desfrutar de um «esférico» a sério, já sabemos o que não se deve fazer aos poderosos donos da bola: dar «cabrito» ao Presidente Eduardo dos Santos, nem pensar! E os «Batos» que ousaram fazê-lo, sofreram as devidas consequências. Os atrevidos que tentarem Levar na «colola» os altos dirigentes já sabem que correm o risco de levar um «carrinho» mortal ou uma daquelas entradas duras, capazes de deixá-los gravemente lesionados. Dar das «cuecas» do governo do MPLA pode desencadear a perda da casa, do carro, dos dólares, das bolsas de estudo, da junta médica, dos subsídios do partido, dos negócios, dos privilégios e de outras regalias.

E, assim, no quotidiano jogo da realização pessoal e da sobrevivência socio-política, contestar os nossos «Jota-Jotas» transformou-se num risco que poucos se atrevem a correr. E usufruir das «bolas de catchu» proporcionadas pelo poderoso sistema transformou-se num deleitante prazer que ninguém deseja abdicar. Por isso, entre nós, tornou-se preferível suportar os caprichos e desmandos dos donos das preciosas «mikasas» a jogar honestamente com as «bolas de trapos» da nossa empobrecida sociedade.


José Maria Huambo